22 Filmes para Entender o Brasil

O Cinema Brasileiro completa 122 anos. Comemore assistindo longas que ajudam a entender a história – e o presente – do país
19 minutos de leitura
16.06.2020

Há 122 anos, no dia 19 de junho de 1898, o italiano Affonso Segretto filmava sua chegada a estas terras a bordo do navio Brésil. As imagens do porto do Rio de Janeiro foram feitas com uma câmera recém comprada dos irmãos Lumiére, conhecidos como os pais do cinema por inventaram o cinematógrafo na França três anos antes. O vídeo, intitulado “Uma Vista da Baía da Guanabara”, foi o primeiro feito no Brasil. Mesmo gravada por um estrangeiro e não tendo sobrevivido ao tempo, a obra, por seu pioneirismo, marca o Dia do Cinema Brasileiro, celebrado a cada 19 de junho.

Ao longo do tempo, a arte de fazer filmes foi sendo apropriada pelos brasileiros e ganhou identidade nacional. Os anos 30 foram marcados pelo cinema mudo do mineiro Humberto Mauro, as chanchadas humorísticas dos estúdios Cinédia, com Carmen Miranda, e o primeiro cult brasileiro, “Limite” (1931), de Mário Peixoto. A criação do estúdio Vera Cruz e o desejo de fazer filmes mais comerciais, inspirados no mercado norte-americano, marcou a década seguinte. 

Um cinema brasileiro socialmente transformador

Em 1954, “Rio, 40 Graus”, de Nelson Pereira dos Santos, retrata uma favela carioca e influencia o movimento Cinema Novo, alimentando o desejo de fazer um cinema socialmente transformador e revolucionário nos anos 1960. No final da década, Rogério Sganzerla lança “Bandido da Luz Vermelha” (1968), filme de baixo orçamento que marca o Cinema Marginal.

A criação da estatal Embrafilme, em 1974, patrocina campeões de bilheterias, como “Pixote, a Lei do Mais Fraco” (1980), de Hector Babenco. Com o fim da empresa, em 1990, o cinema nacional só volta a se erguer no fim da década, com as leis de incentivo. São dessa época, conhecida como Retomada, longas premiados como “O Que é Isso, Companheiro” (1997), de Bruno Barreto, e “Central do Brasil” (1998), de Walter Salles.

Explicar o Brasil por meio da sétima arte motivou e segue motivando inúmeras produções – cada vez mais diversas em temática, gênero dos realizadores e regiões onde são feitas. Além das que citamos até aqui, confira abaixo 22 obras do cinema brasileiro que ajudam a entender o nosso passado – e o nosso presente – de forma crítica, inventiva e poética.

22 filmes do Cinema Brasileiro para entender nossa história

O Pagador de Promessas (1962)

Direção: Anselmo Duarte

Poster do filme O Pagador de Promessas (1962)

Daqueles filmes de encher os olhos em preto e branco, ganhou a desejada Palma de Ouro no Festival de Cannes. O elenco é repleto de estrelas como Glória Menezes, Othon Bastos, Norma Bengell e Antonio Pitanga. A obra, baseada em uma peça de Dias Gomes, conta a história do pacato Zé do Burro que, acompanhado de sua mulher, vai à cidade pagar uma promessa feita à Iansã em um terreiro de candomblé. Mas o padre não aceita que a cruz carregada por Zé desde o interior da Bahia seja colocada na Igreja de Santa Bárbara, em Salvador. O protagonista não arreda o pé e um circo envolvendo o povo e a imprensa se arma na escadaria da igreja, que testemunha uma cena épica, digna do russo “Encouraçado Potemkin” (1925), de Serguei Eisenstein. Opressão, desigualdade social e sincretismo religioso são alguns dos temas desse clássico nacional.

Vidas Secas (1963)

Direção: Nelson Pereira dos Santos

Poster do filme Vidas Secas (1963)

O longa traz à pele a secura do sertão nordestino expressa por Graciliano em seu livro homônimo. Pouco diálogo e escassa trilha sonora acompanham longos planos sequência do cinzento interior de Alagoas. A família de retirantes formada por Fabiano, Sinhá Vitória, seus dois filhos e a cachorra Baleia sonham com a chuva caindo e devolvendo o verde à terra e um colchão confortável para dormir. Mas a seca está sempre à espreita e eles, prontos para partir. Um dos ícones do Cinema Novo, aborda problemas sociais brasileiros, dessa vez, no campo.

