Coronavírus e a Desconexão com a Natureza

Como a relação que temos com o meio ambiente explica a origem da pandemia e mostra que profundas transformações serão necessárias – e até inevitáveis
8 minutos de leitura
20.04.2020

Embora a pandemia do novo coronavírus tenha atingido países e populações como uma verdadeira bomba biológica, é preciso dizer que cientistas do mundo inteiro alertam para este tipo de perigo há décadas. Não foi um acidente e, muito menos, algo inesperado.

A provável origem do vírus, ainda que não conclusiva, remete apenas a um dos vários fatores que a própria humanidade tem criado ao longo de muitos anos e que explicam o surgimento da COVID-19, desta vez com disseminação em escala global. O que está por trás dessa pandemia é o que ambientalistas e cientistas de diversas áreas vêm tentando dizer ao mundo há tempos. Nossa maneira de lidar com a natureza, explorando-a para além dos limites ecológicos de cada ecossistema, trará consequências graves para a humanidade.

O assunto, infelizmente, é sério e bem pouco leve. Mas precisamos falar sobre isso. Porque sair dessa situação exigirá de cada um de nós consciência, força e capacidade de se reinventar. E, sobretudo, de acreditar na construção de um mundo diferente (e, quem sabe, melhor) para todos nós. Então, respire fundo, mais uma vez, e vamos seguir juntos…

Coronavírus e o mercado vivo de Wuhan

As primeiras investigações científicas relatam que a origem do novo coronavírus pode estar ligada a um mercado vivo na cidade de Wuhan, na China. Por lá, comerciantes vendem animais de criação e também diversas espécies silvestres para alimentação humana. 

Supostamente, o hospedeiro original do coronavírus são populações de morcegos de áreas silvestres da Ásia. Pangolins (espécie de tatu) ameaçados de extinção teriam se alimentado de frutos contaminados por fezes desses morcegos, tornando-se hospedeiros intermediários do vírus que, em pouco tempo, saltou para o ser humano através do consumo da carne de pangolins infectados. 

Não por acaso, o país baniu esse tipo de mercado de animais vivos, muito comuns na cultura chinesa. Foi por tempo indeterminado, e assim que a pandemia começou.

Interferências humanas na disseminação do coronavírus


“Entre 60% e 70% dos agentes das doenças infecciosas em humanos são zoonóticos, ou seja, circulam em populações animais. Isso mostra como as pessoas se relacionam entre si, com os animais e o meio ambiente”, diz o professor Eliseu Alves Waldman, do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP. 

“Hoje vivemos em ambientes criados pelo homem a partir de interferências sobre o meio ambiente. Quando há uma redução do hábitat de alguns animais, muitos acabam se aproximando de populações humanas, possibilitando que micro-organismos com grande capacidade de mutação e recombinação saltem de populações animais para populações humanas”, explica.

Waldman relembra que em 1800 a população humana no planeta era estimada em um bilhão de pessoas. Em 1930, menos de um século e meio depois, dobramos esse número. E, atualmente, passados apenas 90 anos, já atingimos mais de 7,7 bilhões de indivíduos. “Esse crescimento populacional, junto com um processo importante de urbanização e criação de complexos sistemas de transporte de massa nas metrópoles e também intercontinentais, além de técnicas de produção intensiva de animais para consumo humano (um exemplo disso é o vírus influenza H1N1, que surgiu em suínos no México), gera condições para a emergência de doenças de rápida disseminação global”, avalia.

Crescimento populacional e aglomeração são fatores 

A visão do epidemiologista se soma à análise do biólogo e doutor em Ciências Ambientais Zysman Neiman, professor e pesquisador da Universidade Federal de São Paulo. Para ele, cinco fatores ligados à temática ambiental nos ajudam a explicar o que é essa pandemia do novo coronavírus. 

“O crescimento populacional é, sem dúvida, o primeiro grande desequilíbrio que causamos, pois espécies que são parasitas dos seres humanos acompanham essa curva de crescimento. Isso vale para o coronavírus e também para os vírus da zika, dengue e chikungunya, por exemplo”, afirma.

O segundo fator, diz Neiman, é a aglomeração humana. Hoje, de acordo com dados da ONU, 55% da população mundial vive em cidades e a expectativa é de chegarmos a 70% em 2050. “É a mesma lógica da monocultura, em que uma praga surge e afeta toda a produção. Quando se tem mais da metade da população no mesmo local, isso favorece o surgimento de doenças”, afirma.

