Ativismo de Sofá Conta?

Há muito a ser feito por causas importantes para o planeta – mesmo sem poder sair de casa. Aqui, um passo a passo para nos engajarmos pela mudança que queremos ver
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A quarentena já virou “cinquentena”, “sessentena” e nós nunca assinamos tantas petições online. Se você sempre se pergunta se funcionam ou não, você não está só. Não é de hoje que o ativismo online, ou “ativismo de sofá”, recebe críticas sobre sua real contribuição para pressionar governos e empresas.

Mas o mundo mudou e, de repente, as únicas formas de manifestação social acontecem quase todas online. Quase, porque não há limites para a criatividade e muita gente já experimentou a emoção de se expressar pela janela, durante cantorias coletivas. “A janela mudou… Agora a janela é o novo espaço público”, disse Alexis Anastasious ao Jornal da Cultura. Ele é VJ da Rede Quarentena, que transformou empenas de prédios em São Paulo em imensas telas de expressão artística e informativa por meio de projeções audiovisuais noturnas.

Diante disso tudo, muitas pessoas estão se descobrindo ativistas agora que têm tempo. E, assim, o “ativismo de sofá” perde o tom de ativismo preguiçoso para ganhar o novo contorno do ativismo possível em tempos de #ficaemcasa.

A seguir, vamos preparar você para a ação. Por isso, criamos a Jornada Fundamental do Ativista de Sofá, a maneira mais útil e generosa de usar seu tempo online.

Pandemia virou “oportunidade” para aprovações controversas

Depois dos minutos na janela, é no sofá de casa que a gente encontra mais tempo de se comunicar, se expressar, se indignar. E não é para menos! Não bastasse a situação do país, estamos perplexos com as tentativas políticas de aproveitar o momento para aprovar leis controversas sem a participação da sociedade.

Nas palavras do próprio Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, durante reunião ministerial, “precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de COVID e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas…Agora é hora de unir esforços pra dar de baciada a simplificação…”.

Essa fala expõe a urgência de nos movermos para proteger o conjunto de leis que ainda protegem nossas florestas, rios, clima, povos tradicionais, direitos humanos, patrimônios culturais e ambientais. Não há mais tempo para assistir a tudo passar sem se colocar em movimento.

Ativismo de sofá é possível

Existem muitas formas e ferramentas para você ativar transformações na sociedade sem sair de casa. De petições à vaquinhas e boicotes com causa, todas podem ter impacto positivo desde que bem praticadas. A seguir, o passo a passo da nossa Jornada Fundamental do Ativista de Sofá:

1. Escolha suas causas

O primeiro passo é escolher quais causas você vai dedicar seu tempo. Buscar  compreender o todo de forma sistêmica é importante, mas para se debruçar sobre cinco causas e ainda manter toda a rotina vai ser puxado. Então, escolha suas lutas. Três critérios para fazer isso são: eleja a que mexa mais com você, a que você mais tem vontade de estudar a respeito e aquela cuja ajuda pode ter o maior impacto. Outra dica é entender a escala da causa. Você pode lutar contra a flexibilização do desmatamento na Amazônia, ou para aumentar o tempo de travessia de um semáforo da rua onde você mora. Quanto mais local a luta, mais você poderá se envolver em seus avanços. Nos próximos dias, tente perceber qual é a causa que mais te chama.

2. Aprofunde-se

Isso vai economizar um tempo danado! Textos falsos ou enviesados são criados justamente para dividir e enfraquecer movimentos. Se você recebeu uma notícia por Whatsapp, vale checá-la usando veículos de imprensa de grande circulação. Separe o que é fato do que é opinião, para organizar seu pensamento. Para causas ligadas à aprovação de leis, vale ainda acompanhar as redes sociais de deputados e conhecer a posição deles. Leia entrevistas dos principais envolvidos e se prepare para ler as entrelinhas delas, captando informações de bastidores. Afinal, são dinâmicas permeadas de negociações nem sempre explícitas.

3. Expresse-se

Mas você não precisa deixar para expressar-se só quando tiver um link de petição para mandar. Dá para começar a contar essa história aos poucos, usando suas redes sociais, fazendo seu ativismo de sofá valer. Vai despertando uns alí, recebendo feedbacks daqui enquanto identifica quem também tem o sonho de transformar determinada realidade. Seus vídeos e textos não precisam ter palavras de ordem para ajudarem em movimentos ativistas. Aliás, o conteúdo educativo sobre causas é uma chave fundamental da jornada do ativismo. Podem ser conteúdos explicativos, artísticos, ou com a linguagem que for mais a sua praia. Quanto mais seu conteúdo “falar a língua” da sua rede, mais será compartilhado. A arte de Banksy está estampada para além dos muros, em feeds do mundo todo! 

