Ecofeminismo por um Mundo Mais Livre

Conheça o movimento que une diferentes vozes de mulheres contra a opressão feminina, a violência contra os animais e a destruição da natureza
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14.09.2020

“As forças que marginalizam, oprimem e dominam a natureza são as mesmas que marginalizam e oprimem as mulheres”. É assim que a ativista ecofeminista Vandana Shiva explica o encontro entre as lutas feministas e os movimentos ecologistas. E que começou a descobrir interseções a partir da década de 1970, em diferentes partes do mundo.

Naquela época, de um lado, feministas em diferentes países reivindicavam igualdade de direitos entre homens e mulheres na sociedade. Levantavam bandeiras por liberdade sexual e iam às ruas bradar “nosso corpo nos pertence”. Queriam autonomia nos temas relacionados aos direitos reprodutivos. Defendiam, por exemplo, a contracepção livre e gratuita, o direito de escolher ser mãe ou não e a descriminalização do aborto.

De outro lado, o crescimento demográfico mundial e a destruição dos recursos naturais vinham à tona entre as preocupações de ambientalistas. O que atingia direta e especialmente as mulheres. Políticas de controle de natalidade incomodavam as feministas que exigiam liberdade reprodutiva. E a industrialização e as monoculturas, em curso acelerado, ao derrubar florestas e contaminar rios prejudicavam diretamente as populações tradicionais que se nutriam daquelas terras. Em grande parte, graças ao trabalho das mulheres.

Ecofeminismo e origem plural

O termo ecofeminismo foi cunhado pela feminista Françoise d’Eaubonne, na França, em 1974, que traçava uma relação entre a luta feminina pela propriedade do corpo e os riscos à saúde gerados como efeito das ações humanas no planeta, em especial em relação aos agrotóxicos. Mas é preciso frisar que, desde o início, o ecofeminismo é um movimento plural, porque reúne inúmeras pautas que abarcam mulheres de diferentes culturas, etnias, classes, raças, religiões, idades, geografias. 

Em comum, essas demandas trazem o que várias pensadoras do movimento chamam de estruturas opressoras do patriarcado capitalista. “São todos aqueles ismos de dominação, como especismo, racismo e sexismo, criados para justificar uma estrutura de poder hierárquico baseada em dualismos de valor oposto. Tais como brancos e negros, razão e emoção, homem e mulher, cultura e natureza”, diz a educadora e filósofa Daniela Rosendo.

“Nessa lógica, veja que a mulher está subjugada ao homem, ao passo que a natureza deve ser dominada pela cultura. Nós, ecofeministas, entendemos que isso tudo precisa ser abolido”, explica Daniela.

Mulheres confrontando a lógica do sistema

Um grande marco do ecofeminismo foi o movimento Chipko, na Índia, que teve início também nos idos de 1970. Diante da chegada de madeireiros que iriam suprimir centenas de árvores, um grupo de mulheres resolveu entrar na floresta tocando tambores e abraçar as árvores, em ato pacífico de coragem e resistência. Assim, elas conseguiram impedir o desmatamento e inspiraram outras mulheres de vilarejos da região a repetir a ação sempre que necessário em suas localidades, para proteger a base da subsistência de suas famílias.

Ao falar sobre o movimento Chipko, Vandana Shiva costuma ressaltar que aquelas mulheres não tinham escolaridade nem sequer energia elétrica, mas já sabiam, pela experiência cotidiana, algo que a ciência só começou a provar 40 anos depois: os produtos da floresta não são madeira e dinheiro, mas solo, água e ar puro. Elas tinham essa sabedoria sobre as funções ecológicas das florestas. E mais: haviam deixado por alguns momentos seus espaços domésticos para serem ativistas, negando a ideia de passividade que o patriarcado tenta impor às mulheres.

Lá naquele momento e ainda que sem um discurso teórico por trás, aquelas mulheres estavam confrontando a lógica do sistema econômico vigente, que chama a destruição da natureza de riqueza e desenvolvimento. Para elas, natureza é nutrição, é parceria, interdependência, valores bem distantes daquilo que as forças hegemônicas de poder planejavam como estratégias para o presente e o futuro.

A nutricionista e ativista, Alessandra Luglio, em ato pró-veganismo na Avenida Paulista
A nutricionista e ativista Alessandra Luglio, professora do Curso YAM de Veganismo: O Mundo é o Que Você Come, é uma das vozes do ecofeminismo animalista, que combate a exploração de animais para alimentação, vestuário, entretenimento e pesquisa. Foto: Acervo pessoal de Alessandra Luglio

Vozes do ecofeminismo em irmandade

No Brasil, o ecofeminismo está entranhado no ativismo de lideranças comunitárias de base que reivindicam saneamento básico nas favelas, na luta das camponesas da agroecologia contra o agronegócio, na fala das mulheres indígenas por direito à saúde, na voz da mulher ribeirinha que reclama do peixe contaminado pelo mercúrio do garimpo ilegal. E em tantos, tantos outros lugares de fala.

Daniela Rosendo, por exemplo, é vegana e representa uma voz no ecofeminismo animalista, que combate a exploração de animais para alimentação, vestuário, entretenimento e pesquisa. É um elo do movimento ecofeminista que vê conexões entre o ato de comer carne e a cultura de violência contra as mulheres, assunto que foi muito bem conceituado no livro de 1990, A Política Sexual da Carne: uma teoria feminista-vegetariana, de Carol J. Adams.

