Agricultura Sintrópica: Sabedoria da Natureza

Nesse sistema, árvores e plantas de diferentes espécies se integram numa mesma plantação com zero uso de fertilizantes e de agrotóxicos – e ainda regeneram a terra
6 minutos de leitura

Plantas que se ajudam e, juntas, recuperam o ambiente, melhorando a terra, devolvendo água às nascentes perdidas e culminando na abundância de alimentos mais saborosos, sem usar fertilizantes ou agrotóxicos. Esta é a síntese da agricultura sintrópica, um sistema de agricultura tão bonito de se ver quanto eficaz na colheita. 

O método foi sistematizado pelo suíço Ernest Götsch, radicado no Brasil desde a década de 1970, e segue a lógica de juntar em vez de separar espécies da natureza. 

Observando a floresta, Ernest percebeu que, quanto mais complexa a combinação das plantas (altas, médias, baixas, rasteiras), melhor. Mais fotossíntese, maior a cobertura do solo e maior garantia de que tudo vai dar certo. A biodiversidade faz o sistema trabalhar em conjunto gerando seu próprio adubo, enriquecendo a terra e aumentando a produtividade.

Agricultura Sintrópica: do simples ao complexo

Sintropia é aquilo que vai do simples para o complexo em um ciclo virtuoso, respeitando uma certa sucessão natural.  É aí que fica mais claro como uma planta auxilia a outra.

“Na floresta, quando uma árvore mais antiga cai, abre-se uma clareira e o Sol estimula o crescimento de novas plantas. As mais herbáceas surgem primeiro, modificando o solo que fica receptivo a outras plantas secundárias, que vão criar condições para que venham outras espécies de porte maior. E assim sucessivamente até que a floresta se refaça”, explica o agricultor André Ceverny, discípulo de Ernest e fundador do Instituto Caaeté, em Santo Antonio do Pinhal, interior paulista. 

“A agricultura sintrópica tenta imitar isso, só que ocupando todas as alturas para otimizar o processo. Na prática, o que fazemos é plantar  todas as espécies – de diferentes estágios dessa regeneração – ao mesmo tempo”, explica André. 

Exemplo: a noz pecã precisa de 100% de Sol. Ou seja, precisa ser a mais alta do grupo porque tem que estar por cima de todo mundo – é uma planta de estrato alto. Ela pode fazer sombra para a laranja, que precisa de 60% de luz (extrato médio). A laranja por sua vez pode fazer sombra para o abacaxi e a batata doce, que são de estrato baixo e ficam muito felizes sem Sol algum. 

Na agricultura sintrópica, todas as plantas vivem juntas e se ajudam

Agricultura que regenera o solo

“Embora baseada em princípios muito profundos, a técnica é simples”, afirma a agricultora Karin Hanzi, do Epicentro Dalva, na divisa de Pedra Bela, São Paulo, com Toledo, Minas Gerais. “Há um cálculo que permite saber a quantidade de luz que cada planta precisa. Então, você espaça as plantas de acordo com essa necessidade. Seguindo essa ordem, o agricultor acaba funcionando como uma “enzima” que acelera a recuperação do ecossistema. Em 2 anos acontece uma regeneração que só seria possível, naturalmente, em 20 anos”, afirma a especialista que também se formou com Ernest e hoje transmite a mesma sensibilidade para novos agricultores.

Karin aprendeu muito com Ernest, a vida toda. Mas é essa percepção de que o ser humano pode ser oportuno para a recuperação da floresta o que mais a comove. “Fazer o que é necessário no momento é o que vai nos dar mais alegria. A terra é um meio de praticar isso. E o retorno é tão rápido e tão importante”.

Diferenciais desse modo de cultivo

Há outros consórcios na agricultura, mas em geral, são de dois ou um pouco mais espécies. Milho e mandioca, por exemplo, é um clássico. Nada parecido com o leque de inclusões proposto aqui.

Nas terras do Instituto Caaeté, floresta e plantas se comunicam o tempo todo. O desenho obedece um