Vale da Rainha, Um Santuário de Mestres Animais

Resgatados de situações de violência, abandono e maus-tratos, os 105 moradores locais de quatro patas ensinam sobre amor incondicional e perdão, e inspiram pessoas a caminhar rumo ao veganismo, cada uma no seu passo e à sua maneira
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24.08.2020

Camanducaia, Sul de Minas Gerais. Cidade e entorno de tradição agropecuária, além de rota de romeiros e peregrinos. Região, portanto, de forte presença de animais explorados na lida do campo de diversas formas e criados – em pastos precários ou confinados sem chance alguma de expressar seu instintos naturais -– para virar carne, produzir leite e tendo a vida, por fim, interrompida no abatedouro. 

Como tantos outros lugares do país, é palco de inúmeros episódios de crueldade com os animais. Mas é ali também que, desde 2013, está presente o Santuário Vale da Rainha, que abriga bichos de médio e grande porte resgatados de situações limite. São bovinos, suínos, caprinos e equinos que chegam ali machucados, estressados, traumatizados. 

Atualmente, vivem lá 105 animais: 90 de médio e grande porte e 15 pequenos (cães e gatos), sem contar as galinhas, que já passam de uma centena, muitas delas refugiadas por conta própria de propriedades vizinhas. 

Cada um deles entrou no sítio com uma história de resgate. Patricia Andrade Varela Favano, guardiã e servidora do santuário, juntamente com o marido, Vitor Favano, conta que, em geral, tudo começa com uma denúncia. Algumas vêm de moradores da região, outras da polícia ambiental, de políticos locais e até do Ministério Público. “Fazemos sempre um esforço para que o autor da denúncia trabalhe junto com a gente no processo, porque tudo precisa ser muito bem planejado”, diz.

Ela explica que casos de abandono de animais de grande porte são mais raros, porque na lógica do agronegócio eles são simplesmente abatidos. A exceção são os equinos. “É comum cavalo ser abandonado quando, depois de certa idade, já não mais suporta as longas cavalgadas ou a jornada de trabalho na terra. Eles são deixados em áreas conhecidas como locais de descarte, sem água e sem comida, para agonizarem até a morte”.

Serviço de resgate amoroso

Para chegar até o animal, seja qual for a espécie, Patricia e Vitor colhem informações sobre o caso e estudam a melhor estratégia de ação. “Às vezes, conseguimos conversar e fazer o dono doar o animal para o santuário, o que ocorre, em geral, quando ele está tão doente que a carne dele desfavorece o consumo”, afirma Patricia. 

É tudo muito delicado, segundo ela, porque os cuidados com os animais não estão muito em questão quando se trata de pecuária. “É só pensar que, se fosse diferente, não poderiam existir os matadouros”. Da mesma forma, a medicina veterinária que trata os animais de médio e grande porte também carece de uma visão, digamos, menos antropocêntrica. Nesse universo hostil, quando cuidar parece ser complicado demais – devido ao tamanho do animal, às dificuldades de locomoção e transporte e até questões sanitárias – a opção mais corriqueira é a eutanásia.

Para contornar esses caminhos viciados e nada empáticos, Patricia e Vitor precisam, a cada resgate, formar uma verdadeira força-tarefa. Contratam veterinário e gente especializada na lida com esses animais de grande porte. Muitas vezes, eles são encontrados tão debilitados que já não se sustentam em pé. Aí, é necessário montar estruturas provisórias com cordas, roldanas, lonas e outros equipamentos, para conseguir retirar o animal dali sem prejudicá-lo ainda mais.

São horas e horas de trabalho pesado – literalmente, porque alguns animais chegam a ter mais de 500 quilos. Do pasto até o caminhão são quilômetros de muitos desafios. “É curioso perceber que, às vezes, quem nos ajuda a resgatar esses animais são pessoas que se alimentam de sua carne ou que participam de atividades que exploram aqueles animais, mas que, naquele momento, estão ali para servi-lo”, comenta Patricia. 

Em algumas situações, o transporte é feito direto para um hospital especializado em animais grandes. Somente depois de cirurgias e outros tratamentos mais intensivos – custeados pelo santuário – é que ele chega, então, ao Vale da Rainha.

Ensinamentos dos mestres animais

No sítio, eles recebem remédios e outros procedimentos médicos para restabelecer o físico, ainda que restem sequelas, em alguns casos. “De todo sofrimento que eles passam, os maiores danos são os emocionais”, relata Patricia. Como curar essas feridas  nesses animais? Do que eles precisam? 

Para a guardiã do santuário, o toque carinhoso dos servidores do santuário, dia após dia, é importante para que eles possam ressignificar a própria encarnação. “Eu comparo cada um deles ao espírito de uma criança. Assim, falamos pouco, na altura deles, sem tentar explicar muita coisa. Simplesmente, ficamos em silêncio com eles, em comunhão. Assim, aos poucos, eles aceitam carinho e até dão carinho”, conta.

É exatamente aí que acontece algo muito especial. “Nesse processo todo, eles nos trazem verdadeiros ensinamentos de amor incondicional e de perdão. Não é que eles perdem a memória do que viveram. Eles perdoam, eles não odeiam. É como se dissessem: não importa o que você tenha feito, eu te amo. É isso que faz com que estes animais sejam grandes mestres para nós”, afirma Patricia.

Cada mestre animal nos apresenta ensinamentos

Ela e o marido Vitor chamam os seres resgatados pelo santuário de mestres animais. Cada um deles é batizado com o nome de um mestre da humanidade: Shiva, Krishna, Pandora, Amma, Krishnamurti e tantos outros. Acolhidos ali, eles vivem a cura deles e, como diz Patricia, promovem um trabalho de resgate das pessoas.

