Turismo Regenerativo: Veja 6 Destinos Para Viajar E Cuidar do Planeta

O turismo regenerativo desponta como uma tendência promissora e nos convida a restaurar os ecossistemas e as comunidades que desejamos conhecer
12 minutos de leitura
01.09.2021

Você já imaginou a possibilidade de viajar para um destino natural e ainda contribuir para a regeneração daquele ecossistema, assim como para o bem-estar da comunidade que ali vive? Isso mesmo, visitar, mas também se envolver; mudar de ares e, como presente, ser modificado pela experiência, premissas do chamado turismo regenerativo. 

Agora que a vacinação em larga escala trouxe maior segurança aos deslocamentos, o setor de turismo já vislumbra novos horizontes. Um deles aposta na ideia de que, passados tantos meses de aflição e confinamento, muitas pessoas vão querer recobrar as forças em contato com a natureza. 

Porém, apenas passear e contemplar as belezas ao redor não será suficiente. Esse público quer, de fato, fazer algo concreto e positivo para o local e a gente que o acolhe, enquanto, claro, também descansa e se refaz. Pode parecer que esse jeito de viajar e aproveitar o tempo livre seja igualzinho ao turismo sustentável. Mas não é. Há diferenças importantes entre eles.  “O turismo sustentável propõe que a gente vá a algum lugar e não cause danos, tendo como princípios básicos o consumo consciente, a empatia, o respeito e a sustentabilidade. Já o turismo regenerativo contempla todos esses valores, mas vai além: busca deixar aquele local melhor do que o encontramos. Busca renovação e restauração”, diferencia Paula Paze, fundadora da Amana Jornadas, agência especializada em imersões que unem autoconhecimento, natureza, cultura e sustentabilidade.

Turismo regenerativo aqui e lá fora

No Brasil ainda estamos engatinhando em matéria de turismo regenerativo. Na Europa, Canadá, Austrália e Costa Rica a presença dessa proposta é bem maior. “Os grandes players do turismo convencional brasileiro, infelizmente, ainda não abraçaram totalmente a sustentabilidade, quanto mais a regeneração. Porém, temos um grupo de profissionais, majoritariamente mulheres, que já desenvolvem há algum tempo várias vertentes de turismo responsável/regenerativo”, afirma Carla Mott Ancona, fundadora e coordenadora geral da MAPS – Projetos Sustentáveis.

Segundo Carla, a pandemia foi um grande catalisador dessa tendência. No entanto, o movimento já existia. “A regeneração desenvolve a identidade de uma comunidade, resgatando suas riquezas sociobio regionais, ao invés de impor à comunidade uma adaptação a um modelo operacional pré-estabelecido”, ela explica.

Como salienta a reportagem Move Over, Sustainable Travel. Regenerative Travel Has Arrived, publicada recentemente no jornal The New York Times, esse estilo de turismo tem suas raízes no desenvolvimento e no design regenerativo. Para se ter ideia, esse conceito tem aplicações em muitas áreas, como a arquitetura e a agricultura, que, aliás, dialogam muito bem com propostas de turismo regenerativo.

“O conceito de turismo regenerativo é relativamente novo e propõe um envolvimento maior, no sentido de nos reconhecermos como seres integrantes da natureza e de compreender como podemos evoluir junto com ela”, afirma a turismóloga e especialista em Educação Ambiental Amanda Selivon, fundadora da Ekoways Turismo e Sustentabilidade.

É, sem dúvida, um olhar que vem ao encontro da necessidade humana de se conectar mais profundamente com a vida, especialmente no momento atual do planeta e de cada indivíduo chacoalhado pela pandemia. “Ela trouxe uma gigante aceleração no processo de autoconhecimento de cada um. Também nos obrigou a olhar para o simples, para o contato com a natureza, com a alimentação. Dessa forma, cresceu a busca por um turismo com mais propósito, conhecimento e conexão com o mundo natural”, observa Paula. 

Há, ainda, um viés importantíssimo: o socioeconômico. Quando optamos por esse tipo de viagem em vez de visitarmos um destino convencional, estamos viabilizando a continuidade desses projetos e, consequentemente, as benfeitorias que eles geram. “O turismo regenerativo tem um potencial inegável de superação da pobreza e uma ferramenta social que ajuda a compreensão, multiculturalismo, inclusão e, portanto, uma cultura de paz. A regeneração é um convite a ser parte consciente da coevolução com a natureza e com o todo que nos cerca”, destaca Amanda.

