Compre de Quem Está Perto

O movimento de Localização responde ao modelo insustentável da Globalização e nos convoca a valorizar os pequenos comércios locais. Sim, sua vizinhança pode mudar o mundo
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14.08.2020

“Filha, vai no Severino pra mim? Meio quilo de café e dez pãezinhos”. A venda da minha infância ficava na rua de cima. A gente não fazia compras grandes lá. Era o exemplo perfeito de Localização sem que na época eu nem fizesse ideia do que seria esse movimento. Essa loja era usada meio como um loja de conveniência. Na década de 1980, o supermercado já era a melhor opção de preço e comodidade – tinha estacionamento e preço baixo.

Mas na venda do Severino eu via o café virar pó e cair direto no saquinho de papel. O lugar tinha o cheirinho dessa cena! Dava para brincar de enfiar a mão nos grãos de milho vendidos à granel e no final, eu ainda ganhava Dadinho de troco (se isso não te disser nada, imagine um paçoquinha com textura de bala, quadradinha). Comia todas no caminho de volta e minha mãe nem ficava sabendo!

Minha geração viu a venda do Severino fechar. O mesmo aconteceu com a rotisserie do Dan. Mas a Farmácia do Joãozinho que furou minha orelha, segue resistindo. Todas as redes já abriram suas megastores no bairro. Os antigos comércios deram lugar a elas e também torres de muitos apartamentos.

É difícil não romantizar o passado da minha infância. Não era uma vida perfeita, mas incluía mais caminhadas, rostos conhecidos, encontros e conversas do que a vida de hoje. Uma espécie de vitalidade e senso de comunidade que eram a alma do bairro.  A boa notícia é que não sou a única a sentir falta disso. Pelo contrário! Um movimento chamado Localização reuniu, em junho de 2020, falas dos maiores pensadores da sustentabilidade do planeta em prol do resgate da economia à escala humana. Em outras palavras, trazer a economia de volta ao nosso alcance.

Mãos de pequeno produtor seguram frutos de cacau

O que é a Localização?

Mas o que de fato significa esse movimento capaz de juntar Vandana Shiva, Satish Kumar, Bayo Akomolafe e Helena Norberg-Hodge em um evento abençoado por Dalai Lama? O que emerge entre essas vozes é um consenso de que sustentar uma economia globalizada já nos custou demais e, além disso, não nos faz mais felizes. 

Vivemos uma economia de alta emissão de carbono e que produz desigualdades sociais ao invés de reduzi-las. A globalização como princípio econômico conduz a sociedade para uma uniformização de desejos de consumo e distanciamento dos meios de produção. É a exacerbação do conceito de economia de escala, que justifica grandes desperdícios de energia, matérias primas e água.

Na prática, é lógica que permite que seja mais barato consumirmos um cosmético a base de óleo de palma das florestas tropicais da Malásia, do que da extração sustentável do óleo de babaçu do Maranhão. Ou, ainda, uma roupa feita na China à uma outra feita com algodão agroecológico do Rio Grande do Norte. Outro exemplo emblemático é o fato do Brasil exportar petróleo cru e importar seus derivados. É que as refinarias brasileiras não são preparadas para o tipo de óleo extraído aqui!

Como transformar a forma de consumir

Eu fiquei estupefata com essas informações, mas a minha dificuldade em acreditar nesses fatos é sintomática. Indica o distanciamento que temos em relação à tudo que consumimos. Nós não conhecemos as cadeias produtivas, porque elas estão fora do nosso controle. Helena Norberg-Hodge, fundadora da Local Futures, vai além. Segundo ela, nossos governos subsidiam essa economia através de acordos de comércio internacional e flexibilizam regras de modo que a lógica da economia globalizada se torne viável financeiramente, mas com um alto custo social e ambiental. Ainda bem que existe alternativa. E a protagonista da mudança pode começar na sua própria vizinhança.

O ponto de partida do movimento de Localização é retomar o poder de nossos territórios, reconhecendo sua capacidade de produzir alimentos e outros bens de necessidade. É sobre transferir o máximo de capital possível para transações locais, fazendo com que o dinheiro circule mais vezes entre os que geram produtos e serviço e os que consomem. É o que economistas adeptos ao movimento chamam “economia real”, em contraposição à economia especulativa e centralizadora das corporações.

Cestas de frutas diversas da estação, à venda em comércio local

Os benefícios da Localização e de valorizar a comunidade

O poder da reconexão local é perceptível em muitas camadas! Escolhi três que vão te fazer sair abraçando gente na feira assim que a quarentena deixar:

Baixo Carbono

Quem já calculou sua própria pegada de carbono sabe que uma parte considerável da conta é gasto energético com transporte. Desde o uso do carro no cotidiano até o transporte de matérias primas envolvidas em tudo que se consome. Por isso, a Localização é também um movimento de resposta à crise climática. É possível fazer uma redução de até 11% da pegada de carbono somente escolhendo alimentos locais, segundo estudo da  Green Eatz.

Lixo Zero

Distâncias mais curtas entre quem produz e quem consome também facilitam a criação de  acordos para a redução das embalagens. Quem sabe o que está comprando não tem necessidade de receber a caixas, rótulos e saquinhos que têm como função apresentar o produto e a marca. Saber composição e validade já bastam! Graças a essa lógica, a Pi Kombucha Tropical, que fabrica e distribui bebidas probióticas localmente no Rio de Janeiro, conseguiu implantar um sistema de garrafas retornáveis, por exemplo.

Diversidade

Enquanto a globalização tende a uniformizar a cultura de consumo, a Localização enaltece as múltiplas formas de existir e seus saberes. No Brasil, isso significa a oportunidade de apoiar milhares de comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas e caiçaras. A Origens Brasil é um exemplo que chega a arrepiar de tão bonito e efetivo. A plataforma promove negócios sustentáveis na Amazônia em áreas prioritárias de conservação, com garantia de origem, transparência, rastreabilidade e comércio ético. Apesar de a Amazônia estar fisicamente distante de muitos de nós, o consumo desses produtos é uma forma direta de apoio a comunidades que mantém a floresta em pé.

A Localização está em toda parte

Não é trivial fazer a engrenagem girar para o outro lado. Estando só, não daria nem para começar. Mas o número de iniciativas coletivas que crescem e se fortalecem no Brasil demonstra que esse desejo é maior do que nós, porque emerge de um estilo de vida de milhares de pessoas conectadas. Os exemplos são inspiradores: moedas locais, cooperativas de crédito, hortas comunitárias, Comunidades que Sustentam a Agricultura (CSAs), associações de Certificação Orgânica Participativa, creches parentais, redes de economia solidária e por aí vai!

A Localização é movimento difuso, cujas lideranças são corpos coletivos, vivos, em constante ajuste e desenvolvimento. Não se trata de isolacionismo ou de pôr fim às trocas internacionais. Ao contrário disso: é uma articulação que tem ganhado força através das trocas culturais e intelectuais em escala global. Tem a ver com a construção de relações saudáveis para todos. É usar inteligência comunitária para colocar a economia à serviço da felicidade. O resultado pode ser tão simples quanto a gente voltar a caminhar pelo bairro, mas agora sabendo o valor do que há por trás daquele simples “bom dia”.

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Aline Matulja é colaboradora e expert em sustentabilidade nos contéudos YAM

Aline Matulja sentiu na infância o chamado da natureza. Engenheira Ambiental pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e mestre em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP), também é a nossa colabora e expert em Sustentabilidade. Saiba mais sobre Aline: