É preciso desbloquear a criatividade para imaginar novos futuros

Vivemos em um mundo dual, onde narrativas de fim de mundo revelam nossa incapacidade de sair de uma lógica racional e um modelo capitalista. Mas será que tem que ser assim? Como podemos imaginar outros cenários para o que está por vir?
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09.09.2021

Todos os dias somos bombardeados com notícias cada vez mais absurdas, que nos deixam quase certos de estarmos diante do verdadeiro apocalipse, sem chance de novos futuros e com questões complexas espalhadas nas crises sociais, políticas, ecológicas e econômicas.

Mas e se todas essas crises tivessem a mesma raiz? E se essas questões estivessem totalmente entrelaçadas? Muitos pesquisadores defendem a ideia de que enfrentamos, acima de tudo, uma crise de percepção, porque percebemos a natureza como algo fora de nós. Dentro de cidades projetadas para a desconexão, nos vemos como consumidores e produtos e não como seres que sentem e pensam. Mas se a Terra é um organismo vivo e nós fazemos parte dele, essa crise humana também é a crise do planeta.

Alguns pesquisadores estudam essa interconectividade das crises que enfrentamos há muito tempo, como o físico, escritor e ambientalista Fritjof Capra, que ficou mundialmente conhecido com seu livro O Tao da Física e estuda o pensamento sistêmico e a teoria da complexidade, que seria uma “lente” por meio da qual podemos ver o mundo fora dos dualismos.

É importante dizer que essa visão não é nova — as comunidades indígenas sempre incorporaram em sua cosmovisão a complexidade e formas emaranhadas de ser por séculos e foram e continuam sendo oprimidas pelo colonialismo, que criou uma narrativa em que os “povos modernos” deveriam ter poder sobre “culturas primitivas”.

Vivemos uma crise de hábitos de ser

Segundo Vanessa Andreotti, pesquisadora que trabalha com o coletivo Gesticulando rumo a Futuros Decoloniais: “Não vivemos uma crise informacional, vivemos uma crise de hábitos de ser, que nos torna viciados em categorizar e organizar as coisas para ter uma sensação de segurança, onde o ser se reduz ao saber e a vida se reduz a significar.”

Todo esse desejo de categorizar o mundo de maneira dualista é o resultado de uma visão racional e linear, voltada apenas para o crescimento econômico,desenvolvida durante o Iluminismo, a última grande transformação da consciência do mundo ocidental. Nesse período, passamos a colocar o ser humano no centro das atenções, valorizando a racionalidade e desvalorizando os sentidos.

Desde 2018, guiada por uma pesquisa independente que iniciei após fazer um curso de Comunicação dentro do programa de Mestrado da Faculdade Schumacher de Economia para a Transição, na Inglaterra, conversei com mais de quarenta pessoas influentes em economia, educação e filosofia, espiritualidade, ciência, política e ecologia. Todo esse material coletado tornou-se parte do projeto This is not the truth, que criei com Camilla Cardoso, também brasileira que conheci por lá.

O nome do projeto é inspirado na ideia de que muitos de nós estamos vivendo como se a narrativa capitalista fosse a única maneira possível de existir, mas há outras narrativas sobre o que poderia ser a vida na Terra especialmente necessárias nesse momento de emergência climática.

O projeto é uma investigação audiovisual sobre mudança sistêmica, com base em uma investigação eco filosófica que começou na Europa, foi para a Ásia e depois voltou para o Brasil. Com suas muitas peculiaridades, todos que entrevistamos acreditam, à sua maneira, que estamos passando por uma grande transição planetária, e é por isso que o momento nos parece tão caótico. Em certo sentido, é realmente o fim do mundo como o conhecemos.

Precisamos imaginar novos futuros e ir além

Por isso, mudar para servir na criação de um mundo mais regenerativo é ao mesmo tempo uma mudança coletiva e individual, que depende de uma visão menos egoísta e mais colaborativa de nós mesmos.

Afinal, como podemos abrir espaço para o novo no meio de um mundo que ainda tenta se encaixar em novos padrões dentro do dualismo? Como podemos imaginar e pensar de maneira diferente? Outro ponto chave para entender a crise é a nossa incapacidade de imaginar.

Nunca fomos tão bombardeados com histórias de futuros distópicos. Basta lembrar do futuro de Black Mirror, Handmaid’s Tale, 1984, Years and Years e tantos outras séries, filmes e livros. Sem mencionar as notícias que mais se parecem com um filme de terror diário. Mas não é apenas porque a ideia do apocalipse espalha medo e vende. É também porque quase não falamos sobre outras possibilidades futuras para os seres humanos que não incluam a tecnologia de forma intrusiva. E a má notícia é que, desde os tempos pré-históricos, somos antes de tudo contadores de histórias, e são essas histórias que nos diferenciam de outros seres vivos e nos fazem estar aqui até hoje.

Então, qual história queremos contar?

Sendo assim, vamos realmente contar a história do fim de nossa espécie ou de novas realidades em que alguns humanos dominam a tecnologia e os mais pobres mal sobrevivem? Pois precisamos urgentemente imaginar outras narrativas e novos futuros.

Marz Saffore com Decolonize This Place!, Movimento Solarpunk ou EcoPunk, Rob Hopkins do Movimento Cidades em Transição, Weall com Katherine Trebeck, Comida do Amanhã, criado por Mónica Guerra são algumas das ideias e projetos que já existem sobre formas mais regenerativas de viver, e uma coisa em comum é que muitos deles estão sendo criados por mulheres ou pelos princípios de energia feminina que foram tão enterrados nos últimos séculos.

Não é à toa que Trump ridiculariza Greta, e Bolsonaro nem mesmo consegue nomear corretamente Marielle (chamando-a Mariela), numa live onde “se explicava” quando evidências mostram as interconexões do presidente com o assassinato não resolvido. Essas mulheres simbolizam um mundo mais diverso, justo e menos centrado no ser humano. Falando nisso, quem mandou matar Marielle?

A Terra, as mulheres e a criação

Para ouvir o que a Terra tem a dizer, a ecofeminista Vandana Shiva diz que as mulheres têm conexões além do mundo visível, ignoradas nos últimos séculos por causa do paradigma reducionista capitalista, incapaz de perceber a interconexão entre a Terra, as mulheres e a criação.

E imaginar novos futuros com humanos depende inteiramente de poder ouvir as histórias que a Terra quer contar através de nós, porque tentar nos colocar como seres centrais neste planeta, repleto de outras formas de vida que estão aqui há muito mais tempo do que nós, é o que está gradualmente nos expulsando daqui.

Esta matéria foi originalmente publicada em inglês na revista digital Emerge.


Maria Clara Parente (@mclaraparente) é jornalista, artista e documentarista e mora no Rio de Janeiro. É co-fundadora do projeto This is the Truth, uma plataforma para narrativas emergentes que explora possíveis futuros no presente. Está produzindo, via financiamento coletivo, o Regenerar, artedocumentário sobre caminhos possíveis em um planeta machucado.