Amazônia em Rota de Destruição

O plano do governo brasileiro de pavimentar uma estrada no coração da floresta representa uma ameaça que pode colocar em risco todo o ecossistema e a saúde do planeta
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31.08.2020

Embarcamos o carro na balsa em Manaus, cidade de dois milhões de habitantes que nasce na selva, onde Rio Negro deságua no Rio Amazonas – uma confluência, aparentemente, tão ampla quanto o oceano. O barco nos levou pela grande baía, passando por cabanas pomposas, cais flutuantes e floresta alagada. Após mais de uma hora, chegamos ao final, na margem sul do Amazonas. Desembarcamos em uma cidade com barracas de mercado e casas de telha. Foi aqui que começamos nossa verdadeira jornada. Um trajeto de centenas de quilômetros por uma estrada esburacada, cheia de erosões e não pavimentada, conhecida como BR-319. Essa estrada tem um papel surpreendente na saúde da floresta Amazônica que, por sua vez, afeta a composição da atmosfera da Terra e o ar que respiramos. A Amazônia é essencial também para o clima que nossos descendentes irão enfrentar quando chegarem no planeta que estamos vivendo.

A BR-319 foi construída inicialmente nos anos 1970 durante a ditadura militar, cujo regime enxergava a floresta como terra de ninguém, esperando para ser desenvolvida. Pouco antes, o governo havia estabelecido uma zona de livre comércio em Manaus e a Harley-Davidson, Kawasaki e Honda logo construíram suas fábricas lá. A BR-319 conectou Manaus a Porto Velho e à São Paulo e demais regiões. Mas, quando o regime militar acabou, o jovem governo democrático perdeu interesse na BR-319. E, após anos de negligência, boa parte da rota tornou-se praticamente intransitável.

Mas isso foi na verdade uma sorte, de acordo com muitos cientistas e conservacionistas: é que limitou a indústria madeireira e o desmatamento na região. Enquanto rodovia, a BR-319 é especialmente significativa, pois corta uma vasta e intocada região, diz Philip Fearnside, um ecologista americano que trabalha no Instituto Nacional de Pesquisa Amazônica de Manaus (Inpa). “A estrada passa pelo coração da Amazônia”, ele diz. “O que mais protege a floresta é justamente ela ser inacessível.”

Vista aérea de queimada de área verde próxima à BR319, na Amazônia
Serraria e madeireiras têm brotado ao longo da BR-319 próximo à cidade fronteiriça de Realidade,
onde milhares trabalham em comércio madeireiro ilegal. Foto: Evgeny Makarov

O desmatamento vai acabar com nosso ecossistema

Os ecologistas estão preocupados com os rumos da Amazônia pois as árvores e esse bioma removem em torno de dois bilhões de toneladas de carbono da atmosfera todos os anos – agindo como um freio importante ao aquecimento global e ajudando a repor o oxigênio da atmosfera. 

Fearnside alerta sobre o ponto crítico: um limite de desmatamento que, se cruzado, vai acabar com o ecossistema. Hoje, estima-se que 15 a 17% da floresta tropical já foi desmatada. Especialistas dizem que, uma vez que 20 a 25% dessa floresta sejam destruídos, essa floresta pode se tornar uma savana, mudança que trará estações mais longas e secas, temperaturas mais altas, mais incêndios e menos chuvas. “A Amazônia passará de armazenadora de CO2 a emissora de CO2”, diz Fearnside, que alerta para consequências globais desastrosas.

Até agora, a maior parte do desmatamento no Brasil – até 95% –  tem ocorrido a 5.25 quilômetros da rodovia. Motivo pelo qual defensores, ambientalistas e mais gente preocupada com a floresta foram surpreendidos quando, em julho de 2019, Jair Bolsonaro anunciou planos de reconstruir a BR-319 a fim de promover o desenvolvimento econômico. 

Em junho deste ano, a Amazônia registrou 1.034,4 km² de área sob alerta de desmatamento. Isso é um recorde para o mês em toda a série, iniciada em 2015. No acumulado do semestre, houve um aumento de 25% em comparação ao primeiro semestre de 2019. Já em julho, o número subiu para 1.654 km² de áreas em risco. Se considerarmos o período de um ano, o aumento foi de 34,5%, em comparação a 2019, segundo dados divulgados pelo Inpe. Os ecologistas atribuem esses números à desregulamentação ambiental sob o governo de Bolsonaro. Ao todo, até hoje, já foram desmatados 700 mil km2 de floresta amazônica. Isso equivale à área de 23 Bélgicas ou 17 Holandas, também segundo o Inpe.

Maria e João José Cordeiro, donos de pousada na Amazônia, sobre trecho da BR 319, estrada em construção

Maria e João José Cordeiro, donos de uma pousada, pensam que pavimentar a BR-319 aumentaria seu negócio. Mas se preocupam que a indústria dizime muito da vida selvagem. Foto: Evgeny Makarov

Por dentro da estrada que corta a Amazônia

Em julho do ano passado, eu vim para o estado do Amazonas para dirigir nesta estrada abandonada por tanto tempo. Nos 135 quilômetros ao sul da cidade portuária de Careiro da Várzea, a BR-319 é pavimentada, mas logo se torna uma estrada de terra. Nós começamos a atravessar na floresta com um guia, João Araújo de Souza, um indígena que cresceu a 37.5 quilômetros ao sul de Manaus. João trabalha como técnico no Inpa e já dirigiu pela BR-319 muitas vezes. Cruzamos rústicas pontes de madeira e rios de águas negras, tingidos de negro como chá pela vegetação em decomposição. Esta água negra, explica de Souza, é um bom sinal – ali não há malária, pois a larva do mosquito que carrega a doença não consegue sobreviver em água tão ácida.