Até antes da pandemia, o santuário realizava vivências de conscientização, para que os visitantes pudessem conhecer o local, ouvir as histórias dos resgates, criar uma conexão com os animais e, assim, serem tocadas, de alguma maneira. “Aqui, o onívoro é bem-vindo. A característica do nosso trabalho é a fonte amorosa, não devo impor julgamento a ninguém. Se os animais nos falam sobre perdão e amor incondicional, preciso honrar esses ensinamentos”. 

A fala da Patricia diz muito sobre sua busca espiritual. Vinte anos atrás, ela deixou de lado uma “boa carreira” em nome de um caminho pessoal com mais propósito. Esteve na Índia, na Indonésia, na Tailândia (onde tomou votos com um monge). No Tibete, conheceu a mestra budista Jetsunma Tenzin Palmo. Hoje, aos 47 anos, é também professora de yoga, atenta à prática diária da não-violência (ahimsa).

No fim, o resgate é da nossa humanidade

Mas como lidar com quem pratica a violência contra os animais? Como encarar, no cotidiano, tanto sofrimento que, pensamos, poderia ser evitado? Como não sofrer por eles? “Aprendi uma vez com uma mestra animal que, por mais que eu sinta dor, e eu sinto, a dor deles será sempre maior do que a minha. Assim, quando eu coloco meu egoísmo de lado, deixo de ter expectativa, que é algo maleável de acordo com o meio, e passo ao altruísmo, vivido como uma missão”.

Certa vez, conta Patricia para ilustrar essa história, um pecuarista chegou ao Vale da Rainha com um cavalo, dizendo que se o santuário não pudesse ficar com ele, seria abandonado. “Enriquei muito com ele, mas agora ele não me serve para nada”, foi o que ela ouviu. Naquele momento, ela respirou fundo. “Um bom exercício é sempre buscar enxergar movimentos ínfimos de bom coração. Não perder nunca a esperança no ser humano. Na verdade, ele poderia ter abandonado o cavalo, mas o trouxe até aqui”.

Para ela, o que os mestres animais ensinam é que o grande resgate a ser feito é o do bicho gente, que se afastou demais da natureza porque criou um modelo de sociedade em que o homem é o centro, algo ilusório, que impõe falsas hierarquias. “Essa lição ressoa também nas palavras da mestra Jetsunma, que diz que para defendermos a causa dos vulneráveis, precisamos acolher o agressor, educá-lo para que, de fato, ocorra uma mudança”, lembra.

Por isso, Patricia acredita que para ampliarmos o veganismo é necessário expandir a roda de conversa e de trocas, com humildade, e atingir especialmente quem ainda não está nesse caminho, ou quem entrou nele mas ainda guarda rancores no coração.

Os mestres animais nos curam e despertam a compaixão

Uma das apoiadoras do Vale da Rainha é a nutricionista Alessandra Luglio, ativista do veganismo e professora do YAM no curso Veganismo: O Mundo é o Que Você Come que, inclusive, foi gravado no santuário. “Antes de conhecer o trabalho da Patricia e do Vitor, eu achava que esses locais eram uma forma das pessoas fazerem bem para os animais. Mas hoje sinto que é o animal que nos transforma, nos cura”, desabafa Luglio, apoiadora do santuário, que aproveita seu reconhecimento nas redes sociais para ajudar a angariar recursos e divulgar o trabalho e o poder transformador desse contato com os animais.

“Eles despertam em nós a compaixão, o senso crítico, resgatam do nosso íntimo a empatia, o senso de justiça e, principalmente, o perdão. Cada vez que vou lá fortaleço a minha luta. De tempos em tempos, eu preciso ir lá para eles me mostrarem como ser resiliente, empática e não tender à agressividade na forma como vejo os agressores. Tenho certeza de que a luta do veganismo será vencida pelo amor, não pela dor ou pela violência”, completa.

Como você pode ajudar

É nesse clima de amorosidade, que Patricia e Vitor mantêm o santuário. Eles são os únicos moradores (humanos) do Vale da Rainha, que também produz alimentos orgânicos. E contam com a ajuda de quatro funcionários que lidam diretamente com os animais, além de uma equipe fixa de dez voluntários que atuam na parte administrativa e de comunicação. 

Apesar de muita gente se oferecer para lidar voluntariamente com os mestres animais, o trabalho é puxado e menos romântico do que pode parecer. “Tem que lavar as baias, saber dar água e comida aos animais de maneira segura, manejar 1,5 tonelada de ração por semana, administrar medicamentos e outras tarefas que exigem experiência. Por isso, o voluntariado, tão importante para nós, atua mais nos bastidores e no contato com os apoiadores e as pessoas que se inscrevem para participar das vivências e práticas de yoga (ainda suspensas pela pandemia)”, explica Patricia.

Eventualmente, o Vale da Rainha realiza mutirões de manutenção do sítio e estende o convite a outros voluntários que queiram participar. Atualmente, com as restrições da pandemia, as despesas mensais do santuário (cerca de R$ 30 mil) têm sido pagas com a ajuda de um grupo de colaboradores fixos e ações pontuais, como jantares beneficentes, por exemplo. Doações são sempre muito bem-vindas e podem ser feitas por depósito bancário ou transferências via Paypal ou Picpay. As instruções estão todas no site do santuário.

Por fim, o que os animais do Vale da Rainha ensinam a todos nós, veganos, ovolactovegetarianos ou onívoros, é que temos muito ainda a aprender. E, como diz a Patricia, o planeta Terra não é destino turístico no Universo. É uma escola, lugar de aprendizado. Que sejamos humildes e possamos ouvir os ensinamentos desses mestres animais.

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