A Pandemia Escancara a Crise do Patriarcado

O novo coronavírus expõe a pior faceta de uma sociedade capitalista cheia de desigualdades e exploração, enquanto uma sabedoria feminina desperta a possibilidade de uma saída humana e mais generosa
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29.05.2020

O novo coronavírus expõe a pior faceta do patriarcado e de uma sociedade capitalista: desigualdades no acesso a direitos essenciais como educação, moradia e saúde, além de ritmo e racionalidade que atropelam a vida em nome do lucro. Em meio a isso tudo, no horizonte e dentro do peito, nasce a esperança de uma sociedade bem diferente dessa que se vê ruir, com direitos igualitários, cuidado nas relações, respeito aos ciclos da natureza e aos nossos tempos internos.

Com as famílias convivendo em casa por mais tempo na quarentena, trabalhos domésticos de cuidados com os filhos, alimentação, saúde e limpeza aparecem mais. Assim como o real valor dessas atividades, tão ignoradas pelo patriarcado.

“Fica evidente que esses trabalhos, atribuídos na maior parte das vezes às mulheres e quase nunca remunerados, são desgastantes e muito necessários. E que eles precisam ser divididos de maneira justa”, observa a filósofa Daniela Rosendo.

Uma ética feminista responde à racionalidade masculina

Na política global, ações de líderes homens, como Donald Trump, nos Estados Unidos, e Jair Bolsonaro, no Brasil, favorecem o lucro e colocam vidas em risco ao minimizar a gravidade da doença. E são exemplos claros de um patriarcado em crise. Já mulheres, como as premiês da Islândia, Katrín Jakobsdóttir, e da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, olham com mais humanidade para a pandemia, sendo mais assertivas em contê-la.

Segundo Daniela, autora do livro Sensível ao Cuidado: Uma Perspectiva Ética Ecofeminista (Primas), isso tem a ver com a ética feminista. Nela, se responde de forma adequada às particularidades de cada situação com base no cuidado e na empatia. Essa moralidade se contrapõe à priorização e exclusividade da racionalidade, imparcialidade e ao desinteresse atribuídos ao universo ético masculino.

Mas nada impede que esses dois mundos se misturem, com mulheres tomando atitudes patriarcais e vice-e-versa. “As mulheres têm liderado, mas os homens também podem agir com base nos valores feministas. É uma escolha política”, explica.

O premiê grego, Kyriakos Mitsotakis, que adotou medidas de distanciamento social mesmo antes do registro dos primeiros casos no país, é um exemplo positivo disso. Já as ações da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, colocam-na no espectro da moralidade de uma masculinidade não saudável.

Feridas expostas: sem romantizar a pandemia

Apesar dos avanços, é preciso atenção ao romantizar o fim do patriarcado da noite para o dia durante ou após a pandemia. Isso porque essa crise, apesar de sua dimensão global inédita, faz parte do ciclo de baixas e altas intrínseco ao sistema capitalista, que já mostrou, outras vezes, ser capaz de se reinventar para permanecer reinando.

“Não é em um mês que acabamos com um sistema de opressão que dura séculos. A desigualdade e a violência só se agravam com a pandemia”, alerta Daniela.

Os casos de violência doméstica contra mulheres, por exemplo, têm aumentado com a maior presença dos homens nos lares. A alta de queixas foi de 44,9% em São Paulo e de 36% em Paris, para se ter uma ideia. Outro peso é a vulnerabilidade das trabalhadoras de saúde: elas representam 70% dos profissionais que atuam na linha de frente do combate à doença, de acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). Por isso, inclusive, têm mais chances de se infectar.

Não é em um mês que acabamos com um sistema de opressão que dura séculos.

Ilustração com um homem branco sentado sobre o mundo

A desumanização mantém a desigualdade


A recente classificação do trabalho de empregadas domésticas como essencial durante o lockdown em Belém, no Pará, é mais uma amostra da opressão do sistema sobre as vidas das mulheres durante a pandemia, de acordo com a socióloga Sabrina Fernandes.

“A desumanização segue em curso. E seria necessário um processo de reorganização profunda da sociedade ao redor da criação de crianças, atividades domésticas, funções de cuidado, divisão do tempo de trabalho e papéis de gênero em geral para alterar a lógica”, observa Sabrina.

Somado a isso, para famílias chefiadas por mulheres, a quarentena significa mais trabalho com as crianças em casa. E sem o apoio da escola com educação e merenda. Segundo pesquisa de 2015 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE), as mulheres são chefes de família em 40% dos lares do país.

“Por isso que, para além de pautarmos que homens dividam o fardo de trabalho doméstico de forma mais igualitária, a gente precisa de serviços públicos e comunitários para que todo tipo de família tenha suporte”, diz.

O poder de cura dos coletivos

Aproveitar as fissuras do patriarcado expostas durante a crise do novo coronavírus para abrir caminho a um sistema humano e feminista depende de toda a sociedade, segundo as especialistas.

“O sistema atual é altamente individualizado. E a estrutura só muda quando a gente age coletivamente”, aposta Daniela. “Nesse novo paradigma, a autonomia é inter-relacionada e a vulnerabilidade é vista como algo bom. É outra lógica: de cooperação e não de competição.”

A filósofa cita iniciativas como a de coletivos de favelas de levar informações sobre a covid-19 aos moradores. E também de mutirões agroecológicos que buscam alimentar quem está vulnerável durante a pandemia, garantindo, ainda, renda para pequenos produtores. 

“A pandemia moveu pessoas que já eram engajadas politicamente, mas também despertou engajamento de muitas outras que não faziam isso ainda. Isso mostra a potência do momento para criar novas práticas. E, sobretudo, para mantê-las para além da pandemia e construir esse mundo mais justo que a gente almeja.”

Mulheres negras e indígenas resistem

Sabrina, que mantém o canal do Youtube “Tese Onze”, concorda. Ela cita a resistência das mulheres indígenas e de outras comunidades tradicionais como essenciais para a preservação de nossos habitats e dos conhecimentos ancestrais sobre eles.

“É com esse tipo de organização que veremos transformações duradouras, e espero que seja assim. Pois, quando a gente fala da Natureza, há pouco tempo para mudar nosso jeito de fazer as coisas e evitar catástrofes”, observa.

Se o chamado está aí, o que temos feito, eu, e você, para apoiar grupos e iniciativas e sairmos dessa pandemia mais perto da sociedade humanizada que queremos ser?

Leia também: A pandemia é um chamado à colaboração e à solidariedade.

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