Os Refugiados no Brasil em Busca de Recomeços 

Diante de crises humanitárias, pessoas precisam deixar para trás suas casas, seu país e seus sonhos em busca de sobrevivência e recomeços cheios de desafios
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A cada minuto, 25 pessoas são forçadas a sair de suas casas. Seja em decorrência de conflitos ou perseguições, desastres ambientais ou crises socioeconômicas e políticas ao redor do mundo, elas somam mais de 70 milhões de pessoas, desde 1950. Entre elas, estão 25,9 milhões de refugiados, 52% dos quais são menores de 18 anos, segundo dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR).

Por trás da frieza destes números sem rosto, estão pessoas com histórias de vida, que enfrentaram o impossível para chegar a um lugar seguro em busca de abrigo, alimento, água potável e os primeiros cuidados médicos. Para, então, numa etapa seguinte, receberem ajuda para reconstruírem suas vidas, participando ativamente do processo. Entre medos e sonhos, um impulso de seguir.

É o caso da venezuelana Carmele, uma jovem mãe que há um ano vive no abrigo de refugiados venezuelanos da Missão Humanitária, em Boa Vista, Roraima. Em sua primeira tentativa de conseguir refúgio no Brasil, Carmele dormiu nas ruas, passou frio e fome e viveu o medo da violência. Por isso, decidiu voltar à Venezuela, pois não suportou a ausência da filha de apenas 2 anos.

Pouco depois, de volta ao Brasil e com a filha, reviveu toda a angústia do início. Dormir nas ruas e perambular durante o dia com a filha nos braços ainda tinha um agravante: um dos braços engessado, depois de ter sido atropelada por uma bicicleta. Ela viveu essa trajetória por um mês, em busca de espaço nos abrigos, sempre encontrando a mesma resposta: ‘não temos vaga’. “Já estava desistindo. Tinha febre, estava cansada e não suportava mais aquela situação. Foi aí que me avisaram de uma vaga no abrigo. A vida é assim: quando menos esperamos, chega a esperança e, com ela, dias melhores”.

“Ser refugiado não é uma opção, é não ter opção”

O Brasil acolhe refugiados de 81 nacionalidades; destes, 90% são venezuelanos. Desde 2015, cerca de 4 milhões de pessoas saíram da Venezuela, tornando essa uma das mais recentes e maiores crises de deslocamento forçado do planeta. Segundo levantamento da Organização Internacional para as Migrações (OIM), são cerca de 253 mil venezuelanos e venezuelanas que aqui chegaram desde então, sobretudo em cidades como Boa Vista, Pacaraima e Manaus.

Para oferecer suporte a essas pessoas e garantir a inclusão social e econômica nas comunidades, há diversos projetos. Desde 2016, a Fraternidade – Federação Humanitária Internacional (FFHI) trabalha com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), a Operação Acolhida, empresários e a sociedade civil.

Segundo frei Luciano, gestor geral da Fraternidade – Humanitária (FFHI), a qual é responsável por cinco dos 13 abrigos para venezuelanos existentes no Brasil, é uma situação de quem não tem opção. “É importante compreendermos que uma crise humanitária é muito diferente de uma crise social apenas. Pois, na crise humanitária, as pessoas perderam familiares, bens materiais, profissões, deixando para trás muitas coisas construídas, consolidadas. E partiram para o desconhecido com uma sequência de traumas que podem interferir na busca de uma nova oportunidade”, observa. E reforça: “ser refugiado não é uma opção, é não ter opção”.

ser refugiado não é uma opção, é não ter opção

Omar Suleibi, refugiado sírio no Brasil, mostra as mãos em gesto de pedido de auxílio, em ensaio de fotos para o projeto Retrato Social. Foto: Loiro Cunha
Omar Suleibi, refugiado sírio no Brasil e, hoje, proprietário da Limar Comida e Doce Árabe em São Paulo.
Foto: Loiro Cunha para o projeto Retrato Social

A realidade dos povos indígenas Warao e E’ñepa

O deslocamento internacional forçado de povos indígenas é uma situação que requer uma atenção especial dos organismos que atuam em crises humanitárias. Isso porque à condição de refugiados agrega-se o fator da diferença cultural, assegurada por tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário. Já são mais de mil indígenas das etnias E’ñepa (Gente Indígena) e Warao (Povo da Água) vivendo nos abrigos Janokoida, em Pacaraima, e Pintolândia, em Boa Vista.

O trabalho com abrigamento de povos indígenas é algo inédito no contexto da resposta humanitária. E isso levou à busca por elementos que pudessem contribuir para a construção de um ambiente que fosse adequado à sua cultura e respeitasse seus costumes e saberes. Entre estas medidas estão a opção pelo redário, ao invés de colchões e barracas, além da preservação das condições de preparo dos seus alimentos típicos. Inclusive, a garantia da oferta de materiais para que possam preparar o seu artesanato, como a palha do Buriti, para os Warao, e madeiras, para os E’ñepa.

Alojamento para refugiados em Roraima - FFHI
Áreas de alojamentos, família em redário e indígena Warao preparando alimento em abrigo para refugiados em Roraima – Imagens: FFHI (Fraternidade – Federação Humanitária Internacional)

A crise dentro da crise: refugiados em tempos de pandemia

No contexto da pandemia da Covid-19, os atores humanitários têm o desafio de adaptar as instalações dos abrigos para impedir a transmissão do novo coronavírus. Num dos abrigos indígenas, por exemplo, a notificação de um caso positivo de Covid-19 obrigou a transferência de cerca de 200 pessoas – integrantes do grupo de risco e seus familiares – para evitar o contágio. Os abrigados também estão produzindo, por exemplo, as próprias máscaras de pano. 

