Amazônia: Depois de Queimadas, Bioma Pode Levar Séculos para se Regenerar

Mais em risco do que nunca, ela representa um terço das florestas tropicais do mundo e abriga 20% de toda a água do planeta. Mas queimadas e desmatamento comprometem a biodiversidade – e também a vida como conhecemos
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30.05.2022

A humanidade enfrenta a maior ameaça dos últimos séculos: a crise climática. Uma das soluções para que a temperatura média do planeta não suba mais do que dois graus nas próximas décadas e cause alterações irreversíveis nos ambientes naturais é evitar que mais carbono seja emitido para a atmosfera.  Proteger as florestas é um dos caminhos fundamentais para alcançarmos essa meta.

A Amazônia representa um terço das florestas tropicais do mundo e é lar de metade da biodiversidade do planeta. Isso mesmo: metade. São 5,5 milhões de km2, sendo 4.196.943 milhões de km2 em território brasileiro.  Com áreas em nove países – Brasil, Peru, Venezuela, Colômbia, Bolívia, Guiana, Suriname, Equador e Guiana Francesa – a Amazônia é a maior floresta tropical do mundo. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, neste bioma habitam 2.500 espécies de árvores e 30 mil das 100 espécies de plantas da América do Sul.

A região também é um dos mais importantes reservatórios de água doce da Terra, com a maior bacia hidrográfica do planeta com 20% da água doce mundial. A manutenção de florestas nas margens de rios evita erosões, assoreamentos e garante alimento para vários organismos aquáticos e o seu principal rio, o Amazonas, lança ao Oceano Atlântico cerca de 175 milhões de litros d’água por segundo.

Ilustração de mapa

 Amazônia nunca esteve tão em risco

A grandiosidade ambiental também se reflete em um grande potencial de emissão de carbono. Segundo dados do Instituo de Pesquisas da Amazônia (Ipam), o desmatamento na região representa a liberação de 200 milhões de toneladas de carbono por ano (2,2% de todo o fluxo total global).

Outra má notícia é que nunca estivemos tão perto de perdermos a integridade que mantém o delicado equilíbrio da floresta. Sem ações urgentes, o grande trunfo brasileiro no enfrentamento da crise climática e hídrica, a maior floresta tropical do mundo, está muito próximo de tornar-se um problema. 

Fotografia da Amazônia

A Amazônia já perdeu 20% de sua cobertura florestal entre 1970 e 2020, e tem outros 20% muito degradados, seja por exploração não planejada de madeira ou pelo fogo, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).   Essa área já tem a sua capacidade de capturar carbono muito menor. “Estamos chegando a um ponto em que a Amazônia, um sumidouro de carbono, está passando a ser neutra e em algumas regiões emitem mais que absorvem”, alerta Tasso Azevedo, engenheiro florestal e diretor do Observatório do Clima.

O Brasil está entre os maiores emissores mundiais de gases do efeito estufa (GEE). Os dados mais recentes do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases do Efeito Estufa (SEEG) mostram que a mudança de uso da terra é o que mais contribui para as emissões de GEE no país, respondendo por 46% – já a fatia da agropecuária nesse montante é de 27%.

Fotografia da Amazônia

Essa dinâmica de mudança do uso da terra se resume na conversão de florestas em áreas de pastos, lavouras e outras atividades e se dá, principalmente, pelo desmatamento. Infelizmente, as derrubadas também aumentaram 22% no último ano (2021), atingindo 13.235 km2, segundo o Inpe. As queimadas são um dos mais graves problemas. A pesquisadora sênior nas universidades de Oxford e Lancaster (Reino Unido), Erika Berenguer, especialista em florestas tropicais que integra a Rede Amazônia Sustentável (RAS), explica que o grande impacto de uma queimada na floresta acontece quatro anos depois.

Há mais de uma década, Erika estuda os impactos do fogo na maior floresta tropical do mundo. No artigo “Estimating the multi-decadal carbon deficit of burned Amazonian forests”, resultante de um estudo liderado pela pesquisadora Camila V. J. Silva, foi constatado que os efeitos das queimadas na floresta não terminam com o fim dos incêndios. “O auge das emissões de CO2 acontece quatro anos depois, e elas perduram por mais de três décadas. Nesse período, a floresta só recompõe 35% da sua capacidade de captura de carbono”, diz Erika. A ciência também ainda não sabe afirmar se a floresta consegue se recuperar por completo de uma queimada e sua restauração só pode ser calculada em séculos.

Fotografia da Amazônia

Amazônia: Indígenas são chave para preservação do bioma

A boa notícia é que além da biodiversidade ambiental, a sociobiodiversidade amazônica é uma chave para todos esses problemas. Os povos indígenas e populações tradicionais que ali vivem são os grandes aliados no enfrentamento aos vetores do desmatamento da floresta.  Os números comprovaram que essas pessoas são os melhores guardiões da floresta em pé.  Do total do que foi desmatado desde 1970 até hoje, menos de 1,7 % aconteceu em terras indígenas demarcadas. 

