Por Uma Maternidade Decolonial

Pesquisadora baiana Miléia Santos Almeida discute os impactos da colonização europeia e da escravidão sobre o modelo de maternidade atual, e destaca as lições que podemos aprender com as comunidades marginalizadas
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03.05.2022

Convivemos entre mães exaustas. Se você tem filhos ou tem por perto mulheres com filhos, já deve ter reparado que o trinômio maternar-trabalhar-existir como indivíduo com desejos próprios é um objetivo praticamente impossível de concretizar. O mundo espera que as mães trabalhem como se não tivessem filhos, e que criem seus filhos como se não trabalhassem – como você já deve ter lido por aí. E essa conta, claro, não fecha.

Mas como será que chegamos até aqui? Quais desdobramentos em nossa história construíram esse modelo de maternidade que, por um lado, enfraquece e reduz a mulher ao lugar exclusivo de cuidadora e única responsável por suas crias, e de outro faz do cuidado aos filhos um luxo, onde mulheres negras ou brancas empobrecidas não têm o direito de maternar integralmente, se assim desejarem, por falta de apoio do Estado e de seus parceiros?

Filha de Dona Celsidia, que foi empregada doméstica e trabalhadora rural, a baiana Miléia Santos Almeida, 31 anos, optou por não ter filhos. E a maternidade nunca foi, na verdade, alvo de suas pesquisas como historiadora. Mas nos estudos para o doutorado que cursa na Universidade de Brasília, ao levantar processos judiciais sobre criminalização de mulheres nos arquivos municipais do Alto Sertão da Bahia, processos de infanticídio do final do século 19 e início do século 20 chamaram a sua atenção.

“Comecei a perceber que casos de mães que matavam seu recém-nascidos ou de tentativas de aborto que qualificavam as mulheres como ‘monstros’, ‘mães desnaturadas’ que rompiam o amor materno inerente, instintivamente, a todas as mulheres. E a construção dessa maternidade era ancorada principalmente no discurso médico – do processo psíquico associado ao puerpério – ou na justificativa jurídica, na defesa da honra, comum naquele momento da História. Nenhum discurso pensava que aquelas mulheres poderiam não querer ou não ter condições econômicas, sociais e emocionais de serem mães”, destaca a pesquisadora, que é mestre em História Social.

Miléia decidiu, então, aprofundar seus estudos a partir de teses sobre o feminismo eurocêntrico e seu impacto no processo colonizador sobre culturas a que chama de subjugadas, como a indígena e a africana, por exemplo. Em seu artigo “Maternidades subalternas”, publicado no periódico Em Tese, ela discute os eventos que nos levaram ao modelo atual de maternidade, e – em entrevista à YAM – reflete sobre os caminhos para a desconstrução de alguns desses padrões, a partir de lições aprendidas com as comunidades africanas, indígenas e marginalizadas. Leia a seguir:

O que nos trouxe, na sua visão, ao modelo atual de maternidade?

Miléia – Ao ser colonizado por Europeus, o nosso continente herdou o patriarcado ocidental. E somou-se a esse movimento também um processo de cristianização, em que as mulheres foram perdendo poderes que tinham em sociedades antigas e ficaram mais restritas às tarefas de cuidado.

As comunidades colonizadas, porém, já tinham seus próprios modos de criar suas crianças, de maternar e paternar. E houve um choque entre essas diferentes culturas. No caso do processo de escravização africana, o choque foi violento ao ponto de impedir a maternidade de mulheres negras por meio do controle reprodutivo. E mesmo após a abolição, com a esterilização em massa dessas mulheres. Era negado àquelas mulheres o direito de serem mães. 

Ou seja, o modelo de maternidade que temos não apenas obriga as mulheres a serem mães – naturalizando o maternar como algo intuitivo e presente em todas as mulheres, mas a depender de sua condição financeira, há também discursos que impedem que as mulheres sejam mães. É um modelo de total abnegação.

Como você considera que essa naturalização da maternidade nos afeta?

Miléia – Na nossa sociedade, maternar é naturalizado como um instinto que todas as mulheres têm, e então a mulher passa a ser a única responsável por aquela criança – a mãe ou outras mulheres da família, a depender da forma de organização daquela comunidade. E isso é diferente em outras sociedades. Entre os indígenas, por exemplo, quem cria a criança não é a mãe, é a aldeia.

