Ginecologia Natural: Amor pelo Feminino

Os saberes ancestrais ligados à saúde das mulheres são um convite para a liberdade de se conhecer – e de se amar – profundamente

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Aos 12 anos, quando menstruou pela primeira vez, a ecofeminista Mónica Guerra Rocha chorou. Junto com o sangue veio o choque. A menina, agora moça, sabia que encontraria pela frente submissão e repressão – golpes de uma cultura que insiste em desvalorizar o feminino.

Bem mais tarde, o que parecia sina virou bênção. Ela descobriu a real feição do sangue menstrual: seiva rica em nutrientes. Passou a usar coletor menstrual e a devolver seu fertilizante natural para a terra, como nossas ancestrais faziam há milhares de anos. “Entendi que eu e a natureza somos feitas da mesma matéria”, ela revela no TED “A Terra é uma mulher e o meu útero, o universo“. Desse dia em diante, passou a enxergar a potência de ser mulher.

Se estamos desconectadas da natureza, também estamos desligadas dos ciclos do corpo feminino e da força que eles expressam. Daí o surgimento de sintomas como períodos irregulares, cistos nos ovários, endometriose, miomas, cólicas, candidíase, infertilidade, TPM desmedida, em suma, sofrimento. Não há como não questionar: O que essas manifestações estão querendo nos dizer?

Resgate da ginecologia natural

Felizmente, a ginecologia natural, movimento vindo da América Latina, que resgata conhecimentos ancestrais das mulheres em seus cuidados íntimos, está ressurgindo e oferecendo não só tratamentos naturais, como também a possibilidade de aprofundarmos a compreensão de nós mesmas por meio de uma escuta atenta ao próprio corpo e às emoções.

 “O nosso sistema ginecológico responde às emoções relacionadas ao nosso feminino”, afirma Kareemi, jornalista, palestrante motivacional e criadora do workshop Ginecologia Emocional®. Para Kareemi, a ginecologia emocional é “um caminho de reconexão feminina que reverencia o útero como o verdadeiro coração da mulher e o ciclo menstrual como um mapa comportamental”.

Ginecologia natural aliada à medicina convencional

Antes de avançarmos, é importante esclarecer que a ginecologia natural – ou mesmo a ginecologia emocional, cunhada por Kareemi – não renega a medicina convencional. Muito pelo contrário. As duas caminham juntas. Uma complementando a outra. Até porque, muitas vezes, o tratamento alopático pode mesmo ser indispensável.

“Em casos agudos e emergenciais, como infecções e hemorragias, a alopatia é necessária. O que a ginecologia natural não apoia de forma alguma é a prescrição indiscriminada de anticoncepcional como forma de tratamento para doenças ginecológicas”, sustenta a Bel Saide, ginecologista e obstetra formada pela UERJ, criadora do projeto Ginecologia Natural.

A iniciativa nasceu do inconformismo. Desde a época universitária, Bel se sentia incomodada com a visão restrita da medicina convencional, alheia aos aspectos mentais, emocionais e espirituais do ser humano.

Quando fez a formação para se tornar facilitadora em Ginecologia Natural, sentiu como se voltasse para casa. Viu que é possível tratar das questões femininas com amorosidade e conexão profunda com a essência do Ser. Sua especialidade ganhou, então, um novo alcance.

A ginecologia natural devolve a autonomia 

Dito isso, agora podemos voltar à história da Kareemi. Aos 16 anos, ela foi diagnosticada com a Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) e, por recomendação médica, tomou anticoncepcional durante 16 anos.

Nas vezes em que tentava  parar o medicamento, os sintomas reapareciam. “Precisei buscar uma alternativa de entendimento e reversão desse quadro, porque a pílula estava camuflando um problema que precisava ser tratado de outra maneira”, lembra.

Buscadora, ela foi vasculhar e estudar. Medicina Chinesa, Ayurveda, Medicina Quântica, Metafísica da Saúde, Constelação Familiar. Tudo o que encontrou pelo caminho serviu para que, hoje, ela ajude outras mulheres a se reapropriarem do direito de ter autonomia para cuidar de si mesmas – do jeito que melhor atende às necessidades de cada uma – e encontrar as próprias respostas. Conectar-se com a energia da Lua a cada semana, inclusive, é uma poderosa ferramenta.

