Ouvi a árvore pedir socorro que nem gente

Conheça a história de Roberto Brito, ribeirinho que abandonou a extração ilegal de madeira depois de ouvir uma árvore gritar de dor e pedir seu socorro
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26.05.2020

Nasci e me criei na comunidade de Tumbira, no Amazonas. Aos 12 anos já era madeireiro, como meu pai e meu avô. Trabalhei na extração de madeira ilegal até 2010. Em 2008, foi criada a unidade de conservação na nossa comunidade, o que nos deu alternativas de sobrevivência na floresta.

Meus avós paternos e maternos eram filhos de índios. Meu avô paterno era da etnia tucano; minha avó, cearense. Aí deu em nós: caboclos. Quando meu avô deixou a aldeia dele para viver como caboclo ribeirinho, a extração da madeira era uma das coisas que tinha no momento para ele fazer. Na época, na nossa comunidade, tinha muita itaúba, uma das madeiras mais nobres para a construção de barcos na região. Isso estimulou muita gente a trabalhar nesse ramo. 

Tiravam a madeira com machado e serrotão. Não tinha motosserra. Meu pai continuou usando serrotão. Eu já comecei a extração de madeira com motosserra. O caboclo vive sem muito conhecimento na floresta. Por isso, faz muitas coisas erradas, mas não é porque ele quer fazer. É falta de oportunidade de fazer a coisa certa.

O dia em que a floresta disse basta

Por volta de 2004, derrubando a floresta todos os dias, certa vez, antes de uma árvore cair, ela gritou por socorro. Ouvi um “ai” de dor que nem ser humano. Na hora fiquei muito assustado. Não sabia o que fazer. Foi então que me dei conta de que estava fazendo muito mal para a floresta. Porém, extrair madeira era a única coisa que eu tinha para fazer. 

Daquele dia em diante tive mais cuidado com a minha vida dentro da floresta. Fui vendo todo aquele desmatamento acontecendo, muitas reportagens sobre queimadas e aquecimento global, bichos pedindo socorro, fugindo das queimadas, muitas secas e enchentes. Assim fui tendo outra visão de sobreviver. Como disse, nossa Reserva foi criada em 2008. De 2004 a 2008, levei quatro anos meditando na minha vida para entender que a única maneira que a natureza achou para pedir socorro para mim foi gritando que nem gente. 

Um ‘ai’ de dor que nem ser humano.

Anoitecer na floresta Amazônica. Foto: Loiro Cunha

Recomeço a partir dos saberes ancestrais da floresta

Essa experiência mudou tudo na minha vida, principalmente meus olhos de ver a floresta. A mata que eu via derrubada passei a ver em pé. Hoje tenho um desenvolvimento e uma qualidade de vida muito melhores do que quando eu derrubava árvores. Vi também muitas oportunidades de desenvolvermos atividades através dos conhecimentos que adquirimos a vida toda. Conhecimentos que a vida nos ensinou sem estudar, que tivemos que aprender para sobreviver no meio da floresta. Só que antes nós não sabíamos que éramos capazes. Hoje, esses conhecimentos geram muito impacto para todo mundo, tanto para os visitantes como para as pessoas das comunidades. 

Educação, tecnologia e valorização do ser humano

A Fundação Amazônia Sustentável, ONG que vive da arrecadação de parceiros, trouxe muitos conhecimentos para dentro da Reserva, principalmente a valorização das pessoas que estão aqui porque gostam daqui e não querem sair para ir para qualquer cidade. Querem viver aqui, desde que tenham uma vida digna, de boa qualidade e de preservação de todos.

O caboclo tem o conhecimento aqui dentro, só que a gente não sabia usar. Hoje podemos fazer tudo isso graças ao belo trabalho dessa instituição. Uma das coisas que melhorou bastante foi a educação. Nossa comunidade tem até o Ensino Médio. Com educação você tem outra visão para o futuro. A tecnologia, que para nós era distante, virou uma realidade. Hoje estou aqui e o mundo inteiro pode falar comigo através dessa comunicação. Isso trouxe muitas oportunidades, principalmente para os jovens. Eles são mais fortalecidos porque têm a oportunidade de ter uma educação à base de tecnologia que está desenvolvendo muitas pessoas dentro da floresta para viver de outra forma. 

Turismo Sustentável: onde mundos se encontram

Meu dia a dia é na comunidade, vivendo com mais aproveitamento de tudo o que nos arrodeia. O turismo não trouxe só o ponto econômico para a minha pessoa, trouxe a valorização de tudo isso que eu não via quando era madeireiro: a natureza, o meio ambiente. Quando recebo os turistas aqui, faço o mesmo que eu fazia tirando madeira, levo eles para a floresta, só que com uma diferença, não levo a motosserra. E vou falando minhas histórias de vida. Muitas coisas tive que aprender com tudo aquilo que estava ao meu redor. Então, eu passo isso para os turistas. 

Levo os visitantes para uma vivência dentro de um ambiente que eles não estão acostumados. Pessoas acostumadas com a zoada de carro, buzina, agito da cidade vão para dentro da floresta à noite, para observar o quanto a mata nos fala, conversa. Aquele barulho da natureza para mim é encantador. A gente faz trilha, banho de rio, passeio noturno, passeio de igapó.

Aqui em frente à nossa comunidade tem o segundo arquipélago de ilhas fluviais de água doce do mundo, o Parque Nacional de Anavilhanas, que é um cenário muito rico em biodiversidade. Como recebemos várias pessoas aqui, me sinto realizado porque não tive que sair da comunidade onde nasci e me criei. Esse turismo pedagógico e de pesquisa ajuda muito os povos que vivem na floresta. 

Árvores em meio à neblina, na floresta Amazônica. Foto: Loiro Cunha

Autoestima e conscientização transformam comunidades

Por não ter estudado em escola, o caboclo se julga inferior às pessoas que são formadas. Mas quando doutores de formação vêm para dentro das comunidades e pegam uma vivência com o caboclo, eles estimulam muito essa pessoa a perceber que estão no mesmo nível em termos de saberes. Somos doutores da vida que levamos aqui dentro, só não temos o diploma, a formalização documentada, mas a gente sabe muito, coisas que muita gente estuda a vida toda nas melhores universidades para saber aquilo que nós sabemos da questão da natureza. 

Hoje, graças a Deus, tivemos um freio no desmatamento na nossa Reserva e uma vida melhorada em cima disso. A oportunidade e o conhecimento fizeram muita mudança. Mas ainda precisamos de apoio para que possamos alavancar e aproveitar a capacidade daqueles que vivem na Amazônia. Muitas vezes a falta de apoio e a burocracia acabam jogando as pessoas para a ilegalidade. 

Querer bem para as pessoas é querer bem para a natureza também. A floresta, os rios, os bichos são tudo vidas. Vidas que dependem do ser humano para viver em harmonia com todo mundo, trazendo recursos para todos. Hoje a política não está nem aí para o meio ambiente e para o caboclo. Mas a mudança está nessas pessoas. 

Recado para quem vive nas cidades grandes

As florestas não são só nossa e sim do planeta todo. Por isso, todos nós temos que fazer a nossa parte. Não pensem vocês que, se as florestas acabarem, não vão fazer falta para vocês. Vão e muito, porque é através de tudo isso que o planeta se mantém equilibrado em todos os sentidos.


Roberto Brito de Mendonça, ativista ambiental em Tumbirá, na Amazônia.

Roberto Brito de Mendonça, 44 anos, residente na comunidade de Tumbira, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Negro, no município de Iranduba, Amazonas. Atualmente, é uma das lideranças da comunidade e empreendedor na área do Turismo.

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