Por que o Lixo da Moda Afeta a Todos

O lixo da moda é um problema sistêmico e que só aumenta. Entenda os impactos de tanto resíduo têxtil e conheça iniciativas que estão mudando a cadeia de produção
8 minutos de leitura
22.02.2021

Se eu te pedir para imaginar uma montanha de lixo, automaticamente você pode pensar em lixo orgânico ou, pior, um amontoado de garrafas e descartáveis. Mas ainda há um lixo que não nos ocorre mas que só aumenta, com impactos ambientais imensos. É o lixo da moda. O modelo linear extrair-produzir-descartar, além de desatualizado, é insustentável. E o nosso consumo excessivo só perpetua esse ciclo. Talvez tudo ainda pareça abstrato para nós, mas alguns números podem ajudar. 

No centro da fábula do volume de resíduos têxteis está a cadeia da moda tentando equilibrar em seus pratinhos modelos de negócio que não desperdicem tanto tecido. Segundo o relatório A New Textiles Economy, publicado pela Fundação Ellen MacArthur, a cada segundo, o equivalente a um caminhão de roupas é enviado a aterros sanitários ou à incineração, enquanto menos de 1% das fibras usadas na produção de roupas são recicladas ou destinadas para a produção de novas peças. O relatório ainda diz que, nesse ritmo, até 2050 a indústria da moda usará um quarto de orçamento de carbono do mundo. 

Enquanto isso, no Brasil, existem leis e políticas públicas que se encarregam de responsabilizar a cadeia têxtil na gestão e gerenciamento dos impactos ambientais produzidos pela indústria. Entre elas estão a Resolução Conama n° 313/2002 que orienta sobre o destino de resíduos sólidos industriais, e a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que determina princípios, diretrizes, objetivos e responsabilidades no corretos descarte de resíduos tanto para os setores públicos como privados. Ambas configuram o papel ético que a indústria da moda deve seguir em suas produções.

Responsabilidade compartilhada e logística reversa

A partir da PNRS, surge o princípio da responsabilidade compartilhada. Nela, todos os envolvidos da cadeia devem cumprir seu papel para que os outros possam fazer o mesmo. Mas o que isso significa no português claro? Que as indústrias de confecção devem se responsabilizar por sua produção e impactos antes mesmo de uma peça chegar aos consumidores. E vale tanto para a reutilização e reciclagem de matérias-primas, como para a redução na geração de resíduos.

Também está prevista na PNRS a possibilidade de devolução de materiais que chegaram no fim do seu ciclo de vida, enquanto seus fabricantes assumem a responsabilidade sobre seu destino ambiental adequado. Parece a morte digna para nossas peças, certo? O problema é que, para a cadeia têxtil, a logística reversa é extremamente complexa. 

Para que a logística reversa seja uma realidade, todo o ecossistema produtivo precisa se movimentar. É necessária a implementação de políticas públicas como a PNRS, mas também é necessário rever os modelos de produção, de negócios e especialmente os modelos econômicos vigentes. Qual é o sentido em produzir tamanho volume se a utilização não é por completo?”, explica Mariana Chaves, coordenadora de comunicação do Fashion Revolution Brasil.

Reciclagem ainda é insuficiente para o lixo da moda

E isso não serve só para logística reversa, mas para a própria reciclagem também. Segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (ABIT), fábricas de fios e barbantes reciclados importam anualmente cerca de 10 mil toneladas de retalhos de seda, lã, algodão e outras fibras artificiais e sintéticas, que chegam ao país separados por cor e composição. Os retalhos, quando limpos e selecionados, podem e devem ser reciclados. No entanto, no Brasil, infelizmente, boa parte segue para o lixo comum. 

De acordo com números fornecidos pela ABIT, de 175 mil toneladas de resíduos têxteis gerados, estima-se que pelo menos 40% (aproximadamente 70 mil toneladas) são reprocessados por empresas recicladoras e os outros 60% (aproximadamente 100 mil toneladas) são descartados em aterros sanitários ou incinerados. Processo que contamina o solo (em aterros) e libera gases nocivos no ar (quando queimados).

