Os Curupiras da Vida Real

O dia de proteção às florestas homenageia esse pequeno habitante das matas e do nosso imaginário popular. Conheça curupiras reais que se dedicam a cuidar da nossa riqueza florestal

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17.07.2020

Você está sentado num galho alto de uma árvore. É um Pau d’Alho. De lá de cima você observa um homem que caminha pela mata. Amarrado em seu cinto, ele leva três aves abatidas. Ele pisa devagar na forração que cobre o chão, como quem não deseja ser ouvido. Seus olhos varrem seu campo de visão de um lado para o outro. Quase é possível sentir o cheiro do seu estado de atenção. Já o som da respiração se pode escutar. É ofegante como de quem sabe que a troca de turno do anoitecer na mata traz perigos.

Cai uma fruta no chão e o barulho chama sua atenção. Uma larga anta prenha come pitangatubas debaixo de um arbusto. O homem se esgueira para vê-la e posiciona-se para atirar, mas um grito agudo e muito alto toma conta da mata. Folhas se levantam do chão com a rajada de vento e a anta se levanta nas patas de trás, se desfigura e vira um meuã – uma forma humana que faz gestos como a implorar piedade. O homem, apavorado, usa a adrenalina em seu sangue para correr para longe, tão rápido quanto uma bala de seu rifle, e nunca mais volta.

Foi o Kuru’pira’, pequeno habitante das matas e do imaginário popular no Brasil. Hoje, 17 de julho, celebramos seu dia, o dia de proteção das florestas. Seus cabelos são cor de laranja e seu corpo não tem nenhum orifício. Seus pés voltados para trás deixam pegadas que desviam o caminho daqueles de má fé. Se preciso for, toma providências mais sérias para afugentar quem coloca seus desejos e ambições antes das leis ecossistêmicas. Em outras palavras, quem desmata ou caça por ganância ou prazer, por exemplo, terá que se ver com Curupira.

A mata nos pede respeito

Algo curioso sobre o menino de cabelo de fogo é que até mesmo indígenas temem suas lições. Diversos relatos contam que algumas etnias entram na mata pedindo licença, fazendo seus rezos e oferecendo-lhe fumo, como um rito à consciência ecológica. Talvez para lembrar a si mesmos de que a única exigência que a mata faz em troca da abundância é respeito.

Quem vive no Brasil tem sua vida mediada por riqueza florestal – açaí, cacau, guaraná, andiroba, castanha, carnaúba, babaçu, juçara, pupunha, cambuci, látex, buriti. Mas nem é preciso ser conhecedor de produtos menos convencionais para isso. Quem come maçã, maracujá, melancia, melão, tangerina, abacate, cebola e goiaba também depende das florestas. É aqui que você diz “Eita! Parece a minha lista de compras!” Pois é, esses são só alguns exemplos de alimentos que dependem da polinização como serviço ecossistêmico para serem produzidos.

Também é produzido pelas matas o vapor d’água que mantém o clima viável para a vida existir. Os rios voadores alimentados pela umidade amazônica permitem a existência do Cerrado e da Mata Atlântica, incluindo a possibilidade de vida nas cidades e o sucesso das plantações.

Os Curupiras da vida real

A todo momento nós escolhemos quem queremos ser na história do Curupira. Podemos nos identificar tanto com o arquétipo do caçador ganancioso como o do índio que reconhece que pode errar e pisa com cuidado na mata. Mas existem algumas pessoas que dedicam suas vidas, de modos diferentes, a uma verdadeira missão de proteção das matas. Este texto é dedicado a eles, os nossos Curupiras da vida real.

Eu convidei quatro deles, que eu tenho a sorte de ter por perto, como amigos. E pedi para me contarem quem são os seus mestres e qual foi o principal ensinamento que tirou da relação com eles. Espero que essas histórias toquem você tanto quanto tocam a mim:


Maxifake e a reverência ao espírito da floresta

Maxifake (pronuncia-se “maxivacã”) é uma guardiã Shanenawa da floresta da Terra Indígena Katukina Kaxinawa, Amazônia brasileira. Nessa terra indígena, a existência de cada família significa a preservação de aproximadamente 83 mil árvores. A principal ameaça de hoje a essa floresta e seu povo é a dissolução dos saberes ancestrais. A mestre de Maxi foi sua mãe, Txaka Shanenawa, que faleceu recentemente, aos 90 anos, por Covid-19.

