Samaúma, Catedral da Floresta

Como vida que brota da Amazônia, esta árvore é superlativa, de proporções gigantes e, ao mesmo tempo, de um silêncio espiritual
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16.09.2020

Para gostar de uma samaúma é preciso ter estatura de poeta. Pode ser um poeta da terra, do texto, da música, ou da imagem. Ou ainda um romântico da botânica, que se enamora da história de uma espécie que foi capaz de cruzar o oceano e colonizar outro continente. 

Sem lirismo, no entanto, se perde o maior espetáculo dessa árvore. 

“Para mim, na verdade, são dois espetáculos. Primeiro, a exuberância, a imponência, os galhos perpendiculares ao tronco. E, segundo, o momento em que ela frutifica. A semente é envolta por uma paina muito leve, que parece neve quando cai. E forra o chão deixando tudo branquinho”, conta o biólogo Marcus Nadruz Coelho, curador das Coleções Vivas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Um dos caminhos que levam ao pesquisador é Tom Jobim. No Jardim Botânico do Rio de Janeiro há 12 samaúmas – ou sumaúmas, como também é conhecida a Ceiba pentandra. Uma delas, próxima ao chafariz, foi a preferida de Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, que a visitava diariamente. Era uma relação profunda, um laço de vida que se estreitou com os anos. Ela musa inspiradora para ele, o maestro. Quem conhecia Tom sabia bem desse amor. Um mês após a morte do soberano, uma placa com seu nome foi plantada aos pés da gigantesca árvore para que os dois seguissem juntos para sempre.

Interpretar e contemplar a Samaúma

“Tom costumava fazer longas considerações sobre a sumaúma. Aliás, no Jardim Botânico, falante como sempre, Tom ficava meio vegetalizado, se assim posso me exprimir. Ao chegar perto de uma árvore favorita, adotava um dialeto e uma postura destinados mais a interpretar do que a descrever a árvore. O nome sumaúma, por exemplo, ele o enroscava na boca como quem está chupando um caramelo”, escreveu o jornalista, dramaturgo e romancista Antonio Callado em sua coluna no jornal Folha de S. Paulo, em janeiro de 1995.

No texto que descrevia a cerimônia, Callado deixou gravada uma imagem bela e fidedigna do que via: “O tronco enorme dessa árvore de nome tupi sobe de sapopembas tão caprichadas que parecem feitas antes, para garantir os alicerces da árvore que vai crescer um despropósito.” 

Sim, ela cresce um despropósito. Ali no Jardim Botânico, onde foi plantada, a samaúma chega a 43 metros (estima-se que tenha entre 70 e 100 anos). Mas, quando se desenvolve em seu habitat natural, a Amazônia, a majestosa pode atingir de 50 a 60 metros. A base com sapopembas (ou sapopemas), nome dado às as raízes tubulares que encantaram o jornalista, pode se estender como tentáculos por cerca 15 metros de cada lado para ajudar o tronco a segurar a copa. Isso sem contar que, em seguida, essas raízes correm subterraneamente acompanhando o abundante lençol freático amazônico por até 300 metros. Quanto à copa, essa renda de folhas que se agrupam em uma espécie de pendão com cinco a sete folhas pontiagudas, parecida com uma mão cheia de dedos, pode chegar a 50 metros de diâmetro.

Raízes da Samaúma e início do tronco da árvore símbolo da Amazônia. Foto: Camilla Coutinho
Foto 1 – As raízes da Samaúma podem se estender como tentáculos por cerca 15 metros de cada lado para ajudar o tronco a segurar a copa da árvore / Crédito da imagem: Camilla Coutinho

Samaúma, conexão entre céu e terra

Para quem nunca esteve debaixo dela, é difícil sentir tal imensidão. Mas é possível compará-la à algo mais comum à paisagem das cidades: uma árvore deste tamanho equivaleria a um prédio de 20 andares (considerando que cada andar tem 3 metros de altura). Com duas samaúmas de 60 metros se alcançaria, por exemplo, o topo do Edifício Copan, um dos primeiros arranha-céus de São Paulo. Proporcionalmente, seriam necessários 10 ipês-amarelos empilhados.  

“Não é a árvore mais alta da Amazônia (ano passado uma expedição pelo Pará encontrou um angelim vermelho que mede mais de 88 metros de altura), mas certamente é a maior em diâmetro de tronco e copa”, diz Rogério Gribel, engenheiro florestal e coordenador de biodiversidade do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), sediado em Manaus. 

“A copa aberta e horizontal da Ceiba pentandra parece um guarda-chuva e se destaca das demais porque está acima do dossel da floresta, uma massa verde contínua de 35 a 40 metros de altura”, ilustra o pesquisador. 

Assim, vista de baixo, é possível entender porque os povos maia diziam que ela segurava o céu (o mundo superior), enquanto suas raízes penetravam o mundo interior e o tronco ficava no mundo do meio, ligando tudo que existe.

A árvore Samaúma vista de baixo para cima. Foto: Camilla Coutinho
Foto 2 – Para quem nunca esteve debaixo de uma Samaúma, é difícil sentir tal imensidão / Crédito da imagem: Camilla Coutinho

Rainha da Amazônia a guiar os caminhos

Hoje, a rainha da Amazônia continua a guiar os povos da floresta. É ponto de referência para os habitantes que se locomovem pelos rios em um cenário quase sempre plano e uniforme. “É algo do tipo: depois da quarta samaúma entra no igarapé à direita e chega na comunidade tal”, exemplifica Gribel.

