NFTs São Ruins Para o Meio Ambiente. Mas Criptomoedas são Ainda Piores

Entenda o que são NFTs, porque elas poluem tanto e porque esse problema é só a ponta de um iceberg bem maior: o impacto ambiental das criptomoedas
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31.03.2022

Arquivos de computador podem ser copiados indefinidamente, e não há nada nas cópias que permita diferenciá-las dos originais. Você pode enviar todas as fotos do seu celular para alguém, e mesmo assim elas continuam armazenadas no aparelho.

Isso é impossível no mundo analógico: fotos de papel precisam sair da posse de uma pessoa para se tornarem posse de outra. Além disso, elas desbotam, têm rasgos, um cheiro próprio e anotações no verso.

Os economistas chamam arquivos de computador de itens fungíveis. Eles são plenamente intercambiáveis por cópias. Já as fotos reveladas são itens não fungíveis. Elas não podem ser trocadas sem prejuízo, porque não existe nada idêntico.

A coisa mais fungível do mundo é o dinheiro. Dez reais são sempre dez reais, não importa a maneira como se manifestem: nota rasgada, nota nova, cheque, pix, doc, ted, boleto, débito, crédito, cheque e até um simples número na tela, já que o dinheiro da poupança não está realmente lá: o banco empresta para outras pessoas.

A coisa menos fungível do mundo, por outro lado, talvez seja a Mona Lisa. Ela está há séculos em domínio público – ou seja, pode-se fazer e vender cópias à vontade –, mas a tela original permanece sendo um dos objetos mais valiosos da civilização.

O problema de arquivos de computador serem fungíveis é que fica impossível assegurar propriedade privada no mundo virtual. A resposta tecnológica a esse problema são as NFTs: non fungible tokens, algo como “etiquetas não fungíveis”, em tradução livre.

Afinal, o que são as NFTs?

NFTs são arquivos que pertencem a apenas uma pessoa. Não que os outros não possam vê-los. Uma busca rápida no Google exibe NFTs alheias aos montes. O ponto é que existe um arquivo original, e ele está atrelado de forma indelével ao nome do dono – da mesma forma que o objeto Mona Lisa pertence ao Louvre, ainda que sua imagem seja domínio público. 

A metáfora vem bem a calhar, porque uma das utilidades das NFTs é permitir que artistas virtuais vendam suas obras, que só existem dentro da tela, para curadores e colecionadores (o que foi bem-vindo para o sustento no contexto pandêmico).

Outra possibilidade inédita é garantir a posse de terrenos virtuais no metaverso, por exemplo. E aqui o jargão imobiliário também é útil, porque a NFT não é o arquivo em si, e sim uma espécie de escritura que informa quem é o dono do arquivo. Daí termos traduzido token como “etiqueta”. Trata-se de uma identificação, e não do próprio produto.

O problema: a tecnologia ultrassegura que garante a autenticidade das NFTs e impede que elas sejam forjadas, fraudadas ou copiadas é a mesma tecnologia por trás de criptomoedas como Bitcoin ou Ethereum. E essa tecnologia, chamada blockchain (“corrente de blocos”), pode gerar uma dose cavalar de poluição quando usa um método chamado proof of work (“prova de trabalho”) para verificar a validade das transações financeiras.

Pop Art da Monalisa

NFTs, Criptomoedas e a poluição que geram no planeta

Estima-se que o OpenSea, maior mercado online de NFTs do mundo, já tenha sido responsável pela emissão de 359,5 mil toneladas de dióxido de carbono, o equivalente a todo o CO2 gerado por 159 mil brasileiros em um ano (cada brasileiro é responsável, em média, por 2,25 toneladas anuais do gás de efeito estufa). Em 2021, a revista Wired contou a história frustrante do artista e ambientalista francês Joanie Lemercier, que tomou uma série de medidas para reduzir sua pegada de carbono, e depois poluiu o equivalente a dois anos de uso de seu estúdio em uma única venda de NFTs.

Apesar da comoção recente com os danos ambientais gerados pelas NFTs, esses valores são irrisórios em relação à poluição gerada pelas criptomoedas, que são um fenômeno aproximadamente desde 2010 e representam um mercado muito, muito maior. A Bitcoin, sozinha, consome eletricidade suficiente para abastecer um país um pouco maior que os 5 milhões de habitantes da Irlanda – em sua maior parte de fontes não renováveis.

Vamos entender, então, por que a blockchain gera tanta poluição se é algo que existe apenas dentro do computador, por que NFTs e criptomoedas só são possíveis na blockchain, e se existe uma alternativa mais verde para o método proof of work (spoiler: a resposta é “sim”, e ele já está sendo implementado). 