Já Rita Mendonça, bióloga e fundadora do Instituto Romã de educação e vivências com a natureza, há décadas dedica seu trabalho a ampliar nas pessoas um olhar mais sensível à natureza, com base em referenciais trazidos, por exemplo, pela Ecologia Profunda. Ela não se autodenomina ecofeminista, embora sua prática tenha muitas afinidades com princípios deste movimento. 

“A humanidade passa por um longo processo de cultura do patriarcado, que foi reproduzido inclusive pelas mulheres. Sete mil anos depois, não sei dizer se valores atrelados às mulheres, como cuidar da família e da terra, são próprios das mulheres ou se são frutos desse percurso histórico”, questiona.

Em seu trabalho, que ela chama de ativismo delicado, Rita não diferencia mulheres e homens na forma ou na aptidão de se relacionar com a natureza, embora 80% dos participantes dos cursos e vivências que ela promove sejam mulheres. “A quarentena ampliou nossa percepção para o mundo natural. Pudemos observar a natureza das nossas janelas com mais interesse, mais vontade. O planeta inteirinho está dentro e fora de nós e essa percepção precisa ser desenvolvida por todos, homens e mulheres”, diz.

Ecofeminismo de raiz

Nos movimentos sociais de base, Bianca Lima, gestora da Xepa Frente de Ativismo Alimentar nas redes Fora do Eixo e Mídia Ninja, firma sua voz ecofeminista no combate ao desperdício de comida. Ela frequenta feiras livres atrás de alimentos jogados no lixo, mas ainda em boas condições de consumo. Assim, nutre os moradores da casa coletiva onde mora com mais 15 pessoas, entre mulheres (70%), homens e crianças.

“A Xepa é gerida por duas mulheres negras que retornam à cozinha sim, mas sem que isso possa ser visto como um trabalho menor. Para mim, a alimentação tem muito do feminino, do cuidar, sem ser algo imposto ou passivo. Eu me vejo com protagonismo na cozinha e há todo um processo de construção coletiva para que ninguém tenha dúvidas disso”, diz Bianca.

Para ela, a grande questão é boicotar a indústria do agronegócio que destrói florestas e povos originários para dar lugar a pasto e soja transgênica. E, também, apoiar produtores orgânicos, experiências de agroflorestas, cooperativas de extrativismo sustentável e projetos de autonomia alimentar nas periferias.

De modo geral, as ecofeministas percebem que os males provocados no meio ambiente afetam com mais intensidade as mulheres de baixa renda nas cidades e aquelas que mantêm uma cultura mais diretamente vinculada à terra. Isso ocorre por uma mistura de aspectos socioculturais, econômicos e biológicos, que empurram as mulheres para uma situação de maior vulnerabilidade.

Privilégios e desigualdades

Atualmente, estima-se que entre 60% e 70% da agricultura de subsistência no mundo seja praticada por mulheres. Em desastres climáticos, por exemplo, elas são mais suscetíveis a situações de fome e desnutrição. E têm mais dificuldades para encontrar trabalho e restabelecer suas vidas, porque cuidam dos filhos, muitas vezes como mães solo. 

Entre os refugiados do clima, as mulheres representam 80%. Sem falar nas refugiadas de guerra e toda sorte de migrações involuntárias que aprofundam a desigualdade de gênero e acendem o alerta da violência contra a mulher, que atinge uma em cada cinco refugiadas, segundo a ONU.

Ao mesmo tempo, no mundo das pesquisas que tentam olhar para o futuro, Mariana Nobre, filósofa, especialista em novos cenários culturais, inovação e tendências, vê uma enorme potência feminina tomando corpo através das interseccionalidades, desses encontros de demandas que se somam, se complementam. São os debates a respeito do que é ser uma mulher negra, uma mulher indígena, uma mulher selvagem, uma mulher mãe, e por aí vai.

Um momento fértil para mudanças profundas

Tudo isso está ganhando maturidade e amplitude, ao lado de toda a pauta urgente das mudanças climáticas, da causa indígena, da conservação das florestas. “As pessoas que olham primeiro para esses debates e geram novos comportamentos individuais e coletivos, por diferentes razões, não são as que estão gozando dos privilégios das hegemonias, mas as que pautam a contracultura, as tendências”, diz Mariana. 

“Estamos hoje em um momento muito fértil para essas intersecções e esses cruzamentos acontecerem. Temos uma janela histórica, um embrião de uma grande revolução do que é ser mulher. E também de como deve ser a relação humana com a natureza e o planeta daqui para a frente”.

Não se trata, no entanto, de restringir o olhar a certas conquistas das mulheres. Há um campo de mulheres privilegiadas que se sentem empoderadas ao conquistar postos antes ocupados somente por homens, nas empresas e nas esferas do poder político. Vandana Shiva costuma dizer que não é suficiente ser mulher e caber numa estrutura patriarcal. É necessário mudar essa estrutura e seus valores. 

Segundo a ativista, existe hoje um pequeno número de mulheres no topo do patriarcado e todas as demais sendo esmagadas, inclusive pelas privilegiadas. Por isso, o ecofeminismo deve se colocar, sobretudo, como uma força inclusiva capaz de libertar todos os seres da Terra. Mulheres, homens e crianças, em todos os lugares. Este deve ser o maior horizonte.

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