Viagens que transformam territórios e pessoas

Não existe um modelo pronto de turismo regenerativo. Afinal, para ser restabelecida, a harmonia carece de cuidados absolutamente necessários em cada local específico. Agora, para o turista, há, sim, um denominador comum: a transformação.

“O viajante vive uma experiência única, pois resgata sua conexão com a natureza, faz contato efetivo com a comunidade e com a verdadeira cultura local, e, ao mesmo tempo, contribui de uma forma incrível com o destino e as pessoas que os receberam tão bem”, enaltece Carla, que atualmente está envolvida num projeto de turismo regenerativo na vila de Santo André, um povoado de 800 habitantes no sul da Bahia.

Na visão de Amanda Selivon, a intensidade das experiências proporcionadas pelo turismo regenerativo pode ser explicada pela descoberta de que uma viagem para um povoado distante pode nos levar de volta para casa. “São caminhos que nos levam para dentro de nós mesmos, para mergulharmos na nossa natureza reconectada com o todo a nossa volta”, ela delineia.

Paula Paze também tem testemunhado lindas transformações nos viajantes que se abrem para esse tipo de jornada. “Incitamos em cada viagem da Amana a expansão de consciência através daquele ecossistema, dos moradores e, principalmente, dos guias ou “provocadores” como chamamos. Eles são especialistas em trazer retratos sociais reais para os nossos viajantes”, ela detalha.

Em 2019, João Marcello Gomes Pinto, fundador e CEO da Sustentech, consultoria para o desenvolvimento de empreendimentos sustentáveis, se juntou a um grupo que passou sete dias viajando num barco pela Amazônia, sob a guiança da Amana Jornadas. “Parece que foram sete meses”, ele lembra, maravilhado com o que viveu.

Após o regresso, os vínculos com as comunidades permanecem

João Marcello conta que teve tempo e oportunidade de entender como as coisas funcionam de dentro para fora na Amazônia, junto com as comunidades que vivem às margens dos Rios Arapiuns e Tapajós, com seus valores, crenças, cultura, práticas e economia. 

Para nos dar um aperitivo da imersão, ele destaca algumas passagens que até hoje reverberam em seu ser: ajudar a construir o telhado de uma casa junto com o morador, indígena; participar da feitura da farinha de mandioca; assistir a uma aula dentro de uma escola numa comunidade indígena; coletar plantas na natureza e preparar remédios; ver tudo o que a floresta de pé pode nos oferecer; participar de rituais e conversar longamente com ribeirinhos. 

Mesmo trabalhando com sustentabilidade, a visão do CEO sobre o tema saiu transformada. Ele realmente deu o salto para a regeneração. Depois da viagem, se juntou à MAD, empresa de produtos naturais localizada em Alter do Chão, para ajudá-los a se desenvolver de dentro para fora da Amazônia. Na sequência, passou a estruturar lá o projeto de uma escola modelo “green school”, ainda em fase conceitual, além de outros projetos.

“Mudei a forma como enxergava a Amazônia e refleti sobre os valores que fazem sentido e os que não fazem mais, nosso modelo de sociedade, como temos que ver a natureza como parceira e trabalharmos com ela em vez de insistirmos em usá-la como fonte de recursos”, ele partilha.

Conheça seis destinos que praticam o turismo regenerativo

1

AMAZÔNIA PARAENSE 

Paisagem de árvores imersas em rio, na Amazônia paraense
Foto: Fabiana Zanin

Na Amazônia paraense, a Amana Jornadas propicia o encontro com a grandiosidade tanto da região dos Rios Arapiuns e Tapajós quanto das pessoas que vivem ali. A viagem abarca imersões na mata, banhos de rio, contato com a população ribeirinha e seus saberes ancestrais, além de visitas a projetos que envolvem bioconstrução, permacultura, agrofloresta e gestão de resíduos. Além de fortalecer os vínculos com o povo da floresta, possibilitando a criação de projetos em parcerias e o turismo consciente local, a ideia é trazer a atenção para temas que precisam ser cada vez mais disseminados como alternativas benéficas ao planeta e a todos nós. 

www.amanajornadas.com.br

2

PARQUE NACIONAL DOS LENÇÓIS MARANHENSES

Paisagem de praia em beira de rio, com areia branca e muito sol
Foto: Unsplash

Essa paisagem surpreendente é formada durante a época de chuvas, mudando a cada temporada por conta dos ventos fortes. A área de pouco mais de 150 mil hectares é protegida e abriga, além de pescadores e comunidades nômades, uma grande diversidade de fauna. O roteiro oferecido pela Amana Jornadas inclui visitas às comunidades locais para conhecer a vida cotidiana e tradições da região, culinária simples, da terra, e momentos de relaxamento para receber toda a energia desse oásis e se inspirar com a beleza de sua imensidão azul e branca.

www.amanajornadas.com.br

3

CHAPADA DIAMANTINA, BAHIA.

