Bicicletas para um Novo Amanhã

Usar as bikes como meio de transporte pode ser a alternativa num mundo pós-isolamento. E são nelas que muitos países estão apostando
10 minutos de leitura
03.06.2020

“Essa deve ser uma nova era de ouro para as bicicletas.” A frase é do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, dita na primeira semana de maio. E resume uma tendência que vem se consolidando desde o início da pandemia do coronavírus: a importância deste meio de transporte durante a crise e na volta ao que estamos chamando de “normalidade”.

A Organização Mundial de Saúde (OMS), inclusive, recomendou a bicicleta como o meio de transporte mais seguro em tempos de isolamento e flexibilizações. É que esta maravilha da engenharia retira as pessoas da aglomeração do transporte público, deixando espaço livre para quem precisa deles. Também evita que todos tirem seus carros da garagem e aumentem ainda mais o trânsito. E, nas ruas, garante a distância segura entre as pessoas em seus deslocamentos.

Observar a movimentação de muitas cidades ao redor do mundo, que estão criando e implantando políticas públicas para incentivar o uso desta invenção tão revolucionária e transformadora, já faz a gente imaginar hashtags sobre o assunto pipocando nas redes e mais pessoas adotando a magrela para sair por aí.

Incentivo às bicicletas pelo mundo

Tais medidas para estimular que mais gente use a bicicleta como meio de transporte vão desde a ampliação temporária e permanente da estrutura cicloviária à redução de velocidade, restrição de circulação de automóveis a linhas de crédito para compra e manutenção de bicicletas.

Bogotá, capital da Colômbia, foi uma das mais ligeiras. E criou, logo no início da crise, 80 km de ciclofaixas temporárias. Bruxelas, na Bélgica, proibiu a circulação de automóveis em várias ruas centrais e reduziu para 20km/h a velocidade máxima dos carros. Paris, na França, tem um dos planos mais ousados e amplos de incentivo às pedaladas, que inclui medidas como 50 euros para serem gastos na manutenção da bicis.

Há cidades, como Milão, na Itália, Nova Iorque, nos EUA, e Toronto, no Canadá, que destinaram espaços de estacionamento para a ampliação de calçadas para os pedestres e mais espaço para os ciclistas. Os resultados dessas políticas já começam a aparecer nesses locais, que já observam mais ciclistas nas ruas, aumento de vendas nos Estados Unidos e de movimento em oficinas mecânicas no Reino Unido.

A realidade brasileira sobre as bicicletas

E por aqui no Brasil… bem, ainda é preciso pedalar atrás! A falta de estrutura cicloviária e o alto número de mortos no trânsito, ainda fazem o país pedalar em uma ergométrica. Em São Paulo, por exemplo, as ciclofaixas ficaram praticamente abandonadas na atual gestão, sem falar da carga tributária pesada que incide nas bicicletas – carros, charutos e uísques pagam menos impostos que uma bike.

A União de Ciclistas do Brasil já lançou a campanha Bicicleta para Futuros Possíveis, com indicações de medidas para ampliar o uso da bicicleta junto ao poder público, além de uma série de cuidados destinados aos ciclistas. A Aliança Bike, associação que reúne fabricantes, lojistas e importadores do setor de bicicleta, acaba de lançar um documento com 10 propostas para estimular o uso da bicicleta. São ideias para serem seguidas em nível Municipal, Estadual e Nacional e que preveem desde a redução de impostos a ampliação da malha cicloviária, passando por estímulo ao esporte, cicloturismo, ciclologística.

Qual cidade queremos habitar?

Um dado triste e preocupante e que se relaciona com a segurança nas ruas foi o aumento de 40% nas  mortes no trânsito da cidade de São Paulo em março de 2020 em comparação com o mesmo mês no ano anterior. Um índice puxado especialmente pelas mortes de motociclistas (que teve um aumento de 85%). O mais dramático neste número é pensar que a cidade já estava isolada e com menos carros nas ruas. O que demonstra o quanto a velocidade e a falta de respeito dos motoristas é mesmo letal.

Os dias de isolamento têm provocado muitas reflexões, incluindo em qual cidade queremos habitar. A gente nem precisou de dados estatísticos ou de instrumentos de medição para sentir os efeitos de uma nova cidade. Em poucos dias, nossos olhos passaram a ver um céu cristalino e um horizonte sem a faixa escura de fuligem. Percebemos também as vozes dos vizinhos, os mantras que entoam e as músicas preferidas. Descobrimos outros cantos de passarinhos, passos na calçada e até grilos noturnos.

É bem possível que muita gente passou a dormir melhor e a sonhar. É que, sem aquele barulho constante como pano de fundo da cidade, os moradores conseguem atingir níveis profundos do sono, onde justamente acontecem os sonhos. Como tem sido a sua experiência sensorial nesta nova cidade, ainda que presenciada pela janela de casa ou nas escapadelas ao mercado?

