O que Você Pode Fazer Contra a Crise Climática?

Nem salvador do planeta, nem omisso ao problema. Saiba, com responsabilidade e sem culpa, quatro medidas que estão ao seu alcance agora
10 minutos de leitura
15.03.2021

Eu devia começar esse texto te perguntando se você tem disposição para falar e agir em relação a mais uma crise global que extrapola o nosso controle. Não faço isso porque quero que você respire fundo e siga a leitura sabendo que o que vou dizer não te deixará mais exausto. Em vez disso, minha proposta aqui é te oferecer uma injeção de ânimo em relação à crise climática. Do latim animus, significa “alma” e “coragem”.

Mas veja bem: isso é diferente de fazer promessas que transformem você em herói do combate à crise climática. Dessa propaganda enganosa eu não quero fazer parte. É que o efeito colateral da ilusão dos superpoderes é a frustração, uma culpa que ativa sua mente auto-punitiva. O resultado disso são ativistas mais cansados e sem esperança. Quem nunca, não é mesmo?!  

Só que para falar de crise climática eu preciso começar com o que me ensina o filósofo pós-ativista Bayo Akomolafe: não é mais tempo de garantias. Talvez a reversão completa da crise climática fosse possível se tivéssemos transformado nosso sistema econômico lá no início dos anos 1970, quando, ao invés disso, a humanidade adotou um estilo de vida que passou a ultrapassar a biocapacidade da Terra em se regenerar da nossa exploração. Desde então, viemos em um crescente de sobrecarga do planeta, passando de todos os limites,  inclusive da capacidade de absorção das emissões de gases de efeito estufa.

Fazendo amizade com a incerteza

Mas será que essa dose de realidade não nos coloca sob o risco de nos imobilizarmos, nos transformando em zumbis do apocalipse, seres que normalizam altos níveis de consumo e a reprodução dos padrões insustentáveis da nossa sociedade?

Pelo contrário. Saber onde estamos pisando é fundamental para construirmos relações mais verdadeiras, duradouras e co-responsáveis pelos nossos próprios impactos negativos na Terra. Aliás, amplia nosso olhar sistêmico e nos leva, segundo Joanna Macy, a perceber que “o isolamento que fomos condicionados a experimentar nos últimos séculos, especialmente por essa sociedade de consumo hiperindividualista, trata-se de uma mentira”. 

Ou seja,  que gera a crise climática é um conjunto de crenças ilusórias. Observar a realidade pode ser, segundo ela, estimulante e libertador. Pois seu trabalho como ecofilósofa e facilitadora de grupos terapêuticos para ativistas nos traz um caminho que contrasta com nossa massiva sensação de impotência. Fundada nos princípios do budismo, ela defende que “a escolha que nos cabe é sobre como viver, neste momento. Poderíamos usar o pouco tempo que nos resta para acordar mais. Poderíamos permitir que toda essa experiência do planeta, que é intrinsecamente gratificante, se manifeste através de nossas mentes-coração…”.  Ora, se somos parte de um todo simbiótico como nos mostra a Teoria de Gaia, ao promovermos uma mudança interna, já alteramos as estruturas do sistema. 

Mas esse é um pensamento que só terá efeito sobre a sua vida se você soltar o peso de “salvar o mundo” e a pressão do “tem que dar tudo certo” dos seus ombros. Trata-se de fazer amizade com a incerteza.  Portanto, o que você muda são as suas sinapses, a sua própria forma de estar no mundo e, fazendo isso,  emana para seu entorno humano e não humano uma outra maneira de ser.

A prática é o antídoto do pessimismo contra a crise climática

A ideia que surge com pensadores da ecologia profunda como Stephan Harding e Satish Kumar tem mais a ver a sacralizar a vida do que de calcular um somatório técnico de toneladas de carbono que se pode deixar de emitir. Não que o segundo não seja importante. Mas ele deve ser consequência! 

É sobre inverter a ordem: não é o planeta que está ao seu serviço. É você que está a serviço da vida, porque sua felicidade depende dela. E, portanto, nessa função ecológica, não cabe explorar os chamados “recursos naturais” para além das suas necessidades. Como consequência disso, passa a não fazer sentido consumir sem refletir e nem alimentar lógicas que degenerem os ecossistemas.

Está mais que comprovado que a busca por resultados rápidos é sacrificante e facilmente abandonada. A boa transição para uma vida mais sustentável precisa ser gradual assim como reeducação alimentar. Afinal, não existe dieta milagrosa que vá fazer o clima perder 2 graus em cinco semanas! 

Trocadilhos à parte, digo isso, porque seja qual for sua estratégia para combater as mudanças climáticas, ela deve ser uma ação que parta de dentro, com foco na jornada e na conexão especialmente com quem está em posição menos privilegiada que a sua. 

Ir para a prática com essa reflexão muda tudo! Porque amplia nosso olhar para o real impacto positivo que queremos gerar. Podemos combater a insanidade de um sistema econômico que oprime ecossistemas e, simultaneamente, aceitar que a crise climática já se faz presente. E assime trabalhar para reduzir o sofrimento gerado por seus efeitos.

Ações práticas frente  à crise climática

Mas, afinal, o que fazer de concreto? Pois para tornar essa reflexão mais palpável, selecionei quatro ações práticas de duplo efeito em relação à crise climática:

  • Efeito de mitigação: reduz emissões de gases de efeito estufa
  • Efeito de adaptação: nos ajuda a preparar para as mudanças climáticas já em curso

Esses exemplos de práticas também constam na lista de soluções do Projeto Drawdown, como as medidas com maior potencial no combate à crise climática.