Como funcionam criptomoedas

Existem apenas 21 milhões de bitcoins no mundo. Um bitcoin, em 20 de fevereiro de 2020, valia 196 mil reais. Por isso, cada Bitcoin se subdivide em 100 milhões de centavos, chamados satoshis. Atualmente, 10 reais equivalem a 5 mil satoshis.

O interessante, aqui, não é quantidade, mas o fato de que há um limite, e de que esse limite é responsável pela valorização. Existe uma quantidade fixa de bitcoins no mundo, e é impossível fazer mais – enquanto as moedas comuns, como dólares ou reais, podem ser criadas (e são criadas) o tempo todo pelos bancos centrais de seus países.

Quando o Banco Central põe em circulação reais em excesso, eles perdem valor justamente por se tornarem mais comuns. Isso é inflação. Com o bitcoin, esse risco não existe, porque não dá para imprimir moeda nova. A escassez proposital torna o Bitcoin mais parecido com ouro do que com dinheiro. De muitas maneiras.

Existem pepitas de ouro ainda inexploradas. Estima-se que haja 54 mil toneladas do metal precioso debaixo da terra, aguardando extração. Há outras 90 mil no formato de joias, e 40 mil em barras de ouro – das quais 32,5 mil são de posse dos bancos centrais de vários países. Ao longo da história, quando alguém descobria uma nova mina, todos corriam para conseguir seu quinhão. Foi o que aconteceu em Minas Gerais no século 18, na corrida do ouro na Califórnia no século 19, e em Serra Pelada na década de 1980, quando milhares de garimpeiros convergiram no sudeste do Pará.

A sacada do ouro é que, por ser escasso, ele entra em circulação devagarinho e não inflaciona como reais ou dólares. Para simular esse fenômeno na arena digital, os 21 milhões de bitcoins não caíram na mão dos investidores instantaneamente no lançamento da moeda, em outubro de 2008. Eles precisaram ser (e continuam sendo) minerados por garimpeiros digitais. Hoje, há 18,9 milhões em circulação, e estima-se que a marca de 21 milhões só será alcançada em 2140.

A metáfora com mineração é instrutiva: do mesmo jeito que Serra Pelada foi um terror ambiental – contaminando a Amazônia com mercúrio –, a mineração de bitcoins gera gastos de energia elétrica exorbitantes com computadores. Considere que boa parte da matriz energética mundial (85%) não é renovável e bingo: gases de efeito estufa em doses homéricas. Uma única transação de bitcoin, como pagar uma pizza, injeta 400 kg de CO2 na atmosfera, o equivalente a 70 dias de energia elétrica para uma casa americana média (considerando uma matriz que seja dois terços carvão e gás natural).

Pop Art de Serra Pelada

Criptomoedas e a corrente de blocos

Para entender o porquê desse gasto energético homérico, o primeiro passo é entender o propósito da mineração. O que um minerador faz é emprestar a capacidade de processamento do seu computador para a rede blockchain processar as transações de outros usuários. Em troca desse empréstimo, ele ganha bitcoins. Não existe um servidor centralizado: a blockchain é uma construção coletiva dos PCs conectados a ela.

O empréstimo consiste em fazer o computador resolver um quebra-cabeça criptográfico. Na verdade, todos os computadores atrelados à rede concorrem para resolvê-lo, e o primeiro a conseguir leva o pagamento. Há sempre uma corrida em andamento. O trabalho computacional dedicado à solução desse quebra-cabeça serve justamente para verificar que uma transação ocorreu. Daí o nome “prova de trabalho”.

Um conjunto de transações verificadas se denomina “bloco”, que você pode imaginar como um caderninho de anotações: “João deu dez bitcoins para Maria”, “Ana deu oito bitcoins para José” etc. Os blocos, então, são encadeados um no outro (essa é a corrente de blocos) e formam um registro de absolutamente tudo que já ocorreu na blockchain, desde o primeiro pagamento com Bitcoin em 2008.

Cada computador que participa da rede tem acesso a esse backlog, o que torna o sistema imune à safadeza: se você colocar 10 mil bitcoins na sua própria carteira artificialmente, os outros computadores vão rapidamente verificar que o dinheiro saiu de nada. E então vão decidir, por consenso, ignorar a tentativa de enriquecimento ilícito.

