Oceanos são os Pulmões do Planeta

Reconhecer os mares como fonte da vida na Terra é o primeiro passo para preservar as águas e a biodiversidade; saiba o que fazer para ajudar
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Venho trazer algumas revelações sobre os oceanos. Talvez elas não sejam novidades para você, mas vale ressaltar o valor imprescindível deste ambiente que une todos os povos do planeta. Mesmo que você não esteja perto dele, não se surpreenda, o oceano toca você.

Começo pela revelação mais importante: o verdadeiro pulmão do mundo é o oceano. De cada duas respirações, devemos uma ao oceano graças à abundância do fitoplâncton – um conjunto de microvida marinha que trabalha na fotossíntese. Outro fato importantíssimo: a maior diversidade e de vida do planeta está no mar. Da linha d´água até as suas profundezas abissais, onde nem a luz chega. Sim, vida!  Talvez sua mente já esteja viajando para a última vez em que esteve no mar.  Sim, ele tem dessas coisas…

O mar é responsável pelo nascimento da vida no planeta e dele depende, assim, o equilíbrio do clima. É que as algas e fitoplânctons absorvem dióxido de carbono, o maior vilão do aquecimento global. Esse processo é assemelhado ao trabalho das árvores: os incontáveis bilhões de vida marinha minúscula capturam a maioria de CO2 livre no ar. E, de quebra, o mar ainda nos faz sonhar. O Brasil está completamente conectado ao mar. Afinal, como imaginar a nossa música sem a inspiração marinha? 

A vida depende dos oceanos

Já a minha relação com os oceanos vem desde que nasci, do outra lado da Cordilheira dos Andes, diante do imponente Pacífico. Quando cheguei ao Brasil, automaticamente minha paixão se voltou para as conexões com o Atlântico. Faço do meu ofício de comunicar uma forma de contribuir para que as pessoas se encontrem e reconheçam estas ligações como o oceano.

A Mata Atlântica só existe por causa do mar

A Mata Atlântica, bioma que abriga mais de 70% da população brasileira, só existe por causa do mar. Pois é, o “Atlântica” da Mata não é por acaso, sabia? 

Há quinze anos, participei de um projeto que me mostrou a conectividade do povo brasileiro com os ambientes do litoral e sua interdependência. Em 2005, integrei a tripulação do projeto Mar Sem Fim, percorrendo a costa brasileira a bordo de um veleiro. Foram dois anos navegando do Oiapoque ao Chuí. O objetivo era produzir reportagens com a perspectiva do mar para o continente.

Encontramos inúmeras comunidades costeiras que vivem da pesca artesanal, rodeadas de ambientes chamados de associados, como manguezais, restingas e dunas. E as histórias…. Ah, como foi bom conhecer a relação dessas pessoas e o sentimento delas com o mar. Na época, isso me pareceu muito mais importante do que as atividades econômicas e que mantém a sobrevivência dessas comunidades.

Rede de pesca. Foto: Andrew Buchanan

É preciso conhecer para preservar e amar 

Avançando no tempo, todos nós percebemos, em choque, a fragilidade da conservação destes ambientes e, ao mesmo tempo, a relação de amor que os brasileiros e brasileiras têm com a costa. Tudo isso veio à tona em 2019, durante a maior tragédia ambiental do litoral brasileiro, com tanto óleo manchando as nossas águas. Durante alguns meses, acompanhamos com enorme preocupação o avanço da mancha chegando às praias e vagando pelas águas do litoral nordestino até o Rio de Janeiro. A areia das praias contaminadas pelo óleo, as pessoas desoladas com o impacto na pesca, no turismo, na vida marinha, no coração… Infelizmente, ainda não há um cálculo do impacto no oceano e na costa brasileira e nem temos ideia do que aconteceu. Nem mesmo sabemos a origem do óleo.

Trago esses temas variados porque acredito que devemos conhecer para conservar e amar. É um clássico do ambientalismo, antigo, mas muito real e presente. E a maioria das pessoas pensa no mar como uma maçaroca de água e não é capaz de  fazer as conexões que nos afetam diretamente. De certa forma, isso é um problema de comunicação e de educação das pessoas. É um fato que nos últimos cem anos descobrimos mais do oceano que em todo o resto da história.

Hora de regenerar a vida nos mares

Ao mesmo tempo, “durante este breve período, as ações humanas prejudicaram mais o oceano do que em todo o resto da história. E o ritmo está acelerado”. A frase é da Dra. Sylvia Earle, em seu fundamental livro A Terra é azul – por que o destino dos oceanos e o nosso é um só? (Sesi-SP).