Por mais bicicletas e menos carros

Uma parcela dessas melhorias estão diretamente relacionadas a um fator: os carros saíram das ruas. E é nesse ponto que entra a bicicleta. Não que ela seja a solução para todos os problemas ou mesmo que possa ser adotada por todos os cidadãos. Mas este meio de transporte limpo, silencioso e acessível nos leva a essa reflexão.

Segundo a pesquisa Origem e Destino, realizada pelo Metrô, 60% dos deslocamentos feitos de carro na cidade de São Paulo têm a distância entre 2km e 5km, um trajeto que pode perfeitamente ser feito de bicicleta. Os carros são usados por apenas ⅓ da população e ocupam 80% do espaço das vias. Será que essa divisão é justa? Você já pensou como usa e quando usa o seu carro? E o impacto que a ida à padaria na esquina causa na cidade?

É bem triste imaginar que podemos voltar para a mesma cidade poluída, barulhenta e congestionada da qual saímos em março. Mas há também uma grande esperança em imaginar que a tal era do ouro propagada pelo dirigente inglês possa mesmo de fato acontecer. Com certeza, é uma mudança que acontece primeiro dentro de cada um de nós.

Guidão de bicicleta, vista de cima. Foto: Talita Noguchi
Guidão de bicicleta, vista de cima. Foto: Talita Noguchi
Guidão de bicicleta, vista de cima. Foto: Talita Noguchi
Guidão de bicicleta, vista de cima. Foto: Talita Noguchi
Guidão de bicicleta, vista de cima. Foto: Talita Noguchi
Guidão de bicicleta, vista de cima. Foto: Talita Noguchi
Guidão de bicicleta, vista de cima. Foto: Talita Noguchi
Guidão de bicicleta, vista de cima. Foto: Talita Noguchi
Guidão de bicicleta, vista de cima. Foto: Talita Noguchi
Nas grandes cidades, cheias de desafios de mobilidade, as bicicletas podem ser alternativas para desafogar o trânsito e ainda evitar a aglomeração dos transportes públicos em tempos de controle da pandemia. Fotos cedidas por Talita Noguchi, proprietária do Las Magrelas, confraria ciclista e lanchonete com tema de bicicletas

Para quem quer pedalar

Se um desejo de sair pedalando por aí mora em você  – ou mesmo se quer fazê-lo nascer –, saiba que ganhar confiança sobre duas rodas é bem menos complicado do que parece


1. Repense medos e inseguranças

Sempre fui a criança menos hábil e mais medrosa, a que demorava para subir na árvore e precisava de ajuda para descer, a que por último aprendeu a andar de bicicleta. Foi aos 13 anos e sozinha em uma Caloi 10. Tenho 53 anos e há pouco mais de cinco, vendi o carro e adotei a bicicleta como meio de transporte na cidade de São Paulo.

Gosto de contar essa história para já eliminar que tem na ponta da língua o argumento de que não sabe andar de bicicleta ou tem medo da rua. Eu também tive e levei quase um ano para começar a me sentir segura. Descia da bicicleta a cada esquina e tinha uma taquicardia cada vez que ia sair de casa sozinha.

Hoje pedalo com segurança em grandes avenidas, estradas e até na Marginal já fui parar lado a lado com os carros. Conto isso não pra dizer que eu sou a tal, mas para frisar que a bicicleta é possível para todo mundo.

2. Escute a sua vontade

Se este é o seu desejo, coloque fé e perseverança nele. Tape os ouvidos a qualquer ciclista que venha lhe contar vantagem (tipo eu ali em cima falando da Marginal) e simplesmente não ouça aqueles que virão tentar fazer você descer da bicicleta porque é perigoso, porque tem assalto e blá blá blá.

3. Escolha uma bicicleta compartilhada

Há muitas maneiras possíveis de se começar, mas a melhor com certeza é a que você escolher. Caso não tenha uma bicicleta, aproveite as compartilhadas que são perfeitas para dar início a esta jornada. Em geral estão próximas as ciclovias e com o tempo você vai começando a pedalar na rua e a  entender qual modelo é o ideal para você.

4. Tenha seu anjo da bike

Nos meus primeiros meses pude contar com um BikeAnjo me sugerindo caminhos e inspirando meu jeito de pedalar e me proteger na cidade. Foi tão incrível que viramos amigos e companheiros de pedal até hoje. Chame um BikeAnjo para te ajudar no início. Amigos ciclistas são também a melhor porta de entrada para o mundo da bicicleta. As ciclofaixas de lazer (outro descaso da prefeitura em relação às bicicletas) também é uma  ótima possibilidade de se conquistar pedalando a cidade e a sua segurança. Assim, aos poucos, no tempo e na dimensão de uma bicicleta. ▲

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