Terra em Transe (1967)

Direção: Glauber Rocha

Poster do filme Terra em transe (1967)

Ambientado no fictício país de Eldorado, cujo governo é tomado pelo conservador Porfírio Diaz, a obra faz uma clara referência ao golpe de 1964. O filme desagradou o regime militar, que proibiu sua exibição durante algumas semanas, mas logo o liberou considerando a obra como uma sátira às esquerdas, que também criticaram o filme na época. As disputas pelo poder, a vitória da direita e a divisão da esquerda em um país em convulsão têm ares proféticos que ajudam a entender o Brasil contemporâneo. Além de ser uma das obras-primas de Glauber Rocha, importante para a história do cinema brasileiro.

Macunaíma (1969)

Direção: Joaquim Pedro de Andrade

Poster do filme Macunaíma (1969)

Baseado na obra homônima de Mário de Andrade, o filme é uma espécie de odisseia tupiniquim que acompanha as peripécias do “herói de nossa gente”, Macunaíma, e como ele vai sendo engolido pelo sistema capitalista. Repleto de fantasia e humor, faz parte da corrente artística tropicalista. Cenas de racismo e misoginia são bastante incômodas sob o olhar contemporâneo. Mas é importante reconhecer que fazem parte do nosso caminho até aqui – e só assim se pode mudar isso. Grande Otelo, Paulo José e Hugo Carvana são alguns destaques do elenco.

Bye Bye Brasil (1979)

Direção: Carlos Diegues

Poster do filme Bye Bye Brasil (1979)

A comédia acompanha uma trupe de circo em sua viagem do litoral alagoano à Altamira (PA), pela recém-inaugurada transamazônica, na promessa de abundância e modernidade. No caminho, eles encontram a concorrência da televisão que esvazia os espetáculos, mas insistem na espontaneidade da arte para guiar seus caminhos. E não sem ter que recorrer ao contrabando e à prostituição para sobreviver. Um filme colorido, vibrante, feito na estrada, que mistura a crítica social do Cinema Novo, a anarquia do Cinema Marginal e a graça e o erotismo das pornochanchadas. O trio José Wilker, Bety Faria e Fábio Júnior estrela a obra.

Eles Não Usam Black-tie (1981)

Direção: Leon Hirszman

Poster do filme Eles Não Usam Black-tie (1981)

Um dos filmes mais sensíveis sobre a questão operária no país, tem Fernanda Montenegro e Gianfrancesco Guarnieri (que também assina o roteiro) no elenco, e levou o Leão de Ouro no Festival de Veneza. Baseado em uma peça de grande sucesso dos anos 1950, o longa trata do movimento sindical e dos conflitos vividos por uma família de trabalhadores urbanos. Democracia, conflitos entre gerações, e o coletivo versus o individual são alguns dos temas abordados com maestria aqui.

Cabra Marcado Para Morrer (1984)

Direção: Eduardo Coutinho

Poster do filme Cabra Marcado Para Morrer (1984)

Eleito o melhor documentário brasileiro de todos os tempos pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), o filme nasceu como uma obra de ficção interrompida pelo golpe militar, em 1964, e retomada como não-ficção quase duas décadas depois. A história de João Pedro Teixeira, um líder camponês da Paraíba assassinado em 1962, é costurada a partir das gravações recuperadas do filme censurado e da busca por pessoas próximas a ele, como a viúva Elizabeth Teixeira. A obra retrata o que mudou em 20 anos para os trabalhadores brasileiros, discute democracia, opressão e a construção da memória.

Carlota Joaquina, Princesa do Brazil (1995)

Direção: Carla Camurati

Poster do filme Carlota Joaquina, Princesa do Brazil (1995)

Essa comédia sobre o Brasil Colônia marca a Retomada do cinema nacional após o fim da Embrafilme. Feito com baixo orçamento, o longa faz uma sátira da fuga da família real portuguesa para o Brasil quando Portugal foi ameaçado pelas tropas de Napoleão. Dom João 6°, representado por Marco Nanini, é a caricatura de um homem burro e covarde, enquanto Carlota Joaquina, na pele de Marieta Severo, é uma mulher forte e cheia de amantes, no primeiro longa desta lista dirigido por uma mulher.

