Energia limpa: de alternativa a opção necessária

Quais são as fontes mais amigáveis para o planeta e as pessoas e por que é tão urgente reduzir os combustíveis fósseis na matriz energética global
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21.06.2022

Desde os primórdios, a humanidade obtém energia de diferentes fontes da natureza para suas atividades cotidianas. Até o início da Revolução Industrial, por volta de 1850, o calor do sol e a madeira (biomassa) eram usados para gerar fogo e, com ele, cozinhar, iluminar e aquecer nossas casas. Da mesma forma, os moinhos de vento, lá atrás, já transformavam a energia eólica em cinética para moer grãos e bombear água, por exemplo.

Mas, com o desenvolvimento da indústria e o surgimento das máquinas a vapor, em pouco tempo o carvão mineral e os combustíveis derivados do petróleo passaram a dominar a matriz energética global. Se, por um lado, foram os combustíveis fósseis que proporcionaram inúmeros avanços na qualidade de vida das populações, hoje também estão na conta deles a poluição do ar – que mata sete milhões de pessoas ao ano – e o maior de todos os nossos desafios atuais: o colapso do clima.

É que a queima desses combustíveis (carvão mineral, petróleo e gás natural) emite gases de efeito estufa na atmosfera, interferindo diretamente no aumento dos riscos do aquecimento global e, portanto, agravando as mudanças climáticas. Além disso, em termos de saúde pública, os materiais particulados gerados nesse processo são minúsculos o bastante para atravessar nossos pulmões e provocar danos respiratórios e até cardiovasculares. Só para ilustrar, em 2019 mais de 90% da população global vivia em áreas com concentrações desse material particulado que excediam os níveis recomendados pela Organização Mundial da Saúde.

os moinhos de vento, lá atrás, já transformavam a energia eólica em cinética para moer grãos e bombear água, por exemplo.

Por um mundo mais regenerativo

“Hoje mais de 83% de toda a energia gerada no mundo vem dos combustíveis fósseis, principalmente na China”, diz o professor de Planejamento Energético Marcos Freitas, do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (COPPE), ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro. Apesar dos esforços para tornar sua matriz menos intensiva em carbono, o país ainda é o maior consumidor mundial de carvão mineral, graças às usinas termelétricas que movimentam sua robusta economia.

Diante dos efeitos colaterais provocados pelo uso excessivo dos combustíveis fósseis, a humanidade se vê em uma encruzilhada. É preciso mudar a matriz energética, buscar fontes não somente renováveis na natureza, mas também mais limpas do ponto de vista socioambiental. Mas o que é isso, afinal?

“Energias limpas são aquelas que não resultam em impactos sociais e ambientais, sejam eles no ar, na água ou no solo”, explica Ricardo Baitelo, coordenador de projetos do Instituto Energia e Meio Ambiente (IEMA), parceiro do Observatório do Clima, e doutor em planejamento energético pela Escola Politécnica da USP.

Para Baitelo, as energias renováveis (hidrelétricas, solar, eólica e biomassa) têm capacidade e potencial para fazer a diferença nesse saldo ainda tão devedor. No entanto, a balança entre custos e benefícios depende muito de como cada projeto é pensado e realizado. “É tudo uma questão de como se faz cada projeto, para que ele possa ter de fato o menor impacto socioambiental possível, o que nem sempre acontece”, ele frisa.

O caminho está na redução de danos

Vejamos o caso das hidrelétricas. “É uma energia que vem da chuva, é renovável e tal, mas grandes áreas alagadas para os reservatórios trazem impactos socioambientais importantes, como o deslocamento de populações tradicionais e a geração de metano liberado pela matéria orgânica inundada. Além disso, as hidrelétricas geram desmatamento, alteram a curva do rio com impactos na fauna e na flora e, na Amazônia, fatalmente impactam terras indígenas e unidades de conservação”, pondera Baitelo.

Marcos Freitas, da COPPE, concorda. “Se levarmos ao pé da letra, nenhuma energia é limpa porque sempre há impactos. Mas podemos e devemos optar por fontes menos agressivas e poluentes do que os combustíveis fósseis”, reforça.

Na hora de escolher, é preciso computar perdas e ganhos com cautela e atenção. Como exemplo, Freitas menciona a energia nuclear, que poderia até ser considerada limpa já que não emite gases de efeito estufa. “O problema é que ela preocupa pelo risco que qualquer acidente pode trazer e também pelo lixo nuclear, que é sempre uma questão. Isso tudo não faz dela uma boa opção, até porque temos alternativas melhores”, avalia o professor.

Nesse sentido, a energia eólica ganha destaque. “O Brasil tem potencial grande e a tecnologia vem se desenvolvendo bastante, principalmente no Nordeste e no Sul. Temos hoje cerca de 20 gigawatts de capacidade instalada em energia eólica no país. É mais do que a usina de Itaipu, que tem 14 gigawatts de capacidade instalada”, ele compara.

“E dá para evitar os impactos socioambientais com um bom projeto. Temos exemplos de convívio de usinas eólicas com plantio de arroz, boa relação com a vizinhança, baixa emissão de ruídos e até recebimento de royalties”, conta Baitelo.

Já a energia solar, segundo ele, tem a grande vantagem de poder ser gerada no próprio local de consumo, dispensando custos e impactos com sistemas de transmissão. “E tem ainda a questão educativa, de as pessoas poderem instalar painéis fotovoltaicos em suas casas e gerar sua própria energia, o que é muito legal”, defende ele, lembrando que 70% da energia solar produzida no Brasil vem desses telhados descentralizados e apenas 30% são provenientes de fazendas solares.

No setor de transportes, quem desponta com grande potencial é a energia que vem da biomassa. “Temos hoje um enorme potencial de produção de biodiesel a partir do cultivo de palma para extração do óleo de dendê, por exemplo. Mas é preciso que haja incentivo, investimento no setor. Área para cultivar não falta”, afirma Marcos Freitas.

Pensando em geração de eletricidade, a biomassa também tem capacidade para incrementar a matriz brasileira. “Além da produção do etanol com a cana de açúcar, que ainda é uma monocultura, mas com aprimoramentos importantes em termos ambientais, há também o aproveitamento do bagaço da cana para geração de energia elétrica, em uma cadeia em que a emissão de CO2 pode ser neutra com o sequestro do gás que ocorre na safra seguinte”, explica o engenheiro Ricardo Baitelo.

O segredo é diversificar

Quando o assunto é aumentar o percentual de energia limpa na matriz energética nacional e mundial, quanto mais opções tivermos, melhor. “O ponto ótimo nessa história é diversificar as fontes de energias limpas para reduzir ao máximo a participação dos combustíveis fósseis”, defende Baitelo.

Nesse sentido, o Brasil tem tudo para expandir o percentual de energia limpa. “O avanço tecnológico tem ajudado bastante e as preocupações sobre o clima acabam por também aumentar nosso entendimento em relação à importância de diversificarmos a matriz, incorporando mais eólica, solar e biomassa, principalmente”, diz Marcos Freitas.

Por enquanto, a população pode entrar nessa história gerando energia elétrica em casa a partir de placas fotovoltaicas e, em alguns casos, com pequenas turbinas eólicas. E, claro, deixando o carro mais vezes na garagem, usando mais a bike ou comprando veículos elétricos.

No Congresso Nacional já há uma discussão sobre a possibilidade de podermos escolher de quem queremos comprar a energia que vamos usar. “Quando e se isso acontecer, poderemos optar por comprar de uma carteira mais limpa. Isso é o futuro”, finaliza Baitelo.

Produção de Eletricidade por Fonte, no Mundo

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