É Preciso Honrar a Natureza

Bastou que as emissões de carbono diminuíssem para que enxergássemos o quanto nosso comportamento diário, destrutivo para o planeta, pode mudar. É possível – e urgente – fazer melhor a partir de agora
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Não foi necessário tanto tempo. Quando a pandemia paralisou indústrias e lojas, reduziu a circulação de veículos e interrompeu milhares de voos mundo afora, um efeito colateral surpreendeu: águas mais cristalinas se revelaram nos canais de Veneza, flamingos tomaram conta de um riacho em Mumbai, leões aproveitaram o isolamento das pessoas para tirar cochilo em uma estrada na África do Sul e o Himalaia ficou visível novamente – depois de 30 anos oculto por pesadas cortinas de ar poluído. 

Já nem lembrávamos mais da saudade que sentíamos dessas imagens. E, no entanto, quando elas surgiram, correram o mundo em segundos. Há algo nelas que não queremos deixar ir embora e que pode modificar nosso coração e mobilizar nossa ação: a natureza segue fazendo seu trabalho. E, na medida do possível, tenta nos contar alguma coisa.

Nós é que precisamos da natureza

A campanha A Natureza está Falando (www.anaturezaestafalando.org.br), da ONG Conservação Internacional, feita antes de a pandemia chegar, já se preocupava em aumentar o volume dessa fala. 

No Brasil, doze filmes – de cerca de um e dois minutos –, interpretam aquilo que o céu, as montanhas, os oceanos, o solo e as flores sussurram. Em um deles, a Natureza “empresta” a voz de Maria Bethânia para dizer: “Eu estou aqui há bilhares de anos. Vi eras passarem, civilizações nascerem e morrerem, animais serem extintos. Eu permaneci. Eu vou permanecer. Se eu prospero, vocês prosperam. Se eu acabo, vocês acabam. Mas eu me regenerarei”. 

“O que a campanha pretendia era uma forma de dialogar com a sociedade sem ser acusatória. Queríamos trazer informações científicas para uma linguagem mais simples e expressa pelos elementos da natureza para tentar aproximar mais as pessoas“, diz o vice-presidente da CI no Brasil Mauricio Biano. 

“Essa foi a lógica que usamos: mostrar que a natureza já passou por grandes mudanças e sobreviveu. Mas, daqui pra frente, ela quer solucionar esses problemas com a ajuda do ser humano”. 

Por dois motivos básicos: 99% dos artigos de cientistas que estudam o aquecimento global atribuem o problema à ação humana.  E o impacto das mudanças climáticas sobre o planeta será muito maior do que o impacto de um vírus. 

“Se a gente não conseguir segurar o aumento de temperatura em, no máximo, 2 graus, o impacto sobre a Terra – e nós mesmos – será absurdo. Acontece que isso está para acontecer em dez anos, e as pessoas acham que é muito tempo. O que o Covid-19 fez foi enxugar esse tempo e mostrar que tudo pode acontecer em um instante”, compara Mauricio. “A questão é: será que quando a gente sair da quarentena, estaremos mais conscientes para o fato de que usamos mais da Terra do que ela pode dar?”.  

O homem não é o centro do universo

Para começar, é urgente uma revisão no antropocentrismo. 

Ativista e um dos mais importantes e originais pensadores brasileiros da atualidade, o líder indígena Ailton Krenak, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, critica a ideia de humanidade separada da natureza. Para ele, uma “humanidade que não reconhece que aquele rio que está em coma é também o nosso avô”, estaria na origem do desastre socioambiental de nossa era. 

Em um de seus textos, já incluindo a questão do novo coronavírus, Krenak diz ser terrível o que está acontecendo, mas que, como sociedade, “precisamos entender que não somos o sal da Terra. Temos que abandonar o antropocentrismo; há muita vida além da gente, não fazemos falta na biodiversidade.” 

De quarentena na sua aldeia, às margens do Rio Doce, em Minas Gerais, ele tem uma rotina semelhante à que tinha antes. Acorda, cuida da terra, das plantações. A harmonia parece mais protegida e gesta o seguinte pensamento: 

“O que estamos vivendo pode ser a obra de uma mãe amorosa que decidiu fazer o filho calar a boca por pelo menos um instante. Não porque não goste dele, mas por querer lhe ensinar alguma coisa. ‘Filho, silêncio.’ A Terra está falando isso para a humanidade. E ela é tão maravilhosa que não dá uma ordem. Ela simplesmente está pedindo: ‘Silêncio’. Esse é também o significado do recolhimento”, entende.

