Suas Roupas Também Poluem os Oceanos

Os microplásticos de tecidos sintéticos vão parar nos mares e potencializam a degradação ambiental. É preciso repensar o nosso consumo e buscar alternativas mais conscientes no vestir
7 minutos de leitura
15.07.2020

Sacolas, canudos, copos e uma diversidade de plástico estão poluindo os mares e você já sabe disso. No nosso dia a dia, procuramos reduzir ou eliminar o uso de materiais plásticos, especialmente os descartáveis. Mas há um inimigo invisível que vestimos na pele todos os dias: o avanço dos microplásticos presentes nos oceanos tem origem na indústria da moda. Sim, nas roupas que usamos. 

Os impactos sociais e ambientais dessa indústria se tornaram cada vez mais agressivos. Atualmente, a produção e o ciclo de vida de uma peça de roupa são ecologicamente insustentáveis. Desde o uso de substâncias químicas nocivas para as pessoas e para as lavouras onde são produzidos os tecidos, incluindo o alto consumo de água e energia nos processos, o uso de matérias-primas que contribuem com o desmatamento das florestas, e a geração de grandes quantidades de resíduos e materiais não biodegradáveis.

Mas não é possível falar em sustentabilidade na moda sem uma reflexão profunda sobre tempo, velocidade e custo. O baixo valor de uma roupa pode estar baseado numa cadeia de exploração e ter consequências graves para o planeta. E mais caras para a nossa própria conta. Hoje, estima-se que o setor de vestuário é responsável por 8 a 10% das emissões mundiais de gases de efeito estufa e 20% da poluição industrial das águas residuais.

Como tem plástico nas roupas?

Encontrou nomes como Poliéster, Acrílico ou Poliamida na etiqueta de composição da sua peça? Saiba que é essa porcentagem que contribui com uma cadeia de fabricação que passa longe de ser justa e limpa. “Nosso sistema de moda de larga escala tem uma enorme dependência desses derivados petroquímicos, que estão associados a lobbys econômicos, exploração de trabalhadores e áreas naturais”, explica a jornalista ambiental, criadora do Roupartilhei e coordenadora de comunicação do evento Brasil Eco Fashion Week, Gabriela Machado.

É que esses tecidos levam matérias-primas de base plástica e não degradáveis. Quando os colocamos na máquina de lavar, destinamos seus microplásticos diretamente aos mares. “Esses tecidos, com exceção da poliamida biodegradável, demoram no mínimo 60 anos para se decompor. Sendo que, apesar das fibras naturais demorarem cerca de um ano, é muito comum que elas sejam misturadas às fibras sintéticas”, indica Gabriela.

A origem do problema

Não é preciso um olhar tão distante para entendermos como chegamos aqui. No início dos anos 2000, fomos estimulados com o frisson das fast-fashions, ou grandes varejistas de roupas, com modelo de negócios baseado na produção e consumo ultrarrápidos. Essas marcas são as grandes usuárias de matéria-prima barateada, também reconhecidos como os tecidos mais poluentes.

“Esse modelo certamente acelerou esse processo degenerativo no planeta. O uso de compostos sintéticos também está presente em herbicidas utilizados nas lavouras de fibras naturais, em corantes de tingimentos, e em químicos de acabamentos. O impacto dessa indústria é sistêmico. E ele soma às consequências globais de aquecimento da temperatura, acidificação dos oceanos, perda de biodiversidade, lotação de aterros sanitários, aumento da inequidade entre as camadas sociais, etc”, contextualiza a jornalista.

Já deu pra entender que devemos usar o cenário atual como base para nos conscientizarmos sobre as mudanças que devemos exigir da indústria de vestuário, né? Gabriela Machado traça um caminho possível. “Diversas marcas publicam relatórios periódicos para informar a redução gradual no uso de tecidos sintéticos, como a escandinava Phillipa K. e a brasileira Narooma. E boas práticas de grandes marcas podem ser encontradas nos relatórios do Índice de Transparência da Moda, feito pelo Fashion Revolution”, observa. Esses dados, inclusive, são um direito do consumidor, e precisamos estar atentos. Questionar quem fez nossas roupas e como foram feitas nos ajuda a entender esse impacto na natureza.