Cidade de Deus (2002)

Direção: Fernando Meirelles, Kátia Lund

Poster do filme Cidade de Deus (2002)

Inspirado no romance homônimo (1958), de Paulo Lins, a trama é narrada pelo fotógrafo Buscapé, que revela a vida na favela do Rio de Janeiro, entre 1960 e 1980. As disputas pelo tráfico de drogas e seu domínio nas comunidades em que o Estado está ausente são alguns dos temas do longa. Os atores foram escolhidos entre moradores de comunidades cariocas. Marcando o fim da Retomada, inaugura uma nova fase do cinema nacional, com filmes de alta qualidade técnica, inovação de linguagem e engajamento social. Ao receber quatro indicações ao Oscar, a produção fez com que a crítica internacional voltasse a prestar atenção ao cinema brasileiro.

Estamira (2004)

Direção: Marcos Prado

Poster do filme Estamira (2004)

Mulher negra, a protagonista desse documentário é uma catadora que vive em um lixão do Rio de Janeiro há duas décadas. A sexagenária apresenta distúrbios mentais, mas revela sensível lucidez ao filosofar e lançar poesia sobre si mesma, Deus, os problemas sociais e a questão do lixo em grandes cidades, onde os valores essenciais também são descartados. Esta obra do cinema brasileiro venceu 33 festivais nacionais e internacionais.

Serras da Desordem (2008)

Direção: Andrea Tonacci 

Poster do filme Serras da desordem (2008)

Misto de ficção e documentário, o filme retrata a questão indígena brasileira a partir da história do índio Carapiru, que escapou de um massacre feito por fazendeiros ao seu povo na década de 1970. Por dez anos, ele percorreu 2 mil quilômetros sozinho até ser encontrado em 1988 por um sertanista e levado a Brasília pela Funai. Na capital, Carapiru estampou jornais e teve sua origem e identidade investigadas por antropólogos. As mais de duas horas nem são sentidas pelo ritmo balanceado e a experiência visual deslumbrante do filme.

Cidadão Boilesen (2009)

Direção: Chaim Litewski

Poster do filme Cidadão Boilesen (2009)

O documentário investiga o financiamento de empresários à repressão política durante a ditadura militar no Brasil. O eixo da investigação é a ligação de Henning Boilesen, então presidente do grupo Ultra – responsável pela Ultragaz – com sessões de tortura no período mais sombrio da história brasileira. As entrevistas com pessoas que conheceram o personagem servem para montar seu retrato à la “Cidadão Kane” (1941), de Orson Welles, referenciado no título. Foram necessários 15 anos de pesquisa para finalizar o longa, um dos mais marcantes sobre a ditadura.

Branco Sai, Preto Fica (2014)

Direção: Adirley Queirós

Poster do filme Branco sai, preto fica (2014)

O filme investiga de forma original o racismo no Brasil a partir de um caso real de abuso policial. E que terminou com dois dançarinos feridos em um baile de black music nos anos 80, na Ceilândia, cidade-satélite de Brasília. De forma surpreendente, a ficção científica toma a cena quando um personagem chega do futuro para investigar a responsabilidade do Estado na ação repressiva. A obra toca na ferida da nossa falsa “democracia racial”, misturando ficção e não-ficção e imaginando um futuro político onde os cristãos estão à frente do governo brasileiro.

Que Horas Ela Volta? (2015)

Direção: Anna Muylaert

Poster do filme Que Horas Ela Volta? (2015)

Regina Casé protagoniza a história vivida por várias brasileiras que deixam o nordeste para tentar a vida nos centros econômicos do país como empregadas domésticas. Val deixa a filha em Pernambuco e passa mais de uma década cuidando do filho e da casa de uma família de classe média alta em São Paulo. Até que sua filha Jéssica decide ir à cidade para prestar vestibular. A garota encarna uma nova geração que questiona a subserviência, os lugares reservados às classes baixas, furando bolhas de poder e revelando o desejo por igualdade social.

Café Com Canela (2017)

Direção: Ary Rosa e Glenda Nicácio

Poster do filme Café com canela (2017)

Afeto é a melhor palavra para esse filme que tem cheiro bom e aconchego desde o título. Produzido no Recôncavo da Bahia, com uma maioria de personagens e de técnicos negros – incluindo a diretora Glenda Nicácio –, o longa se mostra corajoso e cheio de personalidade ao experimentar na forma e no conteúdo. A trama se constrói a partir da memória e das relações entre os personagens. E que, dessa vez, não têm sua cor vinculada somente à violência, como vemos em diversos filmes. Mas a encontros, cuidados e alegrias, bem como a solidão, perdas e tristezas da vida e suas transformações. A representatividade e o antirracismo não são ditos com todas as letras e nem precisa: eles estão presentes na forma rica e diversa como se apresenta o ambiente subjetivo das pessoas negras. Babu Santana, Aline Brunne e Valdinéia Soriano são os destaques do elenco.

