Não me Fale de Consciência Humana!

Neste 20 de novembro, data que celebra a luta do movimento negro, precisamos nos aquilombar. E lutar pela garantia histórica e simbólica das reivindicações, conquistas e atualizações do povo preto
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18.11.2020

“e não há dúvida de que Palmares foi a primeira tentativa de criação dessa sociedade igualitária, onde existiu uma efetiva democracia racial” (Gonzalez, Lélia)

Eis que chegou novembro! Um dia desses estava pensando e observei que, pela primeira vez em anos, a minha agenda de compromissos em novembro estava “tranquila”. Conversando com algumas amigas, justificamos a ausência de convites, propostas e projetos à pandemia e ao desafio das instituições e das empresas em se adaptar a este novo contexto nada normal. Será?


Novembro é um mês cheio de convites, propostas boas e algumas indecorosas, mas costuma ser um mês de visibilidade à pauta da comunidade negra. Um mês em que falar de racismo não é lido como “mimi”; pesquisas, dados e programações especiais são comuns. Eu costumo dizer que é o mês em que nós, pretes, mais trabalhamos!


Um dia desses ouvi de um colega: “novembro é o junho dos sanfoneiros”. Isso não é uma queixa, é uma constatação: preto só existe neste país, nas capas de revistas, nos destaques dos jornais, como apresentador, comentarista em novembro (em alguns casos, no carnaval). A pergunta que norteia a problematização desse hábito é: se nós, negros, somos 56% da população, por qual razão é em novembro que existimos?

Edinho, o griot do quilombo, nos alertou sobre o tamanho de nosso desconhecimento sobre a história. Foto: Leonardo Galina

O que há por trás do Vidas Negras Importam


É claro que 2020 trouxe um cenário diferente. As manifestações #blacklivesmatter (#vidasnegrasimportam) provocaram uma mudança no cenário e nós, negros, fomos pautados ao longo do ano. Tenho para mim que eu nunca vi tanta capa de revista, anúncios, campanhas publicitárias e programas de TV, além de eventos on-line, com pessoas negras protagonizando. Vitória? Talvez.


Longe de ser pessimista ou ingrata, não dá para ser ingênua. Por detrás do interesse repentino de uma parcela da população, do despertar das empresas em acordar para o racismo e se declarar antirracista, é preciso lembrar que vivemos em uma sociedade capitalista em que lucrar é muito mais importante do que garantir políticas públicas e os direitos que tanto faltam. 


Eu tenho para mim que, além do interesse no lucro, existe um outro fator que este ano revelou: o muro ficou mais alto e ficar em cima dele é se aproximar da escória política que surfa nas ondas fascistas, supremacistas. Exagero?

Não sei… vou lançar um desafio: se as frases “somos todos iguais” ou “consciência humana” circularem nos grupos e murais das redes sociais… a minha desconfiança de que o antirracismo brasileiro é para boi dormir estará comprovada. E eu quero estar errada.

Carmen, filha de Marinalva, entrevistada para o trabalho Quando Zumbi Chegar.
Foto: Leonardo Galina

Desabafo feito. Vamos ao que interessa: celebremos o 20 de novembro!

Desde 2014, quando chega esta data, eu me lembro de quando subi a Serra da Barriga acompanhada de mais quatro amigos e nos nomeamos os 5nOMundo. O convite não podia ser vivenciado individualmente. Então, chamei Dani Barros, Léo Guma, Fernando Solidade e Rogério Pixote para, juntos, subirmos para Palmares e encontrar respostas, ouvir histórias e registrar a viagem. Foram poucos dias, mas o suficiente para ouvirmos e documentarmos seis histórias de quilombolas e de ativistas locais, num projeto que nomeamos de Quando Zumbi Chegar, disponível no youtube. 

Chegamos dois dias antes da grande data. Ficamos hospedados no Quilombo do Muquém, uma comunidade remanescente dos Quilombos dos Palmares. Durante a espera para o grande dia, ouvimos as histórias da comunidade, tomamos café torrado no fogaréu a lenha e pilado, aprendemos benzimentos com Dona Mocinha e nos posicionamos diante do abismo construído neste país quando o assunto é direito à memória, educação e identidade.