“Precisamos desenvolver um tipo de autoconhecimento que nos ajude a compreender as próprias emoções para entendermos o que nossos corpos estão nos dizendo”, defende Kareemi. 

Não podemos nos esquecer que milênios de domínio patriarcal ainda atravessam os corpos e as mentes das mulheres, abalando a autoestima e a autoconfiança. Quem nunca associou menstruação à sujeira, vergonha, fraqueza?

“O controle do ciclo menstrual está bastante ligado à misoginia e ao controle dos corpos femininos numa sociedade patriarcal castradora em relação às mulheres”, lembra Bel.

Energias femininas em equilíbrio

O autocuidado acende o amor próprio e altera a vibração energética das mulheres, segundo Aysha Almeé, bailarina, naturopata, terapeuta tântrica, estudante de farmácia e facilitadora do círculo Poderes do Feminino.

“Apesar de a ginecologia natural ser uma medicina ancestral, ela reflete uma busca muito contemporânea, que tem a ver com assumir o cuidado que é pra gente, para o nosso prazer, para a nossa beleza, para a nossa sensibilização e não para agradar o outro ou para se adequar a algum molde”, observa. 

Verdade seja dita. As expectativas e cobranças externas – como devemos nos comportar, como deve ser a nossa aparência, como devemos nos tratar – nos enrijeceram e fizeram com que nós mesmas rejeitássemos o ser mulher, bloqueando o fluxo energético sutil, que, por sua vez, acarreta manifestações físicas.

“Segundo a linha de tantra taoísta, as mulheres têm um sistema energético que envolve ovários, útero, vulva, clitóris, seios, tireoide, pineal. Juntos eles colaboram para o equilíbrio do corpo feminino”, explica Aysha.

Além disso, acrescenta, existe a questão emocional refletida nos órgãos e glândulas. Os processos femininos cruciais – primeira menstruação, perda do hímen, casamento, gestação, parto, separação, aborto, abuso sexual ou emocional, menopausa – provocam mortes psíquicas, ou seja, não podemos voltar a ser o que éramos e precisamos nos reinventar.

“A mulher lida com essas mortes psíquicas o tempo inteiro. Então, o autocuidado, o contato com o corpo e o convívio com outras mulheres em círculos femininos são necessários”, propõe a terapeuta.

Mulheres conectadas são mais fortes

Cada mulher vai descobrir, a seu tempo, o que esse novo olhar da ginecologia natural irá lhe revelar. As especialistas, contudo, notam um fenômeno comum. Segundo elas, o conhecimento do próprio corpo e a conexão com a natureza cíclica promovem uma profunda retomada do poder interior.

É quando as mulheres compreendem a força que vem da energia do feminino, da potência do útero, da intuição como guia, da compreensão do que significa ser mulher e do amor que nos inunda uma vez que chegamos – ou retornamos – a esse lugar.

Traga a ginecologia natural para o dia a dia

Veja como se harmonizar com o feminino por meio de práticas da ginecologia natural

  • Ciclar naturalmente, se libertar de hormônios e conhecer o próprio ciclo. “Essa mudança, por si só, gera uma revolução na vida da mulher”, assegura Kareemi.
  • Conhecer formas naturais de evitar a gravidez. Se a mulher conhece seu ciclo, ela sabe quando está fértil. “Ter acesso a esse conhecimento é uma experiência transformadora”, diz Bel Saide.
  • Evitar os absorventes descartáveis. “Eles são altamente tóxicos, fazem mal para o nosso sistema ginecológico, além de proliferar bactérias e fungos na vulva e vagina”, alerta Kareemi. Prefira opções como coletores, absorventes feitos de 100% algodão ou calcinhas menstruais.
  • Buscar o autocuidado por meio de chás, ervas, banhos de assento, vaporização do útero, óleos essenciais, essências florais. Mas, atenção: é preciso descobrir o que funciona para você e buscar a orientação adequada para cada mulher individualmente.
  • Se tocar e se abrir para o prazer. “A sexualidade, o prazer e o orgasmo são fundamentais para a saúde física, psíquica e energética da mulher”, destaca Aysha.