Foi assim que o fotógrafo Araquém Alcântara conheceu a primeira samaúma da sua vida. O profissional – cujo trabalho completa 50 anos de uma crônica de amor à natureza e ativismo contra o seu extermínio –, já foi mais de uma centena de vezes à Amazônia e não esquece o dia em que foi arrebatado pela árvore.

“Estava em um barco e o comandante apontou para uma delas. Imediatamente quis chegar mais perto. Encostamos o barco e andamos até ela. Quando você se aproxima da sumaúma, a sensação é a de estar chegando em uma catedral. Ela é tão imponente que você se queda diante dela. Ao mesmo tempo se sente pequeno e em comunhão”, conta Araquém. “Não chorei, mas é impossível estar lá e não rezar. Fotografar foi minha forma de mostrar o sagrado presente ali”, responde o mestre das imagens ao ser perguntado sobre a emoção do evento.

Ele acrescenta: “Tenho 1,63 de altura e, para você ter  ideia de como eram altas as raízes, consegui me esconder entre duas sapopemas. Se quisesse abraçá-la, precisaria de umas dez ou quinze pessoas”.  Por estar próximo a uma comunidade, a árvore era brinquedo para meninos e meninas. E Araquém eternizou o momento em uma rica imagem: crianças brincando nas raízes da samaúma em total harmonia homem e natureza. 

Crianças brincam nas enormes raízes da árvore Samaúma. Foto: Araquém Alcântara
Na foto de capa desta matéria, crianças brincando nas raízes da Samaúma em total harmonia homem e natureza / Imagem cedida por Araquém Alcântara.

Derrubada para virar móvel

Infelizmente tanta visibilidade não atraiu apenas amigos. A madeira macia da sumaúma foi brutalmente usada como miolo de compensados. “A madeira flutua com facilidade e descia os rios em jangadas imensas de 70 a 400 toras amarradas com cabos de aço e puxadas por embarcações até os locais de processamento. Por isso, a paisagem das margens dos rios Negro e Solimões mudou na década de 1980. Onde havia sumaúmas, não há mais. Elas ficaram mais preservadas na Amazônia profunda, dos rios Purus e Branco, no trecho mais alto, onde ficam distantes das indústrias de beneficiamento e o custo de extraí-las e transportá-las fica alto demais”, desabafa Gribel.

Mestre em ecologia vegetal e PhD em evolução de plantas pela Universidade de St Andrews, na Escócia, Gribel conhece muito sobre a reprodução, a genética e a história natural da rainha da floresta. E destaca outro problema decorrente do desmatamento. A distância entre as árvores aumentou. Os polinizadores, em geral morcegos, nem sempre conseguem voar da árvore pai e chegar na árvore mãe para fazer a fecundação. (por mais que eles consigam voar até 18 quilômetros de um ponto a outro, é preciso haver onde descansar e se reabastecer pelo caminho. E o desmatamento dificulta tudo).

“E se não fazem isso na hora certa, perdem a chance. Explico: a floração da sumaúma demora três semanas, mas cada flor só dura uma noite – abre às 19h e cai às 5 h. Sem fecundação, não há reprodução de sementes. Sem sementes não tem como a espécie continuar a existir”, ensina o estudioso, que defende a criação de uma reserva de sumaúmas (assim o processo todo seria naturalmente preservado, muito melhor do que se as sementes ficassem num banco de espécies).

Uma viagem até a África

Gribel é um dos pesquisadores que descobriu algo extraordinário na história natural desta árvore. Cerca de 3 a 5 bilhões de anos atrás ela conseguiu atravessar o Atlântico e colonizar a África. 

A pesquisa começou em 2000, envolveu estudiosos do INPA e do Instituto Smithsonian de Pesquisa Tropical, no Panamá, e teve seus resultados publicados na revista Molecular Ecology. Com base em marcadores genéticos universais foi possível analisar o DNA das samaúmas daqui e de lá e constatar a dispersão transoceânica. O estudo sugere que as sementes teriam viajado por uma combinação de correntes marítimas com grandes vendavais. Tudo isso facilitados pelo fato de a semente ter uma estrutura similar a uma cortiça que permite flutuar e a paina, que a permite ser levada pelo vento. “Um absurdo, portanto, que uma vida tão interessante, uma biologia tão rica, seja cortada, morta e empregada para miolo de compensado”, critica Gribel.

Com vistas comerciais, um projeto da Embrapa incentiva o plantio de sumaúmas pelo valor das sementes (da qual se extrai óleo comestível) e por causa da paina, para enchimento de salva-vidas, colchões e travesseiros.  Mas a majestosa merece mais. 

Pela orientação aos navegantes da Amazônia, pelo espaço que ocupa, pela generosidade que se percebe na vazante, período em que as terras não estão alagadas e as sapopembas estouram vertendo toda água que bombearam do fundo da terra, dando de beber a outras espécies ao redor, a “árvore da vida” merece reinar em paz. Merece ser musa. Imagino uma delas carregada de milhares de sementes envoltas pela leve paina que cai como chuva de algodão no coração da selva.

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