Cena do filme Piripkura (2017) - Foto: divulgação
Cena do filme Piripkura (2017) / Foto: divulgação

Piripkura (2017)

Direção: Bruno Jorge, Mariana Oliva, Renata Terra

Poster do filme Piripkura (2017)

Dois indígenas nômades, do povo Piripkura, vivem em uma área protegida no meio da floresta amazônica, ameaçada por grileiros e fazendeiros que a cercam. O documentário acompanha expedições da Funai em busca dos rastros dos dois indígenas para encontrá-los e acompanhar seu estado de saúde. Os modos originais de vida dos povos indígenas, sua liberdade e a abundância da natureza da qual usufruíam, aparecem ameaçados pela exploração da terra movida pelos interesses econômicos do capitalismo.

Chuva É Cantoria Na Aldeia Dos Mortos (2018)

Direção: João Salaviza e Renée Nader Messora

Poster do filme Chuva é cantoria na aldeia dos mortos (2018)

Contracenado por membros do povo indígena Krahô, a história do filme foi surgindo durante o projeto audiovisual criado pela diretora Renée Nader, em 2009, na aldeia Pedra Branca, no Tocantins. O longa conta a história do jovem Ihjãc, que recebe um chamado para virar pajé depois da morte de seu pai. Mas foge do compromisso buscando abrigo na cidade, que lhe reserva outras dificuldades. A poesia dos rituais Krahô, assim como as subjetividades dos personagens, são retratada com a beleza de um sonho. O filme ganhou 11 prêmios, entre eles, o especial do júri da mostra Um Certo Olhar, no Festival de Cannes.

Democracia em Vertigem (2019)

Direção: Petra Costa

Poster do filme Democracia em Vertigem (2019)

Indicado ao Oscar de Melhor Documentário de Longa Metragem em 2020, o filme narra o impeachment da primeira presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, o julgamento de Luiz Inácio Lula da Silva e a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições de 2018. A polarização política e suas ameaças à democracia brasileira são narrados de forma intimista e à esquerda pela diretora.

Espero Tua (Re)volta (2019)

Direção: Eliza Capai

Poster do filme Espero tua (re)volta (2019)

Através do olhar dos secundaristas que protagonizaram, em 2015, ocupações em escolas de todo o país contra o fechamento dessas instituições, o documentário narra a luta política da juventude brasileira desde os protestos de 2013 até a eleição de Jair Bolsonaro. Temas como repressão policial, racismo, educação, cultura e feminismo são abordados com bom humor e garra pelos três líderes estudantis.

A Vida Invisível (2019)

Direção: Karim Aïnouz

Poster do filme A vida invisível (2019)

Esta é uma adaptação do livro A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, da escritora Martha Batalha. O filme retrata as limitações impostas pelo patriarcado à vida de duas irmãs de classe média no Rio de Janeiro, na década de 50. Enquanto uma delas foge para viver com o namorado, que logo a abandona, a outra deixa o sonho de estudar piano fora do Brasil para cumprir suas obrigações em um casamento sem amor. Drama de partir o coração, faz repensar as violências vividas pelas mulheres décadas a fio e que se estendem até hoje. O filme ganhou o prêmio da Mostra Um Certo Olhar, no Festival de Cannes.

O Chalé É Uma Ilha Batida de Vento e Chuva (2019)

Direção: Letícia Simões

Poster do filme O Chalé É Uma Ilha Batida de Vento e Chuva (2019)

O documentário poético homenageia o escritor paraense Dalcídio Jurandir, autor de uma saga de 10 livros sobre a realidade nessa região do país. O filme é narrado pelas cartas enviadas por Dalcídio à sua mulher enquanto ele trabalhava como inspetor de escolas ribeirinhas para ganhar a vida. Uma “desculpa” para o filme mostrar o dia a dia dos personagens retratados nos romances do autor em meio a sensíveis planos das paisagens amazônicas e de seus habitantes.

Bacurau (2019)

Direção: Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

Poster do filme Bacurau (2019)

Com uma mistura de gêneros como ação, ficção científica, faroeste, suspense e comédia, a obra sacudiu o cinema brasileiro. A história se passa em uma comunidade do interior de Pernambuco com poder comunitário suficiente para acabar com estrangeiros opressores e políticos aproveitadores. Venceu o Prêmio do Júri no Festival de Cannes.

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