Como as Mudanças Climáticas Colocam em Risco os Corais

O branqueamento dos corais afasta a biodiversidade e o aumento da temperatura também é percebido nos mares, diminuindo a reprodução e sobrevivência da vida marinha; o professor e pesquisador Guilherme Longo levanta a urgência de cuidar desse ecossistema
6 minutos de leitura
10.11.2021

Em junho deste ano o Comitê do Patrimônio Mundial recomendou que a Grande Barreira de Corais da Austrália, um dos recifes mais diversificados do mundo, fosse incluída em uma lista do patrimônio mundial em perigo. A recomendação surgiu a partir de um relatório preliminar divulgado pelo comitê, e despertou ainda mais a urgência sobre o assunto.

No Brasil, o tema é tão urgente quanto a crise que envolve o desmatamento e as queimadas na floresta amazônica. E o professor e pesquisador Guilherme Longo, do Departamento de Oceanografia e Limnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, acha que é possível fazer uma analogia entre o que ocorre nos dois ambientes.  

E construir uma relação sustentável com os recifes e seu ecossistema em todo mundo  é tema da conversa de Guilherme Longo no Festival Path Amazônia 2021. A pesquisa de Guilherme tem focado nos impactos das mudanças globais sobre os recifes brasileiros e, através da plataforma #DeOlhoNosCorais, tem difundido seu processo científico. 

Foto de Corais

Recifes são como florestas

De acordo com o professor, os recifes são como uma grande floresta, e as árvores têm o mesmo papel que os corais no mar.  Ambos dão estrutura para o seu ambiente, agregando uma imensidão de seres vivos. “Os recifes são como florestas tropicais dos oceanos. Quando a gente pensa no recife a gente está pensando em uma Amazônia embaixo d’água, uma Amazônia Azul, cheia de diversidade e benefícios para a gente”, conta Guilherme.

Para se ter uma ideia do tamanho e importância dos recifes, 25% das espécies marinhas existentes são encontradas em ambientes recifais, mesmo esses ocupando uma área oceânica de 0.1%. “Assim, se árvores são queimadas ou devastadas, junto perdemos toda a biodiversidade da floresta. E com os recifes é igual: se os corais são prejudicados, a biodiversidade associada a eles também é”, sinaliza. 

Foto de Corais

O problema do branqueamento de corais


Diante disso, quando olhamos para os nossos corais, principalmente no nordeste brasileiro, vemos que os recifes mudaram de cor por conta da onda de calor que causou um efeito de “branqueamento”. “Quando vamos para os oceanos, a aparente calma que se esconde por baixo das águas claras do nordeste do Brasil esconde também alguns problemas que ficam muito menos evidentes.”, conta Guilherme. 

Quando os corais estão saudáveis, há muito mais peixes e biodiversidade associada, o que traz muitos benefícios para a vida marinha. Mas isso não acontece quando esses cnidários perdem a cor. É que os corais fazem uma associação com as zooxantelas, uma microalga que habita e dá cor a esses tecidos. Quando o clima fica muito quente, o coral expulsa as zooxantelas e fica transparente, permitindo que possamos ver seu esqueleto branco. “Com corais branqueados, temos menos benefícios e biodiversidade, além de aumentar a chance desses corais serem mortos e são eles os grandes formadores de recifes.” completa Guilherme.

Foto de Corais

Um desequilíbrio em cadeia

Embora a crise climática seja muito mais sentida em ambientes terrestres – já que no ambiente marinho passamos menos tempo dentro dele para perceber que sua temperatura aumentou –, nas águas tudo também está mais quente.

Esse aquecimento torna mais difícil a sobrevivência dos seres vivos, que também têm um limite de tolerância ao calor. Além disso, com a elevação da temperatura, as águas também ficam com menos oxigênio, pois o gás carbônico da atmosfera é incorporado pela água do mar, causando reações químicas que geram o ácido carbônico.

Só que muitos bichos precisam fazer suas carapaças, conchas e esqueletos com materiais conhecidos como bicarbonato de cálcio – e a água mais ácida prejudica a formação deste material, podendo até dissolvê-lo. “Estamos tornando os oceanos mais quentes, mais ácidos e sem oxigênio, dificultando a diversidade marinha”, resume Guilherme.

Foto de Corais

Resgatando o passado dos corais para regenerar o futuro dos recifes

Nem todo mundo sabe, mas as espécies de corais encontradas no Brasil são únicas e só encontradas em nossas águas. Por isso, visitar um recife é como se encontrar com um local histórico, pois essas estruturas estão aqui há séculos. O encanto que a beleza dos recifes causa nas pessoas influencia no turismo desses locais e na economia da região, se tornando alimento e fonte de renda para moradores.

Porém, para Guilherme, esse encanto também pode nos afastar da ideia de que somos conectados com os oceanos, nos fazendo esquecer que podemos ter impactos positivos e negativos. “Quando a gente destrói um recife, perdemos toda a potencialidade que esses ambientes nos trazem”, alerta o professor.

Foto de Corais

Através de uma linha do tempo, pesquisadores como o Guilherme Longo estão montando um quebra-cabeça que envolve toda a complexidade dos recifes para que eles sejam preservados. Essa pesquisa resgata o passado dos recifes, fazendo um paralelo com o presente e analisando seu futuro. 

“Recuperar esse passado é importante porque há centenas de anos atrás esses recifes estavam em uma condição de saúde melhor e é lá que a gente deve mirar:  um ambiente mais saudável porque ter mais diversidade é essencial para a vida marinha”, explica Guilherme. Para a vida marinha e, também, para a vida na Terra. 

Foto de Corais

Inspiração

O que o YAM tem pra te dizer hoje?

Um oráculo. A seção Inspiracão propõe um jeito lúdico de revelar conhecimentos que estão presentes no nosso conteúdo. Foram selecionados pela nossa equipe e você vai descobrir aquele que tem a ver com você.

Surpreenda-se