É esse sistema de segurança que permite que os seus Bitcoins permaneçam só seus, e as NFTs também. Eles são registros nesse longo caderno contábil, digital e descentralizado (“Maria deu uma NFT tal para João”). A diferença é que um é dinheiro; o outro, uma escritura. 

As NFTs rodam principalmente na blockchain de uma outra criptomoeda, chamada Ethereum. 80% delas, mais precisamente. A Ethereum é a segunda maior criptomoeda do mundo, atrás apenas do  Bitcoin (ambas são proprietárias de suas próprias blockchains).

Prova de trabalho versus prova de participação

Nos idos de 2010, provas de trabalho relativamente simples rendiam uma boa grana na rede da Bitcoin, e dava para minerar no notebook, em casa. Com o passar dos anos, porém, os quebra-cabeças vêm exigindo uma capacidade de processamento cada vez maior. É proposital: quanto mais gente minera, mais a Bitcoin segura a quantidade de moeda liberada como fruto da mineração. Caso contrário, a meta de 21 milhões já teria sido alcançada há tempos.

De fato, a quantidade de Bitcoin que entra em circulação diminui 50% a cada quatro anos – e instalações mastodônticas (como 3,8 mil consoles de Playstation 4 encontrados numa fazenda na Ucrânia) se tornaram necessárias para ter algum lucro. Assim, a poluição também aumentou. É um sistema que funciona por ser ineficiente.

Acontece que a prova de trabalho não é a única maneira de verificar transações na blockchain, ainda que seja a mais antiga e bem estabelecida. A alternativa mais comum, chamada proof of stake (geralmente traduzido como “prova de participação”) usa risco em vez de energia elétrica. De maneira muito resumida, os participantes precisam fazer o equivalente a um cheque caução usando a própria criptomoeda para validar transações, e perdem um pouco do dinheiro se houver alguma irregularidade.

A blockchain da Ethereum está em processo de transição do método proof of work para o método proof of stake, o que encerraria, do dia para a noite, a maior parte das emissões associadas às NFTs (99%, de acordo com a própria empresa). A previsão é que o novo sistema esteja plenamente implantado ainda neste ano.

Mas o impacto ambiental, embora positivo, seria só o primeiro passo: a blockchain da Bitcoin, que em geral é alheia ao mercado de NFTs, deixa para trás o dobro da pegada de carbono da Ethereum, e usa onze vezes mais eletricidade por transação. O resultado são 57 milhões de toneladas de CO2 por ano, uma cifra que exigiria o plantio de 300 milhões de árvores para compensação plena. Ou seja: as NFTs são responsáveis por uma fração minúscula das atividades da rede da  criptomoeda Ethereum, que por sua vez é muito menos poluidora que a Bitcoin.

Pop Art de cédulas de dinheiro

Mas tem solução?

O maior dano ambiental associado às NFTs, hoje, é culpa de investidores que buscam retornos rápidos: eles compram os tokens com o único intuito de vendê-los quando estiverem valorizados. É um comportamento predatório diferente do adotado por artistas digitais e curadores de arte genuínos, que fazem poucas transações e esperam retornos de prazo mais longo.

É um mistério o quanto a bolha vai durar. E também é um mistério o próprio futuro da blockchain: existem dezenas de redes menores que não usam prova de trabalho, e há muitas negociações de NFT migrando para elas (a Ethereum já deteve 95% do mercado, hoje tem “só” 80%). Com o tempo, existe até a possibilidade que a própria Bitcoin abandone esse tipo de criptografia em prol de uma alternativa mais ecológica, invalidando a preocupação expressa neste texto.

“Essas tecnologias são terra de ninguém. Estão em construção”, explica o artista brasileiro Fesq – que antes dependia de encomendas e divulgação nas redes, mas agora pode negociar seus trabalhos em forma de NFT. “Hoje, a gente está no equivalente à internet discada.”

Por ora, alguns artistas que trabalham com NFTs estão buscando compensação ambiental por conta própria. Isso pode ocorrer de maneira direta, por meio de ONGs que plantam uma quantidade exata de árvores para combater suas emissões, ou de maneira mais indireta, comprando créditos de carbono. Um crédito de carbono equivalente a uma tonelada de CO2 que uma empresa remove da atmosfera (ou deixa de emitir). Embora haja registro de práticas criminosas nesse setor, como vender um mesmo crédito duas vezes, empresas dedicadas a fiscalizar essas transações, como a Verra Registry e a CarbonPlan, estão melhorando o cenário.

Toda essa história nos ajuda a questionar o quanto inovações tecnológicas estão atentas ao colapso climático em que vivemos. E, no mundo das bitcoins, isso está só começando. 

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