Hudson Anauá: Agrofloresta Transformando Pecuária e Mineração

Conheça o trabalho do viveirista florestal que, em duas frentes potentes de atuação, está regenerando uma área de rejeitos de mineração de granito e inspirando outro modelo de criação de gado leiteiro na Mata Atlântica da Hileia Baiana
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10.05.2022

Foram séculos de degradação e exploração comercial de seus recursos naturais. Da Mata Atlântica que já cobriu boa parte da faixa costeira do Brasil restam apenas 7% de sua cobertura original. E é justamente na área de maior biodiversidade deste bioma, a Hileia Baiana, entre o Sul da Bahia e o Norte do Espírito Santo, que vive e trabalha o viveirista florestal Hudson Freire Laviola Filho, de 33 anos. Ele é mais conhecido como Hudson Anauá, por causa do viveiro da família, que leva o mesmo nome.

Criado na roça baiana até os 18 anos, Hudson sempre teve uma ligação especial com a natureza. Filho de pecuarista, decidiu estudar Biologia na Universidade Federal do Espírito Santo. Mudou-se para Vitória, mas abandonou o curso no último semestre, durante a elaboração de seu trabalho de conclusão de curso (TCC), por divergências com professores, que tentaram impor um tema para sua pesquisa. 

“Foi quando decidi que precisava conhecer mais de perto algumas coisas, sabe? Passei três anos viajando pelo Brasil e América Latina, conhecendo comunidades indígenas e rurais. Vivi com ribeirinhos na Amazônia, que me trouxeram muitos ensinamentos sobre a floresta. Até então, a floresta para mim era como uma mancha verde e hoje sei que ela é muito mais do que isso”, afirma.

Fotografia da floresta

Hudson e um chamado para regenerar a terra

Hudson já conhecia um pouco sobre o conceito de agrofloresta. Mas foi durante um curso com Ernst Götsch no Sítio Semente, próximo a Brasília, que ele se encantou completamente. “Senti esse chamado para trabalhar com áreas degradadas, regenerando a terra com espécies nativas que podiam trazer, ao mesmo tempo, soberania alimentar e uma atividade lucrativa”, conta ele.

De volta à fazenda da família em Medeiros Neto, Bahia, a 80 km de Caravelas, ele resolveu criar com os pais o Viveiro Anauá (que significa “árvore florida”, em tupi guarani). E aqui é preciso fazer um parêntese. O pai de Hudson, pecuarista há décadas, foi um dos pioneiros a “desbravar” a região, derrubando mata virgem para criar gado, ainda nos anos de 1980. Na ideia do viveiro ele viu a possibilidade de compensar os estragos do passado e dar novos usos e propósitos à fazenda da família.

Na propriedade de 120 hectares nasceu o viveiro, que ocupa cerca de 5 mil m² e produz dois milhões de mudas por ano, vendidas a viveiristas e a projetos de reflorestamento. Assim, a pecuária aos poucos vai cedendo lugar à agrofloresta. Antes, a fazenda produzia 1500 litros de leite por dia. Hoje a produção não passa de 150 litros diários. 

No viveiro, a produção de mudas conta com um diferencial ecológico que a família fomenta na região. Elas são produzidas com uma tecnologia dinamarquesa chamada ellepot, que dispensa o uso de saquinhos plásticos. “No lugar do plástico, usamos tubetes biodegradáveis feitos de mistura de fibras de celulose, que imitam a própria planta. Assim, as mudas são plantadas nos próprios tubetes diretamente no solo, sem gerar estresse no sistema radicular das plantas. Isso nos permite evitar o consumo de plástico e a geração de lixo, e ainda garantir mudas que vão chegar mais saudáveis e fortes às áreas de restauração da Mata Atlântica”, diz, entusiasmado.

Fotografia de Hudson Anauá

De pecuária extensiva a agrofloresta

Atualmente, a Fazenda Anauá conta com sete hectares de agrofloresta, focada em fruticultura (em especial, cacau) e madeiras. Há juçara, várias espécies de frutas cítricas, mangostão, açaí, manga, banana, abacaxi e outras, comercializadas na cidade, cada uma a seu tempo.

“Em outros 40 hectares estamos criando  gado leiteiro, em pastagens rotacionadas com silvicultura de madeiras nativas, ou seja, conduzidas sem que ocorra compactação do solo. Os animais ganham muito conforto e bem-estar nas pastagens sombreadas. E nós nos beneficiamos com o aporte secundário que vem da venda das madeiras. Temos aqui jequitibá rosa, jatobá, jacarandá, vinhático, ipês. O gado é parte da estratégia de reflorestamento, com sua ‘cocôtribuição’”, brinca Hudson, mencionando que a urina e as fezes dos animais acabam ajudando a fertilizar o solo e a acelerar os processos de regeneração da terra.

Há ainda um trabalho de reflorestamento dentro da fazenda, com a criação de áreas de preservação. Dezessete hectares já foram totalmente recuperados. “Nesse pedaço, três nascentes foram reativadas durante o processo. É muito bonito ver isso acontecer aqui. Hoje a fazenda é mais viva. Estou aqui conversando com você e ouvindo o barulho da chuva, admirado com a quantidade de água que está caindo do céu agora. É um presente tudo isso”, conta.

Comparativo entre antes e depois

Lições que Hudson quer compartilhar e multiplicar

Seu trabalho como sócio do viveiro deu a Hudson a experiência de que precisava para se tornar consultor em agrofloresta, recursos hídricos, regeneração de nascentes e projetos de reflorestamento. “É muito bom trabalhar com agrofloresta porque ela torna possível acelerar muito os processos de restauração, a partir das podas e manejos que realizamos”, afirma.

Ano passado ele deu início a um projeto inovador na área da pedreira Corcovado, a maior do Brasil em extração de granito, situada a poucos quilômetros da fazenda da família. “Lá é uma pedreira bastante ativa. Meu trabalho é conduzir uma reorganização dos rejeitos da mineração, transformando as áreas que recebem os rejeitos e viram verdadeiras montanhas em áreas de floresta recuperada”, conta Hudson.

O trabalho começou em setembro de 2021 e até abril deste ano foram plantadas cerca de sete mil árvores nativas, entre arbóreas e arbustivas, com o suporte de quase 60 quilos de adubação verde. No total, são aproximadamente 12 hectares em plena atividade de regeneração. Uma parte será transformada em pomar agroflorestal para os colaboradores, uma espécie de área de lazer, com atividades de educação ambiental e integração com a natureza. Até agosto a previsão é de chegar a mais de 11 mil árvores plantadas.

“A condição local do solo é bastante complicada, porque a terra tem zero de matéria orgânica, é toda argilosa, o que traz uma dificuldade maior. Foi preciso escolher muito bem as espécies, priorizando plantas resistentes a essa conjuntura. Ali, na verdade, primeiro precisamos regenerar o solo para depois regenerar o que vem em cima dele”, explica.

O desafio tem sabor de coisa grande e bonita. “É um trabalho de regeneração que tem um potencial enorme para ser multiplicado em outras áreas de mineradoras, conhecidas por gerar buracos gigantescos na terra, nas montanhas. Vejo a agrofloresta como um sistema que tem tudo para poder atuar nessas áreas com excelentes resultados. E quem sabe até podemos pensar em levar a agrofloresta para áreas de aterros sanitários, aproveitando a compostagem orgânica desses lugares. Por que não?”, pergunta, já sonhando com novos projetos.

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