O que Você Pode Fazer Contra a Crise Climática?

1. Reduza o desperdício de alimentos 

Efeito de mitigação: essa medida está no topo da lista em impactos positivos do projeto Drawdown.  Se 75% do desperdício de alimentos atual for reduzido até 2050, as emissões evitadas podem chegar a cerca 19 gigatoneladas de dióxido de carbono. Como consequência, ganharíamos produtividade, somando mais 76 gigatoneladas pela redução do desmatamento para o plantio em terras agrícolas adicionais. Reduzimos, assim, um total de 95 gigatoneladas de CO2!

Efeito de adaptação: A forma mais inteligente de alcançar esse objetivo é encurtando a distância entre quem produz e quem planta, já que boa parte das perdas acontecem no armazenamento, processamento e transporte. Assim, fortalecemos economias locais e o engajamento interno de comunidades, tornando-as mais fortes para o enfrentamento de eventos climáticos extremos. 

Faça você mesmo: procure ter como primeira opção a compra de alimentos direto de quem planta ou do comércio justo. Na plataforma ativista Faz a Feira você pode buscar lojas virtuais de produtores e grupos de produtores na sua região. Além disso, os produtores que você já conhece também podem aderir gratuitamente à iniciativa e aumentar sua visibilidade local.

O que Você Pode Fazer Contra a Crise Climática?

2. Apoie a agricultura regenerativa

Efeito de mitigação: a agricultura regenerativa recupera a vida dos solos, gera autonomia em relação a insumos externos de adubação e não polui o ambiente com agrotóxicos. Com resultados, não somente reduz as emissões de gases de efeito estufa, como também tem potencial para sequestrar gases que já estão por aí por meio de seu solo vivo e suas árvores. Segundo o projeto Drawdown, se apoiarmos a agricultura regenerativa, temos o potencial de reduzir cerca de 22 gigatoneladas de dióxido de carbono.

Efeito de adaptação: plantações regenerativas se beneficiam da resiliência ampliada dos sistemas ecológicos. A biodiversidade é um escudo natural contra pragas que são esperadas no contexto de alterações do clima. Aliás, na agroecologia nem se usa o termo praga. Formigas, lagartas e gafanhotos funcionam como indicadores da saúde do sistema, mostrando quais medidas de manejo são necessárias.

Faça você mesmo: prefira alimentos agroecológicos, agroflorestais/sintrópicos. São mais saudáveis para você também. Repare que é comum que esses não tenham ainda a certificação de orgânico. Isso porque costuma ser um processo longo, trabalhoso e por vezes além da capacidade financeira do pequeno agricultor. 

O que Você Pode Fazer Contra a Crise Climática?

3. Coma plantas

Efeito de mitigação: O Projeto Drawdown estima que a humanidade pode evitar a emissão de cerca de 90 gigatoneladas de CO2 se 75% da população mundial reduzir o consumo de carne. Isso resulta da redução do desmatamento, do uso de fertilizantes e dos gases emitidos pelo gado. Esse número já considera o crescimento no consumo global de alimentos até 2050 e também o aumento do consumo de carne em países de baixa renda à medida que as economias crescem. 

Efeito de adaptação: a redução da necessidade de pastos já estabelecidos poderá abrir espaço para uma nova economia rural baseada na valorização da floresta em pé. Além disso, esse cenário favorece a criação de microclimas que podem reduzir o efeito local de estiagens, ciclones e outros eventos extremos característicos da crise climática.

Faça você mesmo: adote uma dieta rica na ingestão diária de proteínas vegetais: feijões, grão de bico, lentilha, ervilha, aveia, tofu, entre outros. Procure variar os alimentos e você conhecerá as infinitas possibilidades da alimentação plant-based.

O que Você Pode Fazer Contra a Crise Climática?

4. Plante florestas tropicais

Efeito de mitigação: As florestas tropicais do mundo sofreram desmatamento, fragmentação, e esgotamento da biodiversidade. Restaurar essas florestas também recupera sua função de sequestrar carbono da atmosfera. O Brasil é um prato cheio para a prática dessa estratégia. Hoje restam apenas 12,4% da Mata Atlântica que existia originalmente. Se o mundo recuperar 230 milhões de hectares, poderíamos sequestrar 85,1 gigatoneladas de dióxido de carbono até 2050.

Efeito de adaptação: Aqui, o efeito de microclima gerado poderá amenizar o efeito de ilhas de calor dos centros urbanos que têm sido agravados pela crise climática. Além disso, a floresta mantém a permeabilidade dos solos, reduzindo os riscos de inundações.

Faça você mesmo: afinal, nem todo mundo tem um pedaço de terra para recuperar uma floresta. Quem não tem como plantar diretamente, pode aderir a projetos que fazem isso por nós. A Ong SOS Mata Atlântica, por exemplo, mantém um programa de neutralização da nossa pegada de carbono. No site tem uma calculadora para você gerar o número de árvores que precisa plantar. Depois, pode fazer o pagamento do equivalente a essa neutralização e o projeto garante que suas árvores serão plantadas e em local de relevância ecológica e cuidadas para que cresçam saudáveis.

Agora respire fundo novamente e me diga se você se sente mais ou menos exausto que quando começou a ler esse texto. Claro que sim! Excesso de culpa e expectativa dão uma escoliose danada! Imagina quando deixamos de carregar também tantos quilos de CO2 então. Só de pensar me dá frio na barriga! Mas só na barriga mesmo. No planeta eu não posso garantir.

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