Árvore ancestral no meio da floresta, com galhos extensos, copa volumosa e muitos cipós no tronco. Foto: Brandon Green

A natureza pede silêncio e pausa 

O sentimento de aliança com a Terra que Krenak representa é visto como essencial por muitos pensadores. Um deles, a filósofa carioca Juliana Fausto, que tem doutorado em questões ambientais pela PUC-Rio.

“A tragédia começa quando a humanidade resolve que está separada da natureza. Esse é um pensamento que possibilitou a revolução industrial, deu início à era moderna e atingiu o ápice no pós Segunda Guerra, quando houve a chamada ‘grande aceleração’ no modo de produção”, ela explica. 

“Houve uma aceleração tanto no desmatamento quanto no desenvolvimento de tecnologias. Depois de 1945, os gráficos todos enlouqueceram mostrando aumento no despejo de gases de efeito estufa no ar. E tem sido assim até chegarmos a esse ponto em que alguns lugares da Terra se tornaram inabitáveis. Ou seja, esse pensamento ‘moderno’ foi uma ilusão e o que estamos vendo é o fracasso da ideia”, contextualiza a filósofa. 

Pandemia benéfica para o planeta?

Juliana destaca, no entanto, que não se trata de uma única humanidade remando contra. “Os indígenas, por exemplo, nunca comungaram dessa ideia de exploração sem limites”, aponta. “A humanidade é múltipla. Assim como vemos, na pandemia, gente querendo reabrir o comércio a qualquer custo porque não se importa com mais ninguém, há pessoas maravilhosas se organizando para fazer doações, estudos, pesquisas”.

A estudiosa, aliás, é contra dizer que a pandemia foi benéfica para o planeta. “É impossível louvar a exuberância da natureza, que é vida, quando o custo é a morte. Tudo que está acontecendo é muito triste. O ponto é que o coronavírus pausou certas práticas. A pausa nas indústrias, a diminuição de carros na rua e de voos, sim, é que pode servir como um exemplo tangível de que precisamos cuidar da natureza para cuidarmos de nós mesmos. Se a pandemia for uma vingança, como alguns dizem, certamente não é uma vingança contra a humanidade, mas contra essas práticas”, reflete ela.  

O que esperar do mundo pós-pandemia?

Juliana Fausto prefere compartilhar alguns de seus estudos mais recentes para delinear um horizonte possível. O antropólogo francês Bruno Latour se esforça para imaginar que, além dos humanos, (que são os modernos que ainda acreditam nessa separação entre culturas e natureza) existem os terranos (que vêm da terra, para a terra e pela terra); e os filósofos franceses do século XX, Gilles Deleuze e Félix Guattari, acreditam que um povo se constrói a si mesmo e sabe do sofrimento que precisa. Deles vêm a frase:  “O artista ou o filósofo são bem incapazes de criar um povo, só podem invocá-lo, com todas as suas forças”.

 Pois bem, pode ser que a gente esteja construindo esse povo: o povo que falta. “Da minha parte, acho que esse povo vem se construindo, se organizando, nas greves pelo clima da Greta Thunberg, no trabalho do Ailton Krenak”, resume Juliana.

Natureza e um tempo ancestral

Quando a extravagância do homem grita, a Terra fica em silêncio. Mas não se engane. A biografia da natureza escancara uma existência de tempo profundo: 4,5 bilhões de anos. Uma samaúma, para ir de semente a gigante de 50 metros, leva 500 anos. Na Amazônia, essas árvores podem chegar a 800 anos. Por isso são chamadas de árvores mãe e consideradas sagradas.

Os recifes de corais, outra manifestação colossal, vêm crescendo por mais de 250 milhões de anos. Lamentável, no entanto, que o aumento da temperatura da água nos últimos séculos já tenha levado embora 1/5 do seu tamanho.

“Pra gente conseguir entender o que é a história da humanidade dentro da história da Terra, portanto, pra gente conseguir entender o que é esse tempo profundo, é preciso usar a imaginação. Em uma comparação que eu acho muito bonita, a idade da Terra poderia ser comparada ao tamanho do braço estendido do imperador enquanto a idade da humanidade equivaleria à unha de um dos dedos. Se você pegar uma lixa e passar nessa unha, acabou”, diz Juliana.

A filósofa deixa uma reflexão: “Essa sacola de plástico que estou jogando fora vai fazer diferença? Bem, as toneladas de plástico dentro de uma baleia que morre saíram de algum lugar”.  ▲

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