É Hora de Compostar o Que Não Nos Serve Mais

Precisamos transformar velhos hábitos em mudanças ativas para criar um futuro possível – para você e para todo o planeta
7 minutos de leitura
12.08.2021

Se você procurar na Wikipedia sobre o que é compostar, vai encontrar uma definição mais ou menos como essa:

“Compostagem é o conjunto de técnicas aplicadas para estimular a decomposição de materiais orgânicos com a finalidade de obter, no menor tempo possível, um material rico em substâncias húmicas e nutrientes minerais formando, assim, um solo humífero.”

De maneira simplificada, é uma forma de criar condições ideais para rápida decomposição de lixo orgânico: os restos dos nossos alimentos, por exemplo. O resultado final é um material cheio de vida capaz de fertilizar o solo e colaborar com algo novo que quer nascer.

Todos os anos, o Brasil produz quase 37 milhões de toneladas de lixo orgânico. Esse resíduo tem potencial para virar adubo, gás combustível e energia. No entanto, apenas 1% do que é descartado é reaproveitado. Os dados são da Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais.

Como os dados mostram, apenas uma pequeníssima parte da população anda ocupada com os resíduos da sua própria vida. E hoje o nosso papo aqui é sobre isso. Sobre dar conta daquilo que não nos serve mais com responsabilidade e confiança. Para isso, vou usar a compostagem como metáfora para o processo de transformação do nosso lixo individual e coletivo em adubo para o novo mundo que queremos ver nascer.

Compostar para o novo surgir

Mas como assim? Como você sabe bem, as coisas estão um tanto complicadas. Já são mais de 500 mil pessoas mortas pela Covid-19 no Brasil. Vivemos uma grande crise na saúde e na economia, a degradação ambiental é crescente e a política está se tornando a manifestação clara do caos em que vivemos. As notícias não são mesmo muito boas. E isso diz muito sobre o tipo de sociedade que perpetuamos.

São tempos difíceis, sim. Para uns bem mais que para outros, é importante lembrar. Podemos até estar no mesmo barco, mas certamente há quem está lá em cima gozando dos privilégios da primeira classe e quem está no porão já com a água no pescoço.

Por isso, acredito que precisamos aprender a compostar o que estamos vivendo, a lidar com o ciclo completo da nossa vida, a deixar a negação e as fantasias de lado. A deixar ir o que nos prende ao velho mundo, especialmente nossos hábitos de ser que incluem nossas emoções: a frustração, a raiva, o medo, o apego, a necessidade de controle e segurança, a tristeza, a identificação com o mundo que morre. Precisamos aprender a acelerar a decomposição do que já não nos serve mais e a produzir vida nova. Vida nova de verdade, não esse tal de novo-normal que querem empurrar para gente e que é mais uma repetição do velho só que agora com máscara.

Composteira de plástico verde apoiada em parapeito de madeira. AO fundo, paisagem de serra.

Olhando para o nosso lixo

Vivemos em um mundo sustentado por muitas falências e violências. Esse é um tempo de olhar para todo tipo de lixo. Para o lixo produzido pela ‘casa da modernidade’. Essa que foi construída há mais de 500 anos e que está erguida sobre enorme sofrimento humano e degradação ambiental. Essa que produtiza tudo e que desumaniza uns para que outros tenham seus privilégios. Essa que enxerga a natureza como recurso e se sente no direito de explorá-la para além do que ela é capaz de regenerar.

Existe uma urgência de novas narrativas. Narrativas pluriversais, como diria Mogobe Ramose, um filósofo africano que questiona essa ideia de universalidade do conhecimento e do Ser. Precisamos criar espaços comuns largos o suficiente para caber nossas diferenças ao mesmo tempo em que celebramos a igualdade de direitos e oportunidades. Precisamos ampliar nossos imaginários sociais e dar voz às histórias que a tanto vem sendo apagadas. 

Mas como fazer isso? Voltando à metáfora sobre compostar, falar dela sem falar de decomposição não faria o menor sentido. E a decomposição é um caminho tão natural quanto respirar e pensar para nós. Tudo que vive caminha para a decomposição e o gatilho é o fluxo de energia. Qualquer metabolismo começa a se decompor quando o fluxo de energia que o alimenta cessa.

E é aqui que mora a beleza dessa metáfora: para que algo se decomponha, precisamos retirar a energia que a alimenta e permitir que a comunidade de agentes decompositores faça a sua parte e ajude a acelerar o processo. Com nossos hábitos não é diferente. E se você quer realmente ver nascer um mundo novo que não nos adoeça e que não se pareça demais com esse mundo em que estamos vivendo, é preciso deixar ir o que não nos serve mais.

Composteira caseira customizada com tecidos estampados, apoiada em parapeito de madeira. AO fundo, paisagem de serra.

Abra espaço para sonhar o futuro

Nossos hábitos não são só ideias. Eles estão enraizados em dimensões afetivas, relacionais e neurobiológicas, incluindo nossas esperanças, desejos e apegos, compulsões e projeções que precisam ser interrompidos.

Por isso, deixo aqui 10 ideias do que precisamos compostar para abrir espaço para novos imaginários de futuro e de possibilidade de Ser. 

  1.  A ideia de que somos sujeitos individuais
  2. O desejo de protagonismo e legado
  3. A fantasia da desconexão com a natureza
  4. A negação das violências sistêmicas
  5. A necessidade de coerência, perfeição e controle
  6. O vício por consumo 
  7. A satisfação com a superficialidade
  8. O medo da rejeição e do desapontamento
  9. A ideia do humano como centro cosmos
  10. O ter ao invés do Ser

Precisamos criar sociedades que sejam capazes de se co-responsabilizar e criar gestos coletivos para lidar com essas fantasias. Não queremos nem podemos compostar um material tão denso sozinhos. Essa compostagem precisa ser pensada e sentida coletivamente por uma comunidade de decompositores. 

E fazemos isso olhando para os lugares mais profundos, para os nossos lixos mais densos, para aquilo com o que nos identificamos e que não serve mais. Abrindo espaço interno para algo que seja um futuro mais bonito para todes.

Sim, somos seres inter-geracionais em um grande fluxo de energia relacional que nos precede e sucede. É preciso lembrar que a Terra tem mais de 4,5 bilhões de anos de inteligência acumulada. Contemplar nosso emaranhamento com esse super organismo e pensar-se sendo ele e não vivendo nele, me parece algo forte o suficiente não só para nos tirar do centro como para nos fazer sentir tão importantes quanto insuficientes. E isso é lindo! Compostemos juntos!

Leia também


Espelho em parede, refletindo a imagem de Lua Couto segurando uma caneca de chá
Foto: Bruna Bento

Lua Couto (@procurorespostas) é pesquisadora de narrativas regenerativas que abordam a dignidade humana em um planeta saudável. Também é fundadora do @futuropossivel – coletivo brasileiro que trabalha com educação para a regeneração planetária. Lua é TEDx speaker e no último ano palestrou em eventos em empresas privadas e em organizações como a Unesco, abordando temas como alfabetização de futuros e os limites da narrativa em que vivemos.