Por que o Lixo da Moda Afeta a Todos

Para gerar menos lixo da moda, é preciso medir os impactos desde o início

Mariana Chaves, que trabalhou por anos no chão de fábricas de grifes brasileiras, aponta que os problemas na indústria da moda são complexos porque são sistêmicos: “Para pensar na quantidade de descarte e não adequação das empresas, precisamos pensar antes no início do processo. Então isso passa pela estratégia de marca, planejamento de coleção, desenho do produto, previsão de matéria prima. Esse processo, em geral, acontece de forma linear e não circular. Logo, o subproduto de um grande volume de itens produzidos é o resíduo, assim como tantos outros impactos socioambientais da indústria”, observa. 

Mas sabemos que esse manejo irresponsável está nas mãos de um número populoso de varejistas e suas concentrações locais, como no caso dos bairros do Brás e Bom Retiro em São Paulo. Por lá, eles geram 20 toneladas de lixo têxtil por dia. Parece inacreditável que haja, diariamente, tanto lixo da moda. Na contramão desse descaso,  surgiu o Retalho Fashion, uma iniciativa desenvolvida pela Sinditêxtil-SP em parceria com a prefeitura de São Paulo. A ideia do projeto é coletar  os resíduos descartados por esses dois bairros, evitando que os retalhos vão parar em aterros sanitários ou mesmo nas ruas. 

O programa conta com uma cooperativa que gerencia, separa e prepara a matéria-prima para ser reciclada, gerando renda aos cooperados. Mas, segundo a apresentação da iniciativa, o trabalho está nos  passos iniciais, levantando o diagnóstico da região. Mas as coletas, por hora, ainda não começaram. 

Novas possibilidades para o lixo da moda

São muitas as possibilidades de dar um novo destino a tecidos não incorporados pela indústria, como o reuso. Retalhos de jeans podem servir para a indústria automobilística (para fazer o quê?); pedaços de algodão podem se transformar em barbantes; tecidos sortidos podem virar manta acústica ou lonas geotêxteis e outros retalhos caem muito bem no artesanato, traduzindo todo tipo de fantasia. Essas sugestões foram indicadas pela analista de projetos de Sustentabilidade e Inovação da ABIT, Luiza Lorenzetti, em uma aula especial em São Paulo.

Mariana Chaves recorda que o melhor caminho é voltar o olhar aos bons exemplos de gestão circular na indústria da moda, como a criação de novos produtos a partir de matéria prima de descarte. Ou mesmo modelos de negócio baseados em troca, empresas que apostam na longevidade das roupas ressignificando itens através do upcycling, ou até a revenda de itens antigos, como os brechós. “Por último, existem as empresas que reciclam e desfibrilam tecidos, fazendo a matéria retornar novamente para o ecossistema”. 

Iniciativas que colaboram com a mudança

Bem, já está nítido que o lugar desses tecidos não é a fogueira. Partindo da proposta de re-criação, nasceram As Funcionárias, projeto coordenado por Ana Carolina de Liz, que confecciona bolsas a partir de sobras de tecidos de uniformes. Ana conta que, em quase três anos, a marca conseguiu evitar o envio para aterros sanitários de pelo menos 2 toneladas de tecidos. 

“As Funcionárias possibilitam um melhor destino a essas sobras de tecido. Trabalhamos cuidadosamente e transformamos os retalhos não só em bolsas, mas também em carteiras, cachepôs, toalhas de piquenique, porta-garrafas de água, almofadas. Também confeccionamos peças exclusivas encomendadas por clientes, como lembranças corporativas para funcionários e parceiros. Além dos tecidos dos uniformes, usamos sobras de cinto de segurança e outros tipos de tecidos para fazer alças e acabamentos”.

A marca nasceu em Joinville, cidade natal de Ana e também o maior polo industrial de Santa Catarina. Por isso, já dá para imaginar a quantidade de tecidos que acabavam no lixo. As Funcionárias escolheram por reformular a cadeia, mas os processos sustentáveis não pararam apenas na confecção das novas peças. As etiquetas de cada produto são feitas de papel reciclado e imitam os antigos cartões de ponto dos trabalhadores das fábricas da cidade, trazendo ainda mais sentido para cada produto.

“Temos Joinville como nossa principal inspiração e a proteção do meio ambiente como nosso principal valor. Essa é a nossa história. Pessoas compram de pessoas. As marcas contam com pessoas por trás que cuidam dela, que atribuem valores. No nosso caso, eu sou a cara por trás das Funcionárias. Construo um mundo melhor ao meu entorno, para minhas filhas, no modo “seja a mudança que você quer no mundo” e quero esse mundo melhor”, finaliza Ana Carolina de Liz.

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