Por meio da parceria com o ACNUR, os abrigados conseguiram todos os materiais, como as máquinas de costura, tecidos, agulhas, fitas métricas e ferros de passar. Com quase 2 mil pessoas nos abrigos administrados pela Fraternidade – Humanitária (FFHI), a compra de máscaras descartáveis se tornou inviável pelo preço e pela questão ambiental, pois produziria uma quantidade insustentável de lixo.

Crianças e jovens refugiados

Estimativas do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) apontam que, entre os refugiados que chegaram ao Brasil entre 2015 e 2019, há cerca de 10 mil crianças e jovens em situação de vulnerabilidade. Muitas destas crianças vão passar toda a infância longe de casa, às vezes sozinhas. Algumas só conheceram a vida como refugiadas. E o risco de não perderem “apenas” suas casas, mas também a possibilidade de bem-viver uma fase tão curta e tão importante da vida.

Nas longas trajetórias percorridas, crianças e jovens estão suscetíveis a traumas decorrentes de abuso, negligência, violência, exploração, tráfico ou mesmo recrutamento militar. Valentina, por exemplo, é uma menina de cerca de 12 anos, que chegou ao Brasil acompanhada por sua avó, Miladys. Elas fizeram todo o trajeto a pé. Valentina se sente feliz por estar em um local seguro como o abrigo Nova Canaã, mas não deixa de pensar na situação de milhares de pessoas, adultas ou crianças, que não tiveram a mesma sorte que elas.  “Têm pessoas que ficam na rua, que não conseguem estar em um abrigo como nós. Eu não sei se dormem, se comem. Eu fico triste”, lamenta.

Refugiado pinta um mural, em projeto de arte e educação para refugiados, da FFHI em Roraima
Crianças brincam juntas em alojamento com projeto de arte e educação para refugiados, da FFHI em Roraima
Crianças brincam juntas, em projeto de arte e educação para refugiados, da FFHI em Roraima
Projetos de arte e educação para adultos e crianças em abrigo de refugiados em Roraima – Imagens: FFHI (Fraternidade – Federação Humanitária Internacional)

Refugiados e a arte ressignifica a dor

Pois diante de tantos desafios, como lidar com experiências e enxergar possibilidades futuras? Os projetos de arte-educação que envolvem crianças, jovens e adultos em atividades lúdicas e criativas ajudam a despertar a esperança, a resiliência, a internalização de valores. A arte auxilia na expressão de conteúdos que geraram angústia, ajudando a ressignificar esses momentos difíceis.

Desenhos livres e temáticos, pinturas em aquarela e em guache, produção de mandalas, carpintaria com acabamentos artísticos, vão transformando velhos objetos descartáveis em bonitos ornamentos. E trechos de histórias de vida, em peças de teatro. Muros cinzas são preenchidos com subjetividades, inspirações e experiências.

São Paulo de todos os povos

São Paulo é o terceiro estado brasileiro com o maior número de solicitações de refúgio, segundo dados do relatório ‘Refúgio em Números’ do Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE). Nas diferentes regiões da capital, cores, sons, saberes e sabores se misturam. Uma Babilônia moderna que recebe um fluxo incessante de pessoas de todo o mundo que chegam aqui em busca de segurança, trabalho e condições para continuarem existindo. E, claro, precisam aprender novas ferramentas para seguirem. O idioma é o primeiro deles, além de uma infinidade de questões burocráticas, por exemplo.

Célia Pacheco, assistente social, tomou contato pela primeira vez com refugiados em 2015. Foi convidada a dar aulas de português a um grupo de africanos vindos de diferentes países do continente. Essa experiência durou pouco, mas a semente plantada germinou, fixou raízes. 

Ao longo dos anos, percebeu as especificidades da dura realidade dos alunos refugiados. Conquistou novos professores voluntários e todos juntos ganharam espaços dignos e acolhedores para que as aulas pudessem acontecer. 

Com o tempo, os cuidados com o grupo de refugiados foram além das aulas de português e de alfabetização. Atualmente, contribuem na busca por empregos, problemas com documentação, esclarecem dúvidas trabalhistas, acompanham em questões de saúde. Antes da pandemia, abasteciam os cartões de bilhete único para que pudessem comparecer às aulas, e faziam o controle por meio da lista de chamada. Quem faltava, não recebia. Agora, colocam crédito nos celulares dos que não têm internet para que possam fazer as aulas. 

A tolerância e a resignação dos refugiados

Sobre a troca de saberes e experiências, Célia relata: “a tolerância e a resignação da maioria dos africanos é algo que me comove. Mesmo com problemas graves estão sorridentes, com disposição para conversar, confiantes de que tudo vai se arranjar. São fraternos, solidários e atenciosos uns com os outros, independentemente dos países de origem. Antes de dizer que são do Mali, Guiné Conacri, Senegal, Congo, Costa do Marfim, Camarões, Mauritânia, Níger, Togo ou de Gâmbia, eles se dizem africanos”.

Célia faz questão de reforçar que não são uma ONG – apenas um  grupo de amigos que trabalham para o bem comum de pessoas refugiadas. “Quando vieram pessoas de outras nacionalidades, além das africanas, entendemos que terra nos definiria”. E define. O alcance da consciência de que vivemos todos em uma ‘casa comum’, a Terra, colocaria a humanidade em um outro nível de reflexão, inclusive sobre as questões,  que obrigam seres humanos a tornarem-se refugiados.

É assim, entre tantos desafios, medos, anseios, que os números das estatísticas sobre refugiados ganham contornos e vão se transformando em Antonios, Elias, Andersons, Milaidys, Carmeles e Valentinas. Juntos, formam novos lares, repletos de retratos de um mundo onde nada deveria ser mais importante que a vida. ▲

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