“As árvores da floresta cada uma tem seu nome e seu espírito. O rei das árvores é a Samaúma, o Shunuã. Ele guarda o grande espírito do bem e do mal. Foi minha minha mãe que me ensinou e eu ensinarei para meus netos e bisnetos. Também aprendi que na floresta existem as lutas da vida humana, por isso faço meu trabalho de preservação.”

Jorge Ferreira, coragem e simplicidade para cuidar

O naturalista Jorge Ferreira cresceu nas matas da Serra da Bocaina, no bairro Sertão do Taquari, em Paraty, num pedaço de chão onde só se chega caminhando pela mata. Lá ele viu seu pai colocar em prática a agricultura ensinada por seu avô pernambucano. Uma agricultura que resulta em floresta. Os ensinamentos do pai guiam seus  passos como protetor das matas e da biodiversidade.

“Meus pais me ensinaram que com coragem e simplicidade se constrói floresta. Esse ensinamento fortalece o instinto Curupira que eu levo dentro de mim. Um instinto de criança que quer descobrir, zelar e brincar na mata. Todos nós temos esse Curupira dentro de nós. É um ser que traz autoconfiança, segurança e um amor profundo e simples pelas plantas, flores, a todo meio que é nossa estrutura da vida.”

Richard Smith, guiado pela generosidade e amor à floresta

O engenheiro ambiental Richard Smith protege as florestas incentivando políticas públicas para conservação da natureza. Muito de seu trabalho está em cuidar para que a presença humana em áreas protegidas, sirva para protegê-las ao invés de destruí-las. Seu maior mestre é Percy Ney Silva, que em 1978 começou a recuperar margens dos rios em Ratones, na Ilha de Florianópolis. O lugar, que até então sofria com desmatamento, caça predatória, queimadas e extração ilegal de espécie, hoje é um exemplo de regeneração ecossistêmica que se estende por toda a região.

“De tudo que aprendi com Ney, levo comigo sua generosidade em transmitir os saberes e amor pela floresta. Ele contribuiu para a recuperação de uma imensa área de mata atlântica usando principalmente seu exemplo.”

João Romano, águas para apagar o fogo na floresta

João Romano tem alma brigadista. Dedica sua vida a controlar o elemento fogo nas matas, tantas vezes trazido de forma criminosa. João é um dos fundadores da Brigada de Alter do Chão no Pará, grupo que combate incêndios florestais de forma voluntária. Na luta pela proteção das florestas, brigadistas são combatentes e, além abafadores e bombas d’água nas costas, levam também ensinamentos preciosos.

Uma vez, durante um dos mutirões para construção banheiros ecológicos na Terra Indígena Maró apareceu uma Surucucu de fogo, cobra muito venenosa aqui da amazônia. Infelizmente um dos indígenas teve que matar a cobra porque ela apareceu ali no meio da gente. No final do dia sentamos com o cacique Dadá Borari em volta de uma árvore, que começou a contar um pouco das histórias da terra indígena. Aí ele citou essa questão da cobra. Ele falou ‘vocês viram que apareceu uma cobra bem no lugar do mutirão? Sabe porque isso aconteceu? Porque vocês não pediram licença. Sempre que a gente vai mexer em qualquer lugar da floresta a gente tem que pedir uma licença’. Isso me tocou de uma forma que nunca vou esquecer. E cada vez que eu interajo com a floresta para  limpeza de um lugar ou até mesmo um combate a incêndio, essa mensagem do Dadá vem a mim”.

São tantas as formas de um Curupira e são tão vivos seus ensinamentos que esse artigo poderia tomar a forma de uma enciclopédia de saberes. Talvez esse compêndio já exista e tenha a forma de uma imensa teia de conhecimentos científicos, intuitivos e ancestrais. Um conhecimento que desenhamos com os pés durante nossas andanças pelas matas – e que só se lê com o coração aberto depois de pedir licença para começar!

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Aline Matulja é colaboradora e expert em sustentabilidade nos contéudos YAM

Aline Matulja sentiu na infância o chamado da natureza. Engenheira Ambiental pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e mestre em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP), também é a nossa colabora e expert em Sustentabilidade. Saiba mais sobre Aline:

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