Kaká Werá: Regenerar o Planeta Por Meio do Amor

Para o escritor, ambientalista e conferencista indígena do povo tapuia, precisamos nos reconectar com o passado para saber como agir diante do futuro, respeitando a natureza e utilizando os recursos naturais de forma sustentável
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17.11.2021

Como cuidar, regenerar e curar a terra? Uma pergunta que atravessa nosso tempo e, entre tantas soluções discutidas, nós não saímos do lugar. Parece, inclusive, que estamos dando passos para trás, de acordo com o Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Publicado em agosto deste ano, o relatório indica que podemos estar num ponto sem volta em relação ao clima.  “Uma das maiores destruições que nós enquanto humanidade realizamos foi a desestabilização, desestruturação e degradação dessa casa que nós habitamos, nossa casa comum, o planeta Terra”, diz Kaká Werá, escritor, ambientalista e conferencista indígena brasileiro do Povo Tapuia. Em sua fala durante o Festival Path Amazônia, Kaká apresentou a necessidade urgente de nos reconectar com o planeta por meio do sentimento de pertencimento. 

O também fundador do Instituto Arapoty e empreendedor social da rede Ashoka, explica que há três pontos fundamentais para estabelecermos uma relação em busca da regeneração com a Terra – e que podemos praticar a partir de agora na tentativa de interromper o cataclismo climático. Uma dessas condições seria olhar com mais cuidado para nossas origens, o local de onde viemos e de onde geramos recursos para nossa subsistência como seres-humanos. “Um provérbio africano diz que quem não sabe de onde veio, não consegue saber para onde vai. Ou seja, nos reconhecemos em uma origem, um lugar de onde viemos.”, conta Kaká Werá. 

O lugar de origem do qual Kaká se refere é o nosso planeta. Por isso, segundo Kaká, precisamos reconhecer os ecossistemas e biomas, independente de nossa origem étnica –  seja indígena, africana, asiática, ou americana. O importante é reconhecer esse terreno como nossa base de sustentação.

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Segundo Kaká Werá, nós rompemos com a natureza


Nessa caminhada de reconhecer nosso pertencimento ao planeta, Kaká evidencia algo que aconteceu com o homem: ele rompeu com a natureza. “Enquanto nós olharmos  a terra, seus recursos e sua diversidade de fora, nos colocando como se fossemos extraterrestres, não vamos ter a empatia natural ou necessária para iniciarmos um processo verdadeiro de regeneração”, complementa. 

A partir desse primeiro passo, chegamos ao segundo ponto que Kaká Werá ressalta como valioso para a regeneração do planeta: uma relação que seja boa o suficiente para tornar sustentável a convivência entre nós e a natureza. E fazemos isso por meio do manejo cuidadoso de recursos naturais e do respeito com tudo que extraímos desse chão. 

O terceiro ponto é, talvez, o mais importante desse processo que Kaká propõe. Para ele, enquanto não abolimos em todos os níveis de nossa consciência a manipulação, a subjugação e a escravização do outro, nós não conseguiremos reverter o estado das coisas. 

Foto de rio e vegetação.

Seguimos escravos, agora de maneira sutil

Segundo Kaká Werá, a cura da terra precisa partir de nós mesmos. A escravização não acabou; o que teve fim foi apenas o modo antigo de escravizar. Hoje Kaká entende que há um modo mais sutil, inserido nos meandros de nossa cultura. “Quando manipulamos o próximo, quando utilizamos de um tipo de emprego disfarçado como trabalho remunerado, mas com uma subjugação no reconhecimento do valor, ainda há formas de escravização econômicas, psíquicas, psicológicas e culturais”, explica.

Nesse ponto, o ambientalista destaca a relação de nossa Constituição Federal com os povos indígenas. “No Brasil, em pleno século 21, os povos indígenas do ponto de vista da lei, ainda não são reconhecidos como habilitados a exercerem cidadania. E, no século 21,  a cidadania significa liberdade de ir e vir, de adquirir conhecimento, de se expressar através de suas visões de mundo e cultura. Significa liberdade de adquirir outras visões de mundo e ampliar seu conhecimento. E isso, por força da lei, não existe para os povos indígenas do Brasil”, exclama. 

Garimpos ilegais e desmatamento desenfreado


Kaká também falou sobre como a relação entre homem e natureza tem afetado, em muitos aspectos, o cotidiano de aldeias indígenas no Brasil. Aliás, constantemente grupos indigenistas fazem denúncias relacionadas aos problemas causados pelo desmatamento desenfreado e a instalação de garimpos ilegais. No mês passado, a Hutukara Associação Yanomami denunciou a morte de duas crianças do povo Yanomami que teriam sido sugadas pela estrutura de uma balsa de garimpo ilegal em Roraima. 

O garimpo ilegal e a exploração de terras demarcadas através do agronegócio é um dos principais problemas que degradam a região da floresta amazônica, sendo também o vetor da violência sofrida por povos originários nestas áreas. Em 2019, um relatório divulgado pelo Comitê Indigenista Missionário (CIMI) apontou que houve aumento na violência contra a população indígena em 16 das 19 categorias de violência sistematizada pela publicação. 

Na exploração ilegal de recursos, nas invasões possessórias e nos danos a patrimônio, os indicadores mostraram que os 109 casos em 2018 subiram para 256 casos em 2019. Dentro desse contexto, nos anos seguintes tivemos aumento de notícias de queimadas pelo país, no cerrado e na Amazônia, em todos os casos ligadas a essa exploração.

Para Kaká Werá, exploramos e não sabemos consumir


De acordo com Kaká Werá, é necessário falar qual tipo de comportamento faz com que a gente destrua a nossa casa. E, de modo geral, nós temos tendência à exploração exacerbada dos recursos naturais porque consumimos esses recursos de maneira desequilibrada.

“A falta de recursos de qualidade para nossa subsistência e a poluição da terra e das águas são uma relação destoante com a nossa casa. Isso se deve, em parte, pelo fato de até pouco tempo atrás o ser humano não tinha ideia de que a natureza não é infinita. A natureza é finita e precisa ser cuidada.”, diz Werá.

Para o professor, precisamos agregar a harmonia que tínhamos com a natureza nos tempos mais antigos e nos desvencilhar do medo que está enraizado em nossas premissas pré-tribais. “Existe um padrão, linguagem ou crença baseada no medo, que é da época em que os ancestrais da antiguidade tiveram que lutar com animais, passaram por longas escuridões e viveram de maneiras realmente desiguais”, explica Werá.

O resultado é que esse padrão gerou um aspecto de desconfiança em relação à genuinidade do amor entre as pessoas e a natureza. “A vida é compaixão, amor, expressão amorosa. Mas, em decorrência dessas memórias inconscientes baseadas no medo, nós geramos outras estratégias de comportamento baseadas no desamor”, completa. Talvez, por isso, a maior de todas as chaves para viver em um novo mundo seja a compaixão e o afeto, resgatando a nossa essência de amor. ▲