Globalização e redução da biodiversidade

O terceiro fator é a globalização. Para o professor da Unifesp, isso aumentou exponencialmente o transporte de mercadorias, o trânsito de pessoas e, por consequência, a circulação de doenças também. 

Já o quarto fator diz respeito à redução da biodiversidade no planeta. “Vírus e bactérias, não tendo seu hospedeiro regular, podem sofrer pequenas mutações para conseguirem outro hospedeiro, no caso, o ser humano. Além disso, a perda da biodiversidade, que ocorre com desmatamentos ou quando substituímos parte da Amazônia e do Cerrado por monocultura de soja e algodão, por exemplo, dificulta muito o controle natural dessas pragas, que tendem a se concentrar em algumas espécies”, explica Neiman.

Um relatório histórico divulgado em 2019 pela Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas em Biodiversidade e Ecossistema (IPBES), da ONU, reuniu cientistas de 50 países e apontou um dado duro e alarmante. Um milhão de espécies de plantas e animais estão em risco de extinção por alterações humanas geradas no uso da terra e do mar, além de poluição, mudança climática e intensa exploração de recursos naturais. 

São incontáveis os números que tentam dosar o impacto da ação humana sobre o planeta, que já teve os ambientes terrestre (75%) e marinho (66%) alterados significativamente por ações humanas. 

Na lista de fatores apontados por Zysman para explicar essa pandemia, o quinto deles é velho conhecido nosso: as mudanças climáticas. “Em todas as modelagens teóricas que fazemos sobre o tema, há alertas de desequilíbrios populacionais que favorecem pandemias. E isso já é falado há pelo menos 30 anos”, lembra.

O que fazer agora?

Estamos diante de uma situação complexa e sem precedentes. O momento é de conter a sobrecarga nos sistemas de saúde dos países afetados. E, ao mesmo tempo, fortalecer políticas públicas de ajuda a pessoas e empresas. Mas, e depois? Como evitar que surjam novas pandemias?

Para o epidemiologista Eliseu Waldman, precisaremos ter mais cuidado com a exposição a animais silvestres, o que inclui, por exemplo, a venda de animais vivos. Repensar a forma como o homem vem explorando a fauna e a flora é mais do que urgente. 

 “Também será necessário um sistema de saúde bem organizado e universal, que inclua um serviço de pesquisa e inteligência capaz de rastrear e monitorar novos eventos e surtos”, afirma.

Outro ponto importante, segundo ele, é desenvolver políticas industriais para garantir a segurança sanitária dos países. “É preciso dar respostas rápidas, ter condições de produzir internamente testes, insumos de pesquisa, remédios e vacinas. E com autonomia, sem depender de produtos importados”, diz. Para isso, inclusive, é preciso investir em ciência, em pesquisas, em vez de seguir cortando verbas para essas áreas que são essenciais especialmente nesses períodos.

É hora de repensar a relação do homem com a Terra

Na visão de Zysman Neiman, prevenir outras pandemias requer combater as causas do problema. “Não dá para imaginar que acabaremos com as pandemias se continuarmos nessa relação de depredação do meio ambiente. Precisamos repensar os sistemas econômicos, a globalização, as cidades, enfim, toda a civilização humana. E mexer com modelos que não cabem mais no planeta”, defende Neiman.

Ele lembra que isso não significa, entretanto, jogar fora séculos de desenvolvimento tecnológico e voltar à Idade da Pedra. “Pelo contrário, as soluções já estão aí e agora essa situação de pandemia, que começa a mostrar sinais de caos e colapso de alguns paradigmas da civilização, pode pressionar o sistema de tal modo que seja inevitável transformá-lo profundamente”, avalia.

Assim, imaginar que vamos “voltar ao normal”, digamos assim, é algo que muitos especialistas já dão como improvável. Além disso, um novo mundo está por vir. Seja por meio de novos hábitos, seja por novos jeitos de se relacionar com as pessoas, com o trabalho, com a natureza. Estamos à beira de uma revolução, que não sabemos muito bem como será. Mas é necessário dar o primeiro passo. Ajudá-lo a nascer, acreditando que uma reconexão amorosa com a natureza é agora, mais do que tudo, fundamental para todos. ▲

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