O que Desumanizamos Quando nos Humanizamos?

É preciso observar o lastro de desigualdade que a particularização da vida e dos hábitos criam. Pagar por serviços desfavorece o que deveria ser direito de todes
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28.09.2020

Uma sala de espera bem decorada, móveis arrojados, um perfume no ambiente. Tudo muito limpo, muito claro, muito branco. O atendimento acontece na hora, mais de sessenta minutos de muita conversa e orientação. A alma sai lavada e colocada no lugar. 

Corta.

Uma sala de espera pouco iluminada, piso frio fácil de limpar. Ao meu lado, cadeiras lotadas de mulheres como eu: pretas. O atendimento é rápido, os dez minutos diante do profissional não dão conta de dizer tudo, mas são o suficiente para que a fila ande com alguma agilidade e não crie caos na sala de espera. 


Eu já vivi essas duas realidades na mesma semana. Quando cheguei na casa dos trinta, fui catapultada para um mundo de prestação de serviço humanizados. Uma gama de profissionais especializados em humanização me foi apresentada e na busca por um melhor tratamento, eu me questionei: à medida em que busco pelo humanizado, a quem eu desumanizo? 


Está no mercado do “humanizado”, no particularismo da busca por bem-estar, a solução para que eu, mulher preta, me sinta inserida em uma sociedade que desumaniza os corpos e vidas dos meus pares?

Especial para alguns, excludente para tantos

Será que podemos pensar em serviços tão “especiais” quando mais da metade da população brasileira não tem acesso ao serviço básico? Quando a educação pública está abandonada, transportes públicos abarrotados e a luta pelo direito à terra, à moradia  estão cada vez mais acirradas?

A quem a lógica mercantil do humano, desumaniza? Qual estrutura é preservada à medida em que a busca por serviços e profissionais particulares está cada vez mais presente na lógica de uma vida sustentável, progressista e, atualmente, antirracista?

Que fique dito: este texto não é contra os profissionais que se apresentam como um contraponto às violências obstétricas, aos descuidos que as práticas de muitos profissionais da saúde, por exemplo. Sabemos bem que, numa sociedade desigual, a ausência do Estado e de políticas públicas que prezam e valorizam o acesso da população aos serviços essenciais, também faz emergir os serviços particulares. Estes, inclusive, nutrem uma lógica, uma máquina privada e lucrativa que nos leva à crença de que o particular é o melhor.

É melhor para quem?

Do que vale pagar mensalidades altíssimas de escola para o filho, quando o filho da empregada não tem creche para ficar? Dá para ter a consciência tranquila na casa limpa pela empregada, quando ela precisou acordar às 6h da manhã, pegar transporte lotado, para garantir que o seu café estivesse quente? O que a sua luta pelo antirracismo inclui – e exclui?

Classe média branca e antirracista?

Nos últimos meses, o antirracismo veio para o centro do debate e das tentativas de uma classe média branca inserir em seu cotidiano algo que pudesse os afastar da escória retrógrada e genocida que se vê representada no atual governo. Mas, se o antirracismo não te leva a refletir sobre os privilégios, méritos e a desumanização do não-branco… você precisa saber que está mais perto do esgoto do que da outra margem do rio.

Nada contra ao poder de pagar por serviços que garantam a qualidade de vida, a qualidade da educação, dos alimentos e do bem-estar. Nada é contra a quem pode pagar. No entanto, é preciso observar o lastro de desigualdade que a particularização da vida e dos hábitos promovem. Não se trata de deixar de usufruir, mas se trata de observar o quanto pagar por serviços diversos desfavorece o que deveria ser público e direito de todes. 

É preciso defender o Sistema Único de Saúde. É preciso defender o ensino público em todas as graduações, é preciso defender a creche pública, o transporte público, é preciso.

Ilustração sobre a diferença entre atendimento médico humanizado versus "desumanizado".jpg

Sobre abrir mão dos individualismos

A humanização pelo serviço particular alimenta o descompasso da desigualdade, sustenta uma lógica perversa de abandono da população. Podemos pensar em bem-estar, em soberania alimentar, enquanto populações indígenas vêem suas terras arderem em chamas, enquanto territórios quilombolas são invadidos pelo exército?

Volto a me perguntar: a quem a humanização da vida, desumaniza? O quanto o antirracismo, evocado nos últimos meses, mobiliza você a abrir mão dos privilégios e dos  individualismos e lutar pelo direito à vida, ao bem-estar de todes? 

Que os passos adiante sigam em comunidade, preservando os caminhos e o futuro-presente, olhando de fato para o que importa: o todo. Há uma sabedoria que as rodas de samba ensinam: o umbigo é a conexão com a outra. Com os corpos que formam a roda e fazem o samba girar e a vida existir no e com o todo. Que olhemos para todos os umbigos. 

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