É Possível Meditar com o Corpo em Movimento

Na meditação ativa, trabalhos corporais ou um simples caminhar liberam energia e convidam a mente a se aquietar

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Sentados, estáveis como uma montanha, meditamos. Quando o corpo encontra parada, ele ajuda a mente a se acalmar. Mas essa não é a única possibilidade. A meditação ativa nos mostra que podemos desfrutar da prática nos colocando em movimento. Caminhando, por exemplo.

O mestre zen budista, Thich Nhat Hanh, nascido no Vietnã, caminha pelo bosque do monastério Plum Village, no sul da França, um dos mais importantes centros de mindfulness do mundo. Atrás dele, um séquito de discípulos acompanha, em silêncio, o ritmo vagaroso do líder. Faz frio. Estão todos bem agasalhados.

Adiante, o documentário Caminhe Comigo – que retrata o dia a dia da comunidade espiritual –, disponível no Netflix, mostra o mesmo grupo num dia chuvoso. Protegidos por guarda-chuvas, os monges avançam calmamente, em paz com o aguaceiro. 

Mais alguns minutos e lá estão eles, de volta ao bosque. Dessa vez, debaixo do sol. Pé ante pé. Inteiros. Em contato com a gama de sensações despertadas pelo passeio no campo. Nos três momentos, o clima é tão somente um dado da realidade. A prática da meditação ativa segue, porque corpo, mente e espírito acolhem o instante. Do jeito que ele é. 

“A prática de mindfulness é a de chegar sempre. Chegar no aqui e no agora. A vida e todas as suas maravilhas só estão disponíveis no presente”, ensina Thich Nhat Hanh. Segundo ele, é dessa forma que podemos “aprender a viver profundamente, sem desperdiçar a nossa existência”.

O que é a meditação ativa

Já o mestre espiritual indiano Osho (1931-1990), por sua vez, nos deixou algumas meditações ativas. Práticas que mesclam movimentações corporais, dança, respiração e emissão de sons – vias de liberação energética e emocional – para, só então, se chegar à observação da mente em repouso.

“Ele concebeu essas técnicas nos anos 1960, partindo da premissa de que, se nós ocidentais simplesmente sentássemos e meditássemos, encontraríamos um trânsito mental caótico”, explica Dayita Ma Gyan, terapeuta de bioenergética e facilitadora do espaço Lótus – Terapias e Meditação, em São Paulo.

Além de proporcionarem centramento, as linhas de meditação ativa convidam sentimentos congelados a fazerem parte da nossa vida, pois favorecem a liberação de traumas, desejos reprimidos, frustrações. 

“Para Osho, todo ser humano nasce em profunda conexão com sua essência espontânea, amorosa e bela. No entanto, os condicionamentos sócio-culturais vão nos afastando dessa formatação original”, esclarece Dayita.

Como praticar a meditação ativa

A seguir, apresentamos duas modalidades criadas por Osho: a meditação dinâmica e a meditação kundalini. Músicas compostas especificamente para cada modalidade guiam o meditador ao longo dos vários estágios – é possível encontrar playlists no Spotify, Apple Music e até no Youtube, por exemplo.

Meditação dinâmica

Técnica vigorosa e antidepressiva, ela nos coloca em alerta. Por isso, essa meditação ativa é indicada para as manhãs. Seus estágios envolvem respiração acelerada e livre expressão: gritos, socos em almofadas, deboche, xingamentos e risos.

Depois dessa catarse, então, vem a entoação do mantra “hoo, hoo, hoo”, associado à força do guerreiro interno, e pausa silenciosa com os braços erguidos.  A meditação dinâmica se encerra com uma dança celebrativa.

Meditação kundalini  

Kundalini, em sânscrito, se refere à energia vital, também entendida como energia sexual ou libido – ligada à criatividade e à conexão com a vida. Essa meditação se baseia em chacoalhões acompanhados de respiração solta e liberação de sons, seguidos por uma dança espontânea até se chegar à quietude. 

Assim, a energia ascendente vai despertando os chacras e provocando a revitalização do ser como um todo, além de equilibrar a sexualidade. “Ela é uma potente ferramenta para aliviar o estresse, acordar emoções e produzir intenso relaxamento”, garante a facilitadora, que sugere a prática no entardecer, momento propício ao recolhimento.

A meditação kundalini tem quatro estágios de 15 minutos cada:

Primeiro estágio: De pé, olhos fechados, pernas afastadas, joelhos destrancados e maxilar relaxado, comece a se chacoalhar suavemente, como se uma vibração subisse a partir dos pés. Deixe essa sensação se expandir e vá soltando braços, pernas, pélvis e pescoço enquanto a respiração flui naturalmente. Você também pode suspirar e emitir sons espontâneos. Nessa fase, a música vibrante e ritmada ajuda o corpo a estremecer.

Segundo estágio: o vibrar vai se transformando numa dança liberta cujo intuito é celebrar o momento. Deixe seu corpo se expressar e mergulhe nos movimentos sem pensar. Torne-se a dança. A música festiva coloca o praticante em contato com a alegria interior.

Terceiro estágio: sente-se confortavelmente em posição meditativa – você pode encostar numa almofada ou sentar-se numa cadeira. O objetivo é encontrar o seu silêncio e se observar, livre de julgamentos. Agradeça os pensamentos e os deixe partir, sem se apegar ou se identificar com eles. A suavidade da música conduz à introspecção e aproxima o indivíduo do inconsciente.

Quarto estágio: deitado, braços relaxados ao lado do corpo, permaneça de olhos fechados e quieto. O objetivo aqui é se permitir relaxar profundamente. Nesse momento, não há música. No final, três sinos irão tocar para que você se reconecte lentamente com o seu corpo e com o espaço por meio de movimentos suaves. ▲