4. Parta para a ação

As ferramentas de ação para o ativismo digital estão cada vez melhores. Vamos falar de algumas:

  • Arrecadações financeiras: apoiar quem precisa é uma forma de ativismo, principalmente se de grupos que resistem a grandes pressões para existir. No caso de povos tradicionais por exemplo, além de lutarem contra a exclusão e o preconceito, a resistência deles significa também a preservação da diversidade cultural e ambiental.
  • Pressão de consumo: também conhecida como o boicote à marcas, essa estratégia já existe antes da internet mas hoje é impulsionada pelos milhares de compartilhamentos nas redes. É onde cidadania encontra o consumo como ferramenta de pressão para fazer com que empresas mudem uma determinado posicionamento, prática ou produto.
  • Petições online: nada mais são que abaixo-assinados digitais com poder de unir as vozes da luta. Demonstram para os tomadores de decisão o quão coletiva é a causa. Mas funcionam mesmo? Depende! Uma luta pode até começar com uma petição, mas para que seja bem sucedida são necessários vários passos. Primeiro, é fazê-la chegar ao destinatário certo (ex: deputados, presidente de uma empresa ou entidade), preferencialmente protocolar as assinaturas a um processo, cobrar resposta, mobilizar mais pessoas e a imprensa, acompanhar o andamento e comunicar os passos para a comunidade de apoiadores.

    Em suma: é mais fácil juntar-se a uma petição do que criar uma do zero. Pesquise quais já existem – assim, somará seus esforços. Veja quem está à frente da petição. Coalizões de ONGs, associações e figuras públicas têm mais condições de levar a proposta à frente. Caso queira criar uma petição do zero, tente mobilizar uma rede de apoiadores que possa te ajudar nos próximos passos e lembre-se que quanto mais claro e tangível for o seu objetivo, maiores são suas chances de prosperar.

5. Chame os amigos para o ativismo de sofá também

Se você assinou uma petição ou ajudou uma vaquinha, então já pode ser um influenciador de micro-cosmos. Escolha a dedo as pessoas que vai chamar. Mais vale uma mensagem personalizada para poucos do que aquele envio em massa que, vamos ser honestos, ninguém lê. A dica é contar nessa mensagem como você se sente em relação à causa e o que te moveu a contribuir – assim, mais gente vai se conectar. Inclua argumentos contundentes que mostram que você estudou a respeito. No final, inclua o “call to action”, que pode ser um link da campanha onde a pessoa poderá se engajar. Um próximo passo é enviar, também, sugestões de postagens da campanha e outros links para saber mais. Você pode usar esse pequeno guia que criamos para montar sua própria comunicação ativista e passar todos os passos mastigadinhos para sua turma. (acesse o guia aqui)

6. Pressione

No caso de uma petição, por exemplo, quando ela alcança o número desejável de assinaturas é que segue para o destinatário. Aí, é hora de colocar pressão. O destinatário começa a receber as assinatura e isso exerce influência sobre sua decisão. Além disso, há outras formas de pressão digital. O envio de mensagens diretas aos tomadores de decisão tem ganhado popularidade no ativismo de sofá. Nós temos acesso aos endereços de e-mail de todos os deputados, vereadores, governantes, etc. A maioria deles tem também perfis nas redes sociais.

Para causas ambientais, a WWF costuma criar sites onde você entra com seu endereço de e-mail e uma mensagem é disparada em massa aos deputados pertinentes em seu nome. Essa medida também é efetiva quando uma petição já foi finalizada e enviada e o parlamentar pressionado, por exemplo, ainda não deu uma resposta. Uma terceira forma de pressão online que poucas pessoas conhecem é a ferramenta de consulta pública digital nos sites oficiais. Os principais são as consultas do Portal E-cidadania e as enquetes do site da Câmara dos Deputados

7. Acompanhe e Celebre!

Depois de assinar uma petição ou doar para uma vaquinha, acompanhe! No caso das petições, muitas vezes assinamos e esquecemos que ela existe – daí o sentimento de desconfiar se funcionam mesmo. A change.org, por exemplo, possibilita a publicação de atualizações sobre a causa. O Avaaz envia e-mails informando o estágio das causas. Já muitos projetos que você apoia podem fazer uma prestação de contas, mostrando como a vida das pessoas foram impactadas graças às doações.  

Pois é nessa etapa que você pode receber uma boa notícia. Celebre as conquistas! Vai dar um boost de otimismo no seu sofá. E, mesmo se a luta proposta não sair vitoriosa, aproveite para revisar suas estratégias e celebre a consciência que ajudou a criar ao seu redor.

Para seguir no ativismo de sofá…

Desejo que você tenha percebido como a quarentena está nos ensinando a sermos cidadãos digitais. E como as ferramentas para essa prática estão cada vez melhores. Por isso, cabe a nós desconstruir o clichê de que “se é online é superficial”. E lembrar que o ativismo de sofá representa uma realidade que acontece também fora da internet.

Outro cuidado é com a forma como nos relacionamos online. O fato de não ficarmos de frente com os contraditórios das nossas causas não deve, entretanto, desumanizar o contato. Antes de mais nada, trazer a comunicação não violenta para os ciberespaços é um caminho para construirmos arenas de engajamento online, em vez de campos de batalha.

Ser ativista, de sofá ou de rua, é ser, sobretudo, guardião dos bens comuns. É ajudar a escrever a história de uma sociedade mais justa e equilibrada. É remar contra as marés de barbárie, puxando mais gente para dentro do bote. Pois façamos isso com respeito e empatia!

As paredes podem até confinar nossos corpos, mas nossa voz pode ecoar para muito além. Estar perto não é (só) físico. ▲


Aline Matulja é colaboradora e expert em sustentabilidade nos contéudos YAM

Aline Matulja sentiu na infância o chamado da natureza. Engenheira Ambiental pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e mestre em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP), também é a nossa colabora e expert em Sustentabilidade. Saiba mais sobre Aline:

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