Mulher envolvida em plástico, como um vestido plástico voando com o vento para falar de roupas e poluição

O surgimento das Agroflorestas para roupas mais ecológicas

As Agroflorestas Têxteis surgem como uma possível mudança. A partir de um processo de manejo de solo e colheita diferenciados, com viés ecológico, elas se distinguem da agricultura extrativa tradicional. Este novo modelo une agricultura ecológica, sustentável ou agroecológica, a uma visão holística de produção que respeita os ciclos da natureza com práticas éticas.

O método estimula a regeneração e a manutenção das culturas e de todo o sistema de produção alimentar – desde as comunidades rurais até os consumidores finais. E também engloba todos os aspectos da sustentabilidade na agricultura. Para Gabriela, essa é uma linha de pesquisa e plantio que pode ser incorporada pelas grandes varejistas. “A agrofloresta têxtil não utiliza agrotóxicos e combina o plantio de fibras diversas para a moda (como também o linho, a juta, e lá fora o cânhamo industrial), com variedades alimentícias e plantas que geram pigmentos, em um chamado “consórcio” produtivo”, observa.

Mas a mudança não acontece da noite para o dia. As marcas de roupas pioneiras nos processos mais sustentáveis ainda são pequenas. E o preço de incluir esses formatos nas grandes varejistas é a maior problemática. Isso porque, além do investimento, falamos de uma mudança de práticas gerais. “As empresas precisam educar seus consumidores. Leva um tempo para o real valor ser percebido, sobre o que é mais caro e o que é mais barato. E o que tem maior durabilidade. Afinal, as marcas precisam estar preparadas para essa mudança”, pontua a consultora de moda e fundadora do Projeto Gaveta, Giovanna Nader.

Os próximos passos

Ainda que as grandes varejistas apontem a dificuldade de rastreio de suas matérias-primas e consequentes erros na cadeia, a escolha dos processos e o esclarecimento sobre sua composição são de total responsabilidade de cada marca. Ou seja, não cabe mais uma confecção achar que “não é nossa responsabilidade, não sabíamos”. 

“Vai totalmente da estratégia financeira e de posicionamento da marca fazer a escolha por utilizar matérias-primas sintéticas, naturais ou de base reciclada em sua produção. Quando se fala de rastreabilidade, a empresa pode optar por comprar, por exemplo, algodão orgânico da Cooperativa Justa Trama e ter a garantia de responsabilidade na cadeia produtiva pela reputação do grupo e a certificação IBD”, explica Gabriela.

O que você pode fazer

Rever o consumo das nossas roupas é a primeira atitude. Aliás, isso não nos impede de usar a moda como expressão. Vestimos o que queremos mostrar ao mundo: quem somos, o que buscamos e qual é o nosso estilo de vida. Giovanna Nader ainda indica que essa ressignificação será o único caminho daqui para a frente. “A moda não é necessariamente só a roupa que você usa. É possível repetir a mesma roupa por um mês, por exemplo, de diferentes maneiras e ocasiões. Além de customizar, trocar roupas com amigas, familiares e consumir peças de brechó, práticas que fogem do consumo excessivo”.

Assim, podemos escolher o que e onde comprar. Optar por marcas mais éticas, além de preferir tecidos mais naturais – isso mesmo, ficar de olho na composição indicada na etiqueta. Nosso consumo mais do que nunca deve se basear na consciência, no esclarecimento e na confiança de confecções que produzem com transparência. Pois o vestir também é um ato político e ajuda a ressignificar a moda. Consumir roupas com o propósito de não prejudicar ainda mais a natureza é uma missão que deve ser incorporada por todos nós.

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