Segundo o relatório Povos indígenas e comunidades tradicionais e a governança florestal”, da Organização das Nações Unidas e a Agricultura (ONU/FAO) junto do Fundo para o desenvolvimento dos povos indígenas da América Latina e do Caribe (FILAC), garantir a segurança das populações indígenas e a manutenção das reservas e territórios dos povos originários é uma maneira eficaz de cuidar das florestas. 

A realidade mundial também se reflete no Brasil, como aponta o estudo fruto da parceria do Inpe e do Instituto Socioambiental (ISA). Na Amazônia, as terras indígenas e unidades de conservação de uso sustentável mantêm mais de 90% de floresta em seus territórios.  Reconhecer os direitos e dar suporte às populações tradicionais para que elas cuidem e vivam da floresta é o jeito mais concreto e simples de proteger a Amazônia.   “Não tem nada mais objetivo, prático e barato do que legitimar as pessoas que são os protetores da floresta”, diz Tasso Azevedo.

Fotografia da Amazônia

Uma proposta muito parecida surgiu na abertura da 26ª Cúpula do Clima, a COP-26, que aconteceu em 2021, no Reino Unido. Walelasoetxeige, a jovem Paiter-Suruí de 24 anos e primeira brasileira indígena a discursar em uma COP, nos desafiou com a dura realidade dos que vivem e resistem na fronteira do desmatamento. “Os indígenas podem ter ideias melhores do que as nossas para adiar o fim do mundo”, afirmou Txaí Suruí durante o seu discurso na COP-26, em referência ao livro do escritor indígena Ailton Krenak.

Rondônia, onde estão as terras indígenas Suruí, foi apontado pelo IPCC como uma das regiões prioritárias para se combater o desmatamento e uma das mais novas fronteiras da degradação da Amazônia.  Segundo dados do  (SEEG), os nove estados da Amazônia emitiram, em 2020, o equivalente a 50% de todas as emissões nacionais. A emissão anual nacional em 2020 foi de 2,160 bilhões de toneladas de carbono, sendo 1,011 bilhões nos estados da Amazônia Legal. Pará, Rondônia e Mato Grosso são os maiores emissores da região. 

Fotografia de Walelasoetxeige

Floresta de pé é mais lucrativa

Se queremos levar a sério o enfrentamento das mudanças climáticas, manter a floresta em pé e fixar carbono, precisamos considerar as populações que há mais de dez mil anos vivem na Amazônia. A história dos Paíter Suruí mostra que as ideias propostas por Txai vão muito além da visão diferenciada dos indígenas para se relacionarem com os recursos naturais.

Aprender a sobreviver e a se reinventar após os terríveis impactos ambientais, sociais e culturais trazidos pela nossa sociedade pode ser um conhecimento valioso para todos no planeta, considerando a emergência apontada no relatório AR6, do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).

A violência sofrida pelos indígenas de Rondônia chegou a requintes de crueldade. Em 1964, o povo Tupi Mondé enfrentou massacres como do Paralelo Onze, quando aviões jogaram açúcar com arsênico e dinamites nas aldeias.  Uma mulher indígena foi cortada ao meio por jagunços armados. A foto imortalizou a luta dos Tupi Mondé por sobrevir na floresta.

Fotografia da Amazônia

Esse  contato abrupto foi trazido à porta das aldeias Suruí pela construção da rodovia Cuiabá-Porto Velho (BR-364), concluída em 1968.   O crescimento econômico empurrou a fronteira do desmatamento para a floresta e agravou o conflito entre fazendeiros, garimpeiros, povos indígenas, seringueiros e outros extrativistas. Para evitar a extinção total dos indígenas, a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), decidiu oficializar os postos do governo no território Suruí Paiter em 1969, com apoio dos sertanistas Francisco Meirelles e Apoena Meirelles, no então acampamento da Funai, Sete de Setembro, hoje a terra indígena Suruí, reconhecida como “minha aldeia”, por Txai.

“Meu pai (o líder Almir Suruí) sempre me disse que precisamos ouvir as estrelas. Foi com ele que também aprendi que a tecnologia pode ser um aliado dos indígenas”, diz Txai, de sua casa em Porto Velho.  O povo Suruí foi pioneiro em trazer uma grande empresa de tecnologia para ajudar a combater o desmatamento e a divulgar sua cultura.

“Tenho um tio avô vivo que sobreviveu ao contato [com o mundo do homem branco]. Acredito que foi a capacidade dos Suruí de perceberem que a tecnologia pode ser uma solução que tornou possível resistirmos até aqui. Em 2012, o meu pai fez uma parceria para colocar a terra indígena no Google Earth. E lá a pessoa pode encontrar a nossa cultura, onde foi lugar de guerra e locais sagrados. E quem produziu isso foi a própria comunidade. E esses são meios de colonização reversa. Ao invés de trazer para aldeia a ideia de lucro de sempre, vendemos a floresta e a vida para criarmos um sentido contrário. Levar para o mundo que temos mais qualidade de vida se tivermos uma floresta em pé.”, explica Txai. Quando será que o homem branco escutará essa verdade? 

Fotografia antiga

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