A Dra. Sylvia Earle é uma inspiração e a maior referência na luta pela comunicação e conservação do Oceano. Em tempos de lives e webinar, basta buscar como referência nas redes sociais palestras de vinte minutos com a Dra. Earle que valem uma vida de conhecimento e encantamento pelos mares.

A “Senhora Profundeza”, como também é conhecida, tem dedicado estes últimos anos a rodar pelo mundo falando dos impactos e apontando soluções: ela defende (e já conseguiu colocar na agenda como alternativas para países, inclusive no Brasil) as “Hope Spots”, ou pontos de esperança. 

Precisamos de espaços intocados nos mares. E de tempo para promover uma regeneração. E ela acontece, sim! A volta de populações de peixes, a recuperação de corais e o aumento da biodiversidade marinha conectada é possível.  

Mas a forma como produzimos, descartamos e desperdiçamos os recursos naturais está afetando todas as vidas existentes no Planeta. E o oceano, por ser o maior ecossistema, vem sofrendo uma acelerada e invisível degradação.

Tartaruga marinha nadando próxima à corais. Foto: Francesco Ungaro

Os desafios da conservação dos oceanos

É desafiador elencar todos os problemas que os oceanos enfrentam, mas vou tentar resumir. Para começar, desde os anos 1950, metade dos recifes de coral em águas rasas desapareceu. As formas de pesca predatória tem arrasado com a população de peixes importantes. O superaquecimento das águas tem acelerado eventos climáticos extremos, como furacões e enchentes. A poluição plástica que cresce oito milhões de toneladas por ano afeta os mares, dentre muitos outros impactos invisíveis.

E talvez seja este último, que a gente não enxerga, seja o mais grave. Não ver ou saber impede que a sociedade pense no oceano como fonte de vida. Afinal, também dependemos da extração de óleo, de minerais, dependemos do oceano para a água potável, para o turismo, para o transporte e por aí vai.

O que pode ser feito para preservar os mares?

Afinal, o que fazer? Essa é a pergunta que me faço todos os dias. Sabendo que chegamos até aqui pela formas como consumimos, um caminho já é certo: repensar nossas atitudes e agir. Já!

Aquecimento das águas

Cuidar do aquecimento dos mares, por exemplo, é mais complexo. Antes de tudo, seria necessário diminuir o ritmo do consumo dos recursos do planeta, criar modelos robustos de compensação das emissões com plantio de árvores. Eu faço isso há quatro anos. Para ter ideia desse impacto, em 2019 minhas atividades geraram cinco toneladas de C02. Se você quiser calcular o seu impacto, pode usar esta ferramenta aqui.

A vida marinha e o plástico

A substituição imediata dos plásticos descartáveis  por duráveis já ajudaria muito. Mais de 80% do lixo do mar vem das cidades e já são mais de 9 milhões de toneladas de plástico por ano nos mares. Dizem que teremos mais plástico que peixes até 2050. Neste ritmo, vamos conseguir concretizar essa profecia. O impacto na fauna marinha, que não tem nada a ver com a forma irresponsável que levarmos a vida, é, por si só, uma injustiça. Calcula-se que 99% das aves marinhas já foram impactadas por algum item plástico. Já temos larvas de peixe nascendo com plástico em seu organismo.

Em resumo, é claro que o cenário é complexo e nem sempre fica claro sobre quais das nossas atitudes mais impactam a saúde dos oceanos. Mas acho que você já sabe que reduzir ou eliminar o consumo de plásticos, priorizar uma alimentação baseada em vegetais e repensar o seu consumo é um bom começo.

A jornalista com pautas ambientais, Paulina Chamorro, olha para o mar em Fernando de Noronha
Paulina Chamorro, em Fernando de Noronha, integrando uma equipe de pesquisa e mergulhos científicos em 2019

Mulheres pelos Oceanos

Em 2019, junto com a bióloga Leandra Gonçalves e a fotógrafa Barbara Veiga, iniciamos um movimento inspirador chamado Liga das Mulheres pelos Oceanos. Nosso grande objetivo é tentar, pela abordagem e ótica feminina, debater estes problemas, mas também trazer soluções, principalmente na comunicação.

Em um ano de ações, já somos mais de 300 mulheres conectadas em rede, trocando ideias e ações que todas nós realizamos. Grupos de diálogos com pescadoras, mutirões de limpeza de praias, estudo de manguezais, fotografia pela conservação, tudo isso já acontece dentro da Liga. Somos plurais, como a abordagem de conservação dos mares tem que ser.

No momento que o mundo deu uma parada devido a uma pandemia que nos tira o ar, causada justamente pela degradação ambiental, o chamado é para uma nova sociedade. De pensamento sistêmico e colaborativo. Minha casa, sua casa. O oceano nos deu a vida, chegou a hora de retribuir. Antes que seja tarde.

Inspiração

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