Em uma cidade chamada Careiro Castanho, a 135 quilômetros de Manaus, passamos o último posto de gasolina em centenas de quilômetros. Mais algumas horas e alcançamos a reserva conhecida como Igapó-Açu,  uma “barreira verde” que abrange quase um milhão de acres de floresta que envolvem a BR-319. Esta “reserva de desenvolvimento sustentável” foi estabelecida em 2009 para proteger a floresta e as 200 famílias indígenas que moram aqui. Eles podem cortar árvores, mas apenas para necessidades próprias. Sua renda vem da administração da balsa que cruza o Rio Igapó-Açu, um afluente do Rio Madeira.

Vista aérea da BR 319, ainda em construção, cortando vilarejo na Amazônia
Na última década, uma média de 15 quilômetros de estradas de madeireiras não oficiais têm se desenvolvido a cada ano nos arredores de Realidade. Foto: Evgeny Makarov

Ali, encontramos Emerson dos Santos, um homem forte de rosto arredondado, e sua filha de 15 anos, Érica, que chega correndo com um peixe se debatendo nas mãos. “O melhor pescado do mundo”, diz Emerson, que construiu pousadas ao longo do rio e sonha com o turismo sustentável no Igapó-Açu. Mas, para isso, ele precisa de hóspedes e hóspedes precisam de uma boa estrada, ele diz. Como todos os moradores que conhecemos, dos Santos foi ambivalente quanto à BR-319. Ele quer que ela seja reconstruída – para ambulâncias, polícia, turistas passarem – mas não para que a rodovia traga mineração industrial e operações madeireiras. Nas palavras de João, o que Emerson quer é como “chupar cana e assoviar ao mesmo tempo”.

Retomamos para a estrada e, no quilômetro 215, cruzamos a ponte sobre o Buraco da Cobra, onde vemos a carcaça de um caminhão em um riacho abaixo. Dizem que o motorista nunca foi encontrado – apenas sua mochila. No quilômetro 233 fica a Toca da Onça. Aqui, motociclistas desaparecem, emboscados pelas onças. Em pouco tempo, entramos no Parque Nacional Lago Jari, uma das florestas com maior biodiversidade do mundo. São mais de mil espécies de árvores podem ser encontradas em um quilômetro quadrado – basicamente, o mesmo número de espécies que podem ser encontradas nos Estados Unidos inteiro. Enquanto caminhamos, macacos-prego saltam de uma árvore para outra.

Área desmatada na Amazônia
Ecologistas temem que repavimentar a rodovia conhecida como BR-319 abrirá
novas áreas da Amazônia para o desmatamento catastrófico. Foto: Evgeny Makarov. 

Fazendas e gado em área de preservação florestal

No quilômetro 300, o solo se torna mais firme e há menos buracos. Alguém os tem consertado. Aparece, como se brotasse do chão, uma escavadeira como aquelas usadas em construções. Vemos um estreito corredor se abrir para dentro da floresta. “Isto não estava aqui há duas semanas”, diz o guia João. Em poucos quilômetros, vemos mais dúzias de corredores. E troncos de árvores empilhados no chão da floresta desmatada. A seguir, vemos fazendas nas margens da estrada, depois gado e estábulos. Há avisos de “propriedade privada”, mesmo isso não sendo possível. Afinal, estamos em um Parque Nacional.

Realidade, um município fundado nos anos 1970, se tornou uma cidade de expansão madeireira nos últimos cinco anos. Entretanto, a maioria da atividade madeireira é ilegal aqui – a terra é protegida pelo “código florestal” do Brasil, que em anos recentes tem firmemente restringido o uso privado da terra na Amazônia. Nos disseram que investidores estão comprando enormes trechos e pagam R$100 por dia aos lenhadores. Tratores, escavadeiras e mais maquinário pesado também, pois são usados para derrubar as árvores. Foram abertas oito serrarias. Cerca de 7mil pessoas vivem nesta cidade ilícita.

Conhecemos seu D., um senhor de 50 anos que pediu para não ser identificado. “Quando chegamos aqui no fim do mundo, havia apenas uns poucos cavalos”, ele diz. As pessoas coletavam castanhas do Pará e as vendiam em Humaitá, uma cidade ao sul. D. comprou um pedaço de terra pelo preço de uma refeição e abriu uma pousada. Há dois anos, ele comprou mais terra a 90 quilômetros para o norte. Esse terreno fica em terras protegidas, a menos de 10 quilômetros da emblemática BR-319. Usando o maquinário fornecido por investidores de São Paulo, ele está abrindo um corredor agora. Entre as árvores mais valiosas na propriedade “dele” estão a Itaúba, uma preciosa madeira para a construção de navios, o Cedrinho, para casas e a Angelim, para móveis. Algumas árvores chegam a ter mais de 800 anos. Isso é realidade, eu pensei. Isto é realidade.

Troncos de árvores, resultado de desamatamento próximo à BR 319, estrada em construção na Amazônia
Às vezes, os troncos são transportados à noite para escapar das autoridades. A fiscalização diminuiu muito sob o governo de Bolsonaro. Foto: Evgeny Makarov

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