Nosso modelo coloca a maternidade como destino natural de toda mulher, em que ela precisa abrir mão da carreira, dos estudos, dos sonhos, enquanto os homens – sendo pais – não têm obrigação de dedicar a sua vida a outra pessoa. Questionar a naturalização da maternidade também é discutir o que seria maternar com mais qualidade, sem que as mulheres tenham que abrir mão de suas carreiras e projetos para isso.

Neste modelo vigente, o direito ao cuidado materno é um luxo?

Miléia – O modelo eurocêntrico de maternidade, com esse padrão de permanecer em casa, cuidando dos filhos, foi criado para as mulheres europeias. E as mulheres colonizadas por países europeus não tinham condições de sobrevivência seguindo esse modelo: desde muito cedo estavam nas ruas, deixando seus filhos, para trabalhar.

Esse é, então, um modelo que oprime as mulheres brancas, de classe média, que são levadas a ficar em casa sem o direito de expandir os seus projetos. Mas que, por outro lado, impede que as mulheres negras, colonizadas, ou brancas empobrecidas tenham a possibilidade de estar integralmente cuidando de seus filhos, se assim desejarem. 

O cenário afasta as mulheres do “ideal” de maternidade, e pune, de certa forma, todas as mães. As mulheres que não têm condição de bancar esse modelo de cuidado se sentem culpadas por não poderem estar mais perto de seus filhos. E as que não querem seguir o modelo se sentem mal por não atenderem ao padrão da maternidade integral. Esse é um modelo insustentável para as mulheres. 

É como se aquela figura da mãe negra que deixa seu filho para cuidar da criança branca continuasse existindo de alguma forma. O caso de Mirtes, cujo filho de 5 anos teve o cuidado negado pela patroa de sua mãe, enquanto ela cuidava de um cachorro, reforça esse debate. Qual é a infância que merece cuidado? [Mirtes, trabalhadora doméstica, perdeu o filho depois que o menino caiu de um prédio de luxo, em junho de 2020, em Pernambuco, por negligência da sua patroa, enquanto Mirtes cuidava de um cachorro]

O que podemos aprender com as comunidades africanas ou indígenas, para reconstruir esse modelo de maternidade?

Miléia – Há muito a aprender sobre os processos de solidariedade que existem nessas comunidades, e já há grupos de mulheres nas periferias se organizando nesse sentido. As mulheres indígenas também encaram a maternidade sob um olhar muito bonito de interação com a natureza. Mas é importante dizer que não existe um modelo materno ideal.

É urgente reconhecer e valorizar o que temos de herança dessas comunidades, mas a ideia não é que a gente se transforme nessas comunidades. Não vamos nos tornar uma sociedade matrifocal, por exemplo. Temos um processo de construção cultural muito diferente. Mas é importante entender que existem outras possibilidades, outros caminhos.

Você considera que já houve avanços neste sentido?

Miléia – Sim. Não podemos negar que houve avanços. Neste Dia das Mães, nós certamente veremos o tema sendo debatido, e há 10 anos só víamos flores e chocolates nesta data, em campanhas na TV com aquele modelo familiar branco de classe média. Agora temos outros debates, mas estruturalmente a nossa sociedade ainda mantém essa conformação do que tem que ser a maternidade, e esse é um processo lento de mudança. Nessa perspectiva, é preciso pensar em políticas públicas para as mulheres, é preciso que o Estado se coloque como responsável para suportar essas mulheres, pense as mães e suas jornadas de trabalho, e assuma também parte das tarefas pelas crianças, para que não haja uma sobrecarga.

Também é urgente pensar uma paternidade presente, e para isso é fundamental incluir os homens no debate da maternidade e da paternidade.

Outro caminho é uma educação feminista desde cedo, repensando o modelo de papeis de gênero e relações de gênero. Os meninos têm que saber, desde crianças, que também têm que assumir tarefas de cuidado – e as meninas precisam saber que não precisam ser as únicas responsáveis por tarefas de cuidado. Isso mexe com questões culturais muito enraizadas, é um trabalho de formiguinha, mas necessário.

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