Paisagem horizonte com de montanhas na Chapada DIamantina
Foto: Unsplash

Longas caminhadas, banhos em cachoeiras de todos os portes e horizontes escancarados. Esse é o cartão-postal padrão da Chapada Diamantina. Com a Amana Jornadas, há a possibilidade de ir além por meio de roteiros que oferecem intensa conexão com a natureza e também com a população local. Durante as trilhas, por exemplo, o guia/provocador, nascido e criado na Chapada e um grande estudioso da região, conta toda a história da localidade, desde suas formações geológicas até a forma como o garimpo moldou a região. Os roteiros que passam pelo Vale do Pati também têm a magia de nos conectar com os moradores e nos mostrar o que significa viver em um local tão isolado e de difícil acesso.

www.amanajornadas.com.br

4

COMUNA DE IBITIPOCA, MINAS GERAIS.

Paisagem de horizonte visto do alto de uma montanha, com estrutura de madeira e dois balanços feitos de crochê
Foto: Unsplash

Este projeto socioambiental começou com a compra da Fazenda do Engenho, datada de 1715, e hoje abrange mais de 5 mil hectares que se estendem pelos municípios de Lima Duarte, Bias Fortes e Santa Rita do Ibitipoca.  A propriedade, que atua como um cinturão de proteção para o Parque Estadual do Ibitipoca, é uma área de Mata Atlântica em franca recuperação de sua fauna e flora. Além disso, a Comuna fomenta o resgate da cultura local e o empreendedorismo dos moradores da região alinhado aos valores regenerativos. Há três opções de hospedagem: na sede da fazenda, em bangalôs e no vilarejo de Mogol, uma típica vila interiorana onde os turistas podem vivenciar o dia a dia no campo.

https://ibiti.com/pt/

5

FAZENDA ESCOLA BONA ESPERO, GOIÁS.

Paisagem de montanhas e vegetação
Foto: Unsplash

Bona Espero significa boa esperança em esperanto. Exatamente o que os fundadores da Fazenda Escola Bona Espero oferecem, desde 1957, à comunidade que vive no coração da Chapada dos Veadeiros, próximo a Alto Paraíso de Goiás. Criada como uma escola rural que já alfabetizou e acolheu mais de 600 crianças em situação de vulnerabilidade social, o local, cercado por belas cachoeiras, lagoas e trilhas, recebe turistas em suas 12 suítes. O cardápio oferecido pelo restaurante é vegano e as receitas utilizam legumes, verduras, hortaliças e frutas cultivados na própria fazenda, sem agrotóxicos ou qualquer tipo de produto químico. Como se trata de uma instituição sem fins lucrativos, os recursos angariados com o turismo se destinam a apoiar projetos sociais, educativos e culturais, além da preservação do cerrado e das nascentes locais.

@bonaespero

6

INSTITUTO TERRA LUMINOUS, SÃO PAULO.

Folhas de mamambaia e borboleta repousando sobre uma delas
Foto: Unsplash

Este instituto de conservação ambiental localizado em Juquitiba, a 70 km da capital paulista, na borda do Parque Estadual da Serra do Mar, promove uma experiência das mais preciosas: o Banho de Floresta Kicura, concebido pela Ekoways Turismo e Sustentabilidade. O programa terapêutico partiu do conceito desenvolvido no Japão, na década de 1980, para amenizar o estresse. Em plena Mata Atlântica, abre-se um espaço de vida selvagem para o visitante relaxar e experienciar as medicinas naturais da floresta. Além de focar no bem-estar pessoal, a ideia é que a integração com a natureza amplie a percepção para novas formas de cuidado e conservação desse ecossistema. É possível se hospedar no instituto ou utilizar o sistema Day Use. O cardápio do restaurante Grão prioriza alimentos provenientes da permacultura e da agrofloresta local, bem como de produtores da região. E se o hóspede se tornar um apoiador do Instituto, uma Palmeira Juçara, uma das árvores nativas da Mata Atlântica brasileira mais ameaçadas de extinção, será plantada para celebrar essa parceria.

https://terraluminous.eco.br

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