A Doação de Sangue é um Gesto de Amor à Vida

Em apenas uma doação, é possível salvar até quatro vidas. Mas é preciso desfazer alguns mitos e conscientizar sobre nosso cuidado com o outro para que mais doadores apareçam
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12.06.2020

Uma única doação de sangue, 450 ml, pode salvar quatro vidas. O gesto exige 30 minutos de dedicação e o organismo do doador se encarrega sozinho de repor essa quantidade em apenas 24 horas. “Para mim, esse é um modelo de abundância”, admira-se a psicóloga clínica e psicoterapeuta corporal Sandra Taiar quando ouve os números que compartilho com ela. 

Números expressivos, sem dúvida, mas as doações no país decepcionam. Talvez porque não esteja claro na cabeça do brasileiro o papel do sangue como salvador de vidas, nem o quanto a nossa mobilização tem a ver com isso. No Brasil, apenas 19 de cada mil pessoas doam com regularidade. Isso equivale a 1,9% da população, enquanto o preconizado pela Organização Mundial da Saúde é de 3% a 5%.

A regularidade, aliás, é também a chave dessa história porque o sangue tem prazo de validade. Cada um de seus componentes dura um tempo. Depois de cinco dias, as plaquetas (importantes principalmente para pacientes imunodeprimidos, com câncer) já se foram. As hemácias, glóbulos vermelhos que ajudam a reverter anemias, se tornam inválidas após 42 dias. Já o plasma e o crioprecipitado (um derivado do plasma), importante para pacientes com dificuldade de coagulação, podem ficar congelados no máximo por 2 anos.

O que falta para mais doação de sangue

Sandra Taiar busca uma resposta em seu tema preferido de pesquisa: a criação de vínculos. “Todos nós nascemos incompletos. Isto é, terminamos nossa formação fora do útero e só um vínculo pode nos proteger e garantir a sobrevivência. Do nascimento à velhice, os vínculos estão a serviço da sustentação da vida”, ela destaca. “Nos tempos modernos, no entanto, os vínculos humanos estão se tornando líquidos, no sentido dado por Zygmunt Bauman [importante pensador polonês falecido em 2017]. Por medo de perder a liberdade, perdemos a noção de comprometimento e tudo ficou muito descartável”, observa.

Por isso, a não doação é uma demonstração gigante de desvínculo. “Mas é preciso refazer o compromisso. E resgatar a noção de que o coletivo ampara.”

Desfazendo mitos sobre a doação de sangue

À falta de conscientização se somam ainda medos e mitos. Ideias falsas como as de que doar sangue engorda, emagrece, vicia, faz o sangue afinar provocando anemia, ou engrossar, o que entupiria as veias. Ou o receio de que a pessoa pode sair mais fraca e desmaiar após uma doação. 

“Existe todo um critério científico para que ninguém, de forma alguma, saia enfraquecido de um hemocentro. Por isso, a coleta só é feita se o doador pesar mais de 50 quilos, por exemplo”, explica a hematologista Roberta Fachini, diretora do banco de sangue do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. É por isso também que se pede para o doador nunca ir ao banco de sangue em jejum.  Deve estar bem alimentado, descansado, em boas condições de saúde. 

A doação de sangue em tempos de pandemia

Os profissionais dos hemocentros são bem treinados para a coleta e a assepsia extrema é padrão. Na Fundação Pró- Sangue, que fica dentro do Prédio dos Ambulatórios do Hospital das Clínicas, também em São Paulo, o cuidado foi redobrado por causa da pandemia do novo coronavírus. Além de álcool em gel, de equipamentos de proteção para os colaboradores, o doador pode agendar o horário para sua doação, o que evita aglomerações. E, mesmo assim, a dificuldade na captação de doações aumentou. 

“Em abril não chegamos a 7.000 bolsas (o ideal são 10 mil por mês)”, conta a hematologista Cyntia Arrais, que há 20 anos trabalha na fundação e analisa diariamente os números de coleta.

“A queda no número de doadores, infelizmente, não é de hoje. As pessoas já demonstravam receio de doar em dia de trabalho, demorar demais por causa do trânsito complicado da cidade e perder o emprego, mesmo tendo um amparo da lei para esse gesto solidário. E, para alguns, o preço do deslocamento para chegar até aqui é um impeditivo”, comenta a especialista. 

“A pandemia, contudo, nos deixou mais desabastecidos. O fato é que as pessoas têm que se resguardar, não sair para passear, mas a consciência de que há gente para ser salva também tem que ser mantida. Precisamos estar preparados e ter o sangue disponível para prestar atendimento não apenas no dia a dia, mas para o caso de alguma catástrofe, um incêndio, um desastre”, frisa a especialista.

Se o estoque estiver baixo, não adianta as pessoas correrem para doar sangue para ser usado imediatamente em uma emergência porque não vai dar tempo dele ficar pronto para ser transfundido. Afinal, muitos testes são necessários. E tem que ser assim para proteger o principal motivo da doação: o receptor.

Campanha Yam de doação de sangue: Doe Sangue, doe vida.

Na doação, o foco é o receptor

Transfusão de sangue é como um transplante – um tecido que veio de outra pessoa.  Mas apenas o gesto altruísta de alguém pode fornecê-lo.  E também, como qualquer transplante, implica em alguns riscos para esse mesmo receptor.

“A missão de um banco de sangue é garantir um suprimento de sangue seguro e adequado para quem precisa. Isso significa um suprimento em quantidade; não nos permitimos que falte sangue quando um paciente precisa… E de qualidade, ou seja, o sangue mais compatível possível com aquele paciente e isento de qualquer risco evitável”, explica a hematologista Roberta Fachini.

