A Black Friday é Mesmo a Vilã da Vida Sustentável?

A data só faz sentido para o mercado porque impulsiona compras desnecessárias. Afinal, o problema não é comprar algo com desconto, mas adquirir aquilo de que não se precisa…Veja nossa análise ecológica do ritual mais esquisito da sociedade moderna
8 minutos de leitura
19.11.2020

Para começar esse texto sobre Black Friday, eu quero te convidar a acordar cedo comigo. De madrugada. Só na imaginação. São quatro da manhã de uma sexta-feira. A gente não tem fome nenhuma de tanto que comemos no dia anterior. Afinal, teve mesa cheia de comida e convidados em celebração à abundância da vida. O dia de agradecer, também conhecido como dia de Ação de Graças. Você e eu moramos na mesma vizinhança de uma cidade média do Kentucky, Nevada ou qualquer outro estado americano. Pode escolher.

Ainda está escuro, faz frio e nós já dormimos com a roupa de ir, porque temos um ritual com hora marcada para participar: esperar na fila até a abertura da loja às cinco da madrugada. A porta abre, as pessoas se empurram, algumas caem. Eu virei o pé. Nós nos agarramos a objetos que nem sabemos bem o que são. Ali não há tempo para ler a ficha técnica da TV, nem comparar a qualidade da imagem. É salve-se quem puder e mesmo que seja um item de má qualidade, ou que eu nem precise, estou pagando muito barato por ele. 

Acho que já está bem. Podemos voltar. Já deu para ter um gostinho do que talvez seja um dos rituais sociais mais esquisitos já criados. A Black Friday. Ou melhor, os primórdios dela. Afinal, hoje já sabemos ser, pelo menos aqui no Brasil, um dia de descontos medianos, muitas compras pela internet e uma avacalhação coletiva em relação à pegada ecológica da humanidade. 

Faz sentido existir Black Friday?

Mas antes que você vista a túnica da culpa apocalíptica, uma ressalva importante: o impacto ambiental real de uma promoção é o que ela gera de um consumo que não aconteceria caso o desconto não existisse. Em outras palavras, se você espera por uma Black Friday para comprar itens de necessidade com melhores preços, você não está sendo vítima do estímulo ao consumo, nem gerando um impacto extra. Mesmo “necessidade” sendo um conceito bastante subjetivo, os impactos sobre o planeta seriam significativamente menores se tivéssemos maturidade o suficiente para não cometer excessos.

Porém, a Black Friday e outras datas comerciais não são criadas para esse tipo de situação: comprar só o que você precisa. Pelo contrário. Aliás, o dia em que todos os consumidores pensarem assim, o evento perde o sentido de existir. Veja bem, não faz sentido nenhum para o comércio ter queda nas vendas nos meses que antecedem a promoção para ter um pico depois vendendo sua mercadoria com desconto. Para Peter Fader, professor de marketing na Universidade da Pensilvânia, “promoções pontuais representam aumento de despesas com horas extras, pico logístico e aborrecimentos em troca de vendas a baixas margens de lucro”. Ou seja, para valer à pena precisa vender muito! Por isso, o objetivo da Black Friday realmente é que a gente vá à loucura e se entregue aos impulsos consumistas.

Economizar não é o problema. O problema é consumir mais

Por favor, não me entenda mal. Esse não é um texto para demonizar as promoções. Quem não ama economizar para comprar o que precisa? Inclusive, diante da realidade que vivemos, é importante democratizar o acesso a bens de consumo. Na verdade, eu bato na madeira é pela compulsão de consumo que atinge a todos. Afinal, os estímulos para consumir vêm de todos os lados: somos expostos a dezenas de propagandas diárias. Como escreveu o filósofo Zygmunt Bauman a respeito da publicidade, “toda promessa deve ser enganosa, ou pelo menos exagerada, para que a busca continue”.

A Black Friday é mesmo a vilã da vida sustentável?

Nem mesmo o mercado de produtos sustentáveis está livre de ser fábrica de ilusões. Está repleto de armadilhas para nos vender um estilo de vida em conexão com a natureza a partir de meias verdades e até de mentiras completas. Plásticos verdes que, na verdade, não se biodegradam, selos de certificação que omitem a parte menos bonita da história, cosméticos que trazem “natural” no nome mas, na lista de ingredientes em letras miúdas, contém substâncias que fazem mal à saúde.

É possível fazer compras mais conscientes?

Ser um consumidor consciente significa estar disposto a estudar. A mente analítica entra em ação para comprarmos sabendo exatamente o que estamos financiando. É um comportamento de consumo oposto ao impulsivo, este acionado pelas promoções bombásticas. Elas atuam num lugar do nosso subconsciente mais parecido com o que faziam as mesas de festinha infantil cheias de doce. O marketing dos mega descontos estimula nossa compulsão por consumir e isso por si só não é sustentável.

A dor de barriga das doces compras impulsivas vêm na forma de palpitações, ansiedade, arrependimento e ressaca moral. Mas o efeito colateral mais devastador das promoções é sentido pelo nosso organismo maior, o planeta. São cascatas de emissões de carbono, gastos energéticos, desperdícios, geração de resíduos e toda sorte de impactos ambientais.

E tem um agravante: se formos às ruas perguntar quais foram as últimas compras por impulso que as pessoas fizeram, as respostas mais prováveis irão envolver utilidades domésticas de plástico e roupas da famosa fast fashion. Coisas que muitas vezes não são nem duráveis, tampouco 100% recicláveis. Bobagens que vão encher as sacolas de doação das arrumações de armário num horizonte de tempo não muito distante. Bem à la Marie Kondo. 

No caso dos eletrônicos, que também figuram entre os favoritos das black fridays, o destino é ainda pior. Vão parar no lixo mesmo. Em 2019, batemos o recorde global de 53,6 milhões de toneladas métricas (Mt) de resíduos eletrônicos, o que representa um aumento de 21% em apenas cinco anos, segundo o Global E-waste Monitor 2020 das Nações Unidas. O conceito das mega promoções anda de mãos dadas com o da obsolescência programada que torna cada vez mais descartáveis aqueles itens que costumavam durar muito tempo, como televisores, telefones e companhia. 

E já estamos ladeira abaixo na degradação ambiental

É devido a essa lógica econômica que nossa pegada ecológica planetária está no vermelho desde antes de 1970, quando começou a ser medida. Coincidência ou não, seu gráfico evolutivo tem um aumento vertiginoso a partir da década de 1980, quando a lógica de consumo norte-americana teve franca expansão pelo mundo. 

Atualmente, nossa pegada é de 1,6 planeta. Ou seja, precisamos de mais de uma terra e meia para seguir existindo como temos feito. É um indicador quase irônico, já que esse 0,6 planeta a mais não existe… Estamos na ladeira abaixo da degradação ambiental, acelerando as mudanças climáticas, reduzindo a resiliência dos ecossistemas e gerando perdas irreversíveis de biodiversidade.

A Black Friday é mesmo a vilã da vida sustentável?

O mais intrigante é que uma parcela de menos de ¼ da população mundial é a grande responsável por esse estrago, já que das 7 bilhões de pessoas no mundo hoje, apenas 1,7 bilhões compõem a chamada “classe consumidora”, caracterizada por pessoas que têm dietas de alimentos altamente processados, desejo por casas maiores, mais e maiores carros, níveis mais altos de endividamento e estilos de vida dedicados ao acúmulo de bens não essenciais.

Segundo Christopher Flavin, presidente do Worldwatch Institute, “O aumento do consumo ajudou a atender às necessidades básicas e a criar empregos, mas, à medida que entramos em um novo século, esse apetite do consumidor sem precedentes está minando os sistemas naturais dos quais todos dependemos e tornando ainda mais difícil para os pobres do mundo terem suas necessidades básicas atendidas.”

Por isso, o consumo indulgente é menos inocente do que julgamos em nosso dia a dia. Ele está relacionado também ao cenário de injustiça ambiental, já que final das contas o mesmo planeta é compartilhado com os outros ¾ das pessoas que, por sinal, são os que sentem primeiro os impactos ambientais.

É preciso sonhar um novo mundo

Saber de tudo isso nos ajuda a pensar duas, três vezes antes de deslizar para cima aquele anúncio que te pega desprevenido nas redes sociais. A consciência é para isso mesmo: quebrar automatismos e quem sabe até “tornar nossa sexta-feira verde outra vez”, como propõe o movimento #MakeFridayGreenAgain”. 

Imagina que lindo se mudas de árvores fossem doadas nesse dia! Ou se o acesso a áreas verdes pagas fosse liberado. Vez ou outra seguiremos escorregando e comprando por impulso. Isso foi construído na gente desde a infância! Não desaparece como um passe de mágicas nem mesmo quando resolvemos ser “consumidores conscientes”. E ainda não me apresentaram o botãozinho “resetar mente viciada em consumir”. Aliás, se aparecer um desses na black friday, de repente eu até compro! 😉

Movimento anti-consumismo #MakeFridayGreenAgain

Inspiração

O que o YAM tem pra te dizer hoje?

Um oráculo. A seção Inspiracão propõe um jeito lúdico de revelar conhecimentos que estão presentes no nosso conteúdo. Foram selecionados pela nossa equipe e você vai descobrir aquele que tem a ver com você.

Surpreenda-se