Beatriz Nascimento (1942-1995) alertava que “a historiografia oficial tem omitido os dados da vida desses negros que nunca foram escravos. Uma omissão histórica sobre os brasileiros que dominavam a produção de cana-de-açúcar, no século XVIII, em Pernambuco, para manter seu território – o Quilombo dos Palmares – forte e livre da dominação portuguesa” (1977).

Dona Marinalva, dando forma aos potes de cerâmica no quilombo. Foto: Leonardo Galina

Consciência Negra e o compromisso de não deixar morrer a história do povo negro


Foi Edinho, o griot do quilombo, um homem magro, cabelos brancos, cuja visão estava se despedindo de seu corpo, que nos alertou sobre o tamanho de nosso desconhecimento às histórias de lá… às histórias de cá. Edinho conversou com a gente por umas quatro horas. E ele falou e nos convocou ao compromisso de não deixar a história morrer ali, entre nós ou aqui, no sudeste. 

Diante dele, fomos apresentados a Zumbi, Aqualtune, Ganga Zumba, Dandara… Edinho guardava em sua memória e em pastas, certidões e histórias que só são possíveis de acessar quando nos deslocamos. Lembro do arrepio que senti quando ele verbalizou que a primeira experiência de república foi em Palmares…

Houve neste país, hoje governado por milicianos, uma república criada e liderada por mulheres negras e indígenas, por homens negros, indígenas e brancos que se aliavam à luta contra o sistema escravagista.

“Quando Zumbi chegar, o que vai acontecer?”

Saímos da casa de Edinho com as cabeças fervendo. A minha vontade era de gritar quanto eu me sentia burra e desconhecedora de mim, dos meus e das histórias que nos compunham.  A partir dali, a expectativa sobre o 20 de novembro nas terras palmarinas só aumentava. A pergunta que nos movia era: “quando Zumbi chegar, o que vai acontecer?”, emprestando a inspiração do mestre Jorge Ben Jor.

Acordamos de madrugada para subir a Serra. Acompanhamos uma cerimônia aos ancestrais e os povos de terreiro da região. Ali, teríamos um outro encontro que nos lançaria ao abismo novamente: Pai Célio, historiador, professor, Babalorixá, ex-policial e ativista alagoano.

Pai Célio nos levou para conhecer o Parque da Serra da Barriga. Cantos, rezas e dança para honrar quem esteve ali antes de nós e abrir as comemorações do dia. Muitas pessoas passaram por ali, entre elas Abdias Nascimento (1914-2011), Lélia Gonzalez (1934-1994) e Beatriz Nascimento). 

Cerimônia aos ancestrais, na Serra da Barriga. Foto: Leonardo Galina

Um país construído sob a marca da violência

Ao retornarmos à entrada do Parque, enquanto almoçávamos, fomos surpreendidos com uma salva de tiro para anunciar a abertura das celebrações de 20 de novembro, dia de Zumbi dos Palmares. Quando penso no som do estampido, me recordo do nosso susto e espanto. Ali, em terras sagradas, onde antes havíamos cantando para ancestralidade, pedido licença e renovado os votos com a nossa luta constante pela liberdade… o Estado não abria mão de estar e se impor com a sua violência.

Ao longo do dia, gravamos outras histórias, nos banhamos no Rio Muquém, conversamos com Dona Carmen e retornamos de noite ao Parque para gravar a última história da viagem: Seu Cícero. Ali, em sua casa, vimos o dia dar espaço à noite e ouvimos ele contar a história do parque implantado em 2007.

Consciência negra e um compromisso com essas histórias

Diante daquele céu estrelado, nos comprometemos a voltar e dividir as histórias de quem havia nos contado. Se passaram três anos e eu voltei à Alagoas, à Palmares. Dessa vez, para uma agenda breve e cheia de significados: colocar uma lápide aos pés do baobá onde estão as cinzas de Abdias Nascimento e participar de algumas mesas.

Antes que voltasse à Maceió, pedi ao grupo que esperasse por dez minutos. Peguei o computador, bati palmas na frente do portãozinho e seu Cícero apareceu, sereno. Me apresentei e disse que gostaria de exibir a entrevista dele. Assistimos juntos. Vi seus olhos ficarem marejados. Infelizmente, não consegui ir ao Quilombo do Muquém para exibir os outros vídeos.

Sei que os vídeos chegaram ao Muquém e que algumas de nossas entrevistadas assistiram. A nossa última entrevista, em 2014, foi com Dona Marinalva, mãe de Carmen, uma senhora cor da terra que ela manuseava para dar forma aos potes de cerâmica e que vivia cercada das crianças do quilombo.

No meio da serra onde ficava o quilombo, um lago nasceu. E ninguém sabe como ele foi formado. Foto: Leonardo Galina

20 de Novembro se contrapõe às mentiras contadas sobre o povo preto

Há muito o que se escrever sobre as histórias ouvidas nessa viagem e elas estão disponíveis na rede. Sempre que relembro de Palmares, penso no quão violenta é a história contada e ensinada neste país.  Me preocupo com a ausência de políticas de preservação dessas histórias, das memórias de terras e gentes, comunidades que guardam em seus corpos, danças, comidas e outras práticas, a história de um Brasil que se rebelou e se rebela frente às violências do Estado.

Há muitas terras quilombolas aguardando titulação e regulamentação. Há muitos espaços que precisam ter políticas reais para preservação da história. Cuidar desses patrimônios naturais e humanos deveria ser um compromisso urgente, em uma sociedade que se pretende ser mais humana, mais consciente.

Instituído em 1978, o 20 de novembro é uma conquista do movimento negro, uma efeméride que se contrapõe às mentiras contadas na história oficial do Brasil. Um dia para (que convertido em um mês) lembremos que o 13 de maio não representa a luta da população negra. Um dia para honrarmos as revoltas negras não escritas nos livros que circulam nas salas de aula. 

Sem consciência negra, não há mudanças

Nas palavras de Abdias: “20 de novembro é o Dia da Consciência Negra. Minha consciência evoca minha infância e juventude – e lá se vão tantas décadas. A edulcorada História do Brasil que se ensinava nas escolas nem sequer mencionava a epopéia de Palmares, limitando-se a descrever os quilombos como “valhacouto de negros fugidos”, na expressão até hoje registrada em nosso mais importante dicionário. Privava-se, desse modo, as crianças brasileiras, de todas as cores e origens, de conhecer não apenas a figura heróica de Zumbi, mas toda a saga de crueldade e revolta, suplício e redenção, sofrimento e bravura que se desenrolou nos quase quatro séculos de escravidão negra no Brasil. Contribuiu-se, desse modo, e decisivamente, na construção do mito da docilidade dos negros, supostamente conformados – e quem sabe até agradecidos – ante a dominação européia, exercida em nome da civilização e do cristianismo”.

Seu Cícero nos contou a história do Parque da Serra da Barriga, implantado em 2007.
Foto: Leonardo Galina

É hora de se aquilombar

20 de novembro é dia para lembrarmos que na história de Palmares e que na figura de Zumbi existe a garantia histórica e simbólica das reivindicações, conquistas e atualizações das lutas do povo preto. Entretanto, Zumbi não é o único herói quilombola, é importante dizer. Nesses encontros com lideranças quilombolas, aprendi que cada quilombo traz consigo sua liderança. A luta do povo negro não se encerra na figura de Zumbi e nem em nossas evocações por Dandara. Somos muitos, somos Zumbi. Somos pretos e nos sabemos humanos, mas para evocar a humanidade neste 20 de novembro, é preciso evocar e celebrar nossos aquilombamentos. 

E se você não negro chegou até aqui, lembre-se: aquilombar é verbo intransigente indireto para as mudanças que precisamos fazer neste país.

Para saber mais:

Quando Zumbi Chegar

https://www.youtube.com/channel/UC6n_RTU7ESrA3K73mkL_Cww

Abdias Nascimento

Pronunciamento de Abdias Nascimento em 18/11/1998:
https://www25.senado.leg.br/web/atividade/pronunciamentos/-/p/texto/234194

Livros

Beatriz Nascimento: quilombola e intelectual. Possibilidade nos dias de destruição. Editora Filhos da África. União dos Coletivos Pan-Africanistas. 2018

Lélia Gonzalez: Por um feminismo afro-latino-americano. Flavia Rios e Marcia Lima (organização). Zahar. 2018 ▲