Ao buscar a melhor tecnologia de testes e leis de segurança (daí a lista detalhada de quem não pode doar e em que condições), o banco de sangue faz sua parte. 

A segurança no processo de doação de sangue

Depois que um candidato chega, existem métodos de trabalho muito bem definidos. Separam-se os hemocomponentes e, depois, esse sangue ainda fica aguardando os testes. Basicamente dois: um que busca a detecção de doenças infecciosas (como HIV, Hepatite B, Hepatite C, sífilis, doença de Chagas, HTLV) e outro que detecta febre amarela, dengue, zika e chikungunya. 

O doador, por sua vez, precisa fazer sua parte e ser consciente de suas próprias condições. “Isso porque mesmo os testes de ponta têm a sua limitação. E não podemos correr o risco de contaminar um paciente que já está imunodeprimido, fragilizado ou politraumatizado”, diz a médica. 

O intervalo de tempo entre uma potencial infecção e a produção de anticorpos do vírus no sangue, a chamada janela imunológica, varia de acordo com a patologia. Quando se trata de HIV, da hepatite B e hepatite C, há casos em que são necessários mais de 30 dias para o anticorpo ser detectável. Esse intervalo é necessário para aumentar ainda mais a segurança ou levar para próximo de zero a possibilidade de uma contaminação. A janela imunológica de segurança definida pelos cientistas é de 12 meses. Como o sangue não pode ficar esperando, porque tem prazo de validade, doações com qualquer tipo de risco não são permitidas. 

Homossexuais podem doar sangue?

 O Brasil segue esses critérios a exemplo de países ricos e cujos sistemas de saúde são de alta qualidade, a exemplo de Nova Zelândia e Finlândia. Há uma expectativa de que um acórdão seja publicado pelo Supremo Tribunal Federal para incluir homossexuais na categoria de doadores, o que tem sido historicamente vedado.  Os bancos de sangue aguardam um posicionamento do Ministério da Saúde sobre o tema. 

É possível avançar, com evidências científicas. Algumas destas restrições, como a doação de sangue por homossexuais, por exemplo, surgiram na década de 1980, no auge da epidemia de Aids. Naquela época, os homossexuais faziam parte de um grupo de risco maior para o HIV. Mas hoje, sabidamente, não é mais assim. Todo mundo é grupo de risco se tiver um comportamento sexual com múltiplos parceiros e sem o uso de camisinha.  

Outro ponto que  permanece nas discussões são as evidências de que o sexo anal representa um risco de transmissão para o HIV maior do que o sexo vaginal. Mas o comportamento sexual da população também mudou, e o sexo anal não é prática restrita aos homossexuais.

“Só é importante que essas discussões considerem critérios sanitários. Não se trata de julgamento de valor, de orientação sexual. Estamos falando do bem-estar do receptor. É isso que precisa ficar claro. É disso que se trata”, pondera Devi Aronis, cofundadora do movimento Eu Dou Sangue (eudousangue.com.br) e mentora do Junho Vermelho no Brasil.   

Doação é um gesto do cuidar

“A doação de sangue é a demonstração dessa capacidade que temos de nos reconhecer no outro e de cuidar do outro. É isso que nos torna humanos”, destaca Sandra Taiar.

O professor de espanhol Alfredo Quiroz aprendeu a ser assim naturalmente, desde pequeno. Seus pais sempre foram solidários com a comunidade. Mas foi quando um sobrinho de 14 anos, com leucemia, precisou de sangue, e pediu que a família se organizasse para continuar praticando esse gesto qualquer que fosse o resultado do tratamento dele, que Alfredo entendeu algo a mais. “Meu sobrinho faleceu, mas meu conceito de vida mudou”.

Alfredo criou a ONG chamada ADV, que hoje possui 8 mil doadores. Gente que se mobiliza toda vez que um hospital ou hemocentro liga pedindo ajuda. “No último final de semana de maio nos dividimos para atender seis hospitais: Edmundo Vasconcellos, Santa Casa de Misericórdia, 9 de Julho, Sírio-Libanês, Colsan de São Bernardo do Campo e o Banco de Sangue da Av. Brigadeiro”, diz ele.  

Com tanto tempo de dedicação, é esperado que Alfredo já ficasse conhecido no meio e até entre os familiares de quem precisa de sangue. É natural que estabelecesse um vínculo, esse comportamento que pode fazer a diferença entre a vida e a morte.

Essa é a abundância que, esperamos, se reproduza mais vezes.

Dados sobre a doação de sangue

  • 450 ml é a quantidade máxima de sangue doada por uma pessoa, o equivalente a uma bolsa. 
  • Cada bolsa pode salvar até  4 vidas.
  • 30 minutos: tempo de uma coleta, ou, em outras palavras, o que você gastaria para salvar essas quatro vidas.
  • Um adulto possui, em média, 5 litros de sangue. Desse total, são retirados 10% a 15% de volume. 
  • O sangue tem prazo de validade: as plaquetas duram 5 dias 
  • 42 dias é o tempo máximo de duração dos concentrados de hemácias, outra fração sanguínea
  • Já o plasma e o criprecipitado (um derivado do plasma) podem ficar congelados por 1 a 2 anos 
  • Apenas 19 de cada 1 mil brasileiros faz doação regularmente (cerca de 1,9% da  população nacional. Segundo a OMS o ideal seria de 3% a 5%).
  • 24 horas é quanto leva para o corpo repor o sangue doado.

Fonte: Fundação Pró-Sangue, Ministério da Saúde e Banco de Sangue do Hospital Sírio-Libanês.

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