Teko Semente e seus Vestidos Poema

O artista costura roupas honrando a natureza e reaproveitando tecidos que iriam para o lixo. E, a cada criação, também nasce bordada uma poesia
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09.10.2020

É em uma casa rústica, cheia de retalhos e com vista panorâmica para a mata atlântica – e  numa estrada que dá acesso a praia de Trindade – que a poesia acontece nas mãos de Teko Semente. Com pais agricultores, filho do meio de dez irmãos e nascido pelas mãos de uma parteira, Teko vive cercado pelas montanhas, rios, árvores e frutos do bairro de Patrimônio, em Paraty (RJ). 

Ali, construiu, com a ajuda dos irmãos, a casa que apresentaria seu ateliê e seus Vestidos Poema. Há 11 anos costurando e bordando, o caiçara faz suas criações a partir de lixo têxtil, transformando tecidos descartados em vestidos, camisas, bolsas estandartes e até porta-retratos. 

Autodidata, sem formação em desenho industrial ou moda, Teko Semente aprendeu a costurar com a mãe e a irmã, embora tenha contado com a ajuda de uma costureira para produzir as peças no início do seu projeto. Com o passar do tempo, o artista assumiu todo o processo de confecção: escolhia os retalhos, costurava os vestidos e começou a bordar. Hoje, até as roupas que o artista veste são criadas por ele seguindo o mesmo caminho. Os saberes femininos foram transformados por Teko em uma arte que não se apresenta por gênero. Ele ainda causa estranheza aos visitantes do ateliê, que se surpreendem ao encontrar, num canto da loja, não uma senhora, mas um homem bordando.

Poesia em forma de bordado

Teko vive em um sítio logo acima do ateliê, com a mulher e seus três filhos. Ali, planta o que come e aprende e ensina o que vê dos ciclos da natureza. No processo artístico, vale tudo aquilo que as mãos podem prover: cores estimulam sentidos, resíduos têxteis ganham vida e as peças costuram e escrevem novas histórias por meio da poesia. Não à toa, é este o slogan do trabalho de Teko: “Vista-se de Poesia”.

Conforme as peças e a costura foram ganhando forma, o artista passou a reproduzir poemas que guardava e que acreditava poder tocar outras pessoas. E como a inspiração é o que move suas criações, Teko indica que seu processo é orgânico e diferente do que estamos acostumados a ver. 

“Eu não tenho muita técnica ou clareza para criar. Mas tenho liberdade e tranquilidade para construir e produzir peças únicas, sem prazo de entrega. Isso me permite definir e descobrir, na hora que estou criando, quais retalhos serão unidos e quais palavras vão habitar o vestido. É um processo subjetivo, de deixar fluir”.

Pois ele não economiza energia, imaginação e criatividade para escolher qual poema vai habitar cada peça. “Se vestir da poesia não é apenas se vestir da palavra. É a poesia do olhar, da sensação, de poder passar o que eu entendo da vida e permitir que as pessoas consigam enxergar isso. Senti necessidade de chegar nas pessoas por meio da palavra bordada”, conta Teko.

Poesia bordada, aplicada em parede, em exposição do estilista e poeta Teko Semente

Ressignificando o lixo têxtil 

Mas não só em poesia pode-se resumir o trabalho de Teko. Linha e agulha dão vida a um pedaço das toneladas de lixo têxtil descartadas pela indústria do vestuário. Teko conta que os retalhos transformados em novas peças surgem desde doações ao ateliê, até em visitas que o artista faz no bairro do Brás, em São Paulo. 

Mergulhado em dezenas de sacolas com restos de tecidos, Teko Semente responde ao desafio de dar uma nova chance aos retalhos que muitas vezes são encontrados nas calçadas, prontos para serem despejados nos aterros sanitários. 

“É impressionante a quantidade de material bom que é jogado fora. Sempre me choca, porque penso na quantidade de pessoas que poderiam trabalhar dando um novo significado a esses tecidos”, observa Teko, enquanto fala de responsabilidade ambiental. “São anos e anos para aqueles materiais se decomporem na natureza, e meu trabalho também nasce desse lugar”.

Tudo é reaproveitado por Teko Semente

Mesmo se os tecidos chegam rasgados ou manchados, não perdem a viagem. Teko Semente reaproveita tudo o que pode para criar: retira os pedaços inutilizáveis e parte para outras técnicas, como o crochê ou o tear de retalhos. Esse trabalho, inclusive, foi apresentado na exposição “Retalhos que Me Habitam”, no Centro de Cultura de Paraty, em 2019.

Teko se sentiu abraçado pela sua cidade quando viu seu trabalho sendo exposto. “Foi um momento de grande reconhecimento. Uma exposição muito bonita e que agora eu quero transformar em visitas virtuais para que mais gente possa conhecer”, diz. 

O que Teko cria com as mãos e o coração nos inspira a pensar como podemos cuidar do mundo também. Valorizar o fazer manual, que respeita os processos naturais, estimula um consumo mais sustentável e dá um novo significado ao que se coloca na pele. O tecer e o bordar são saberes a serem reverenciados para que não se percam com o tempo. Vestir-se daquilo que expressa a verdadeira poesia nos lembra que a arte transforma. E a natureza também.

O estilista e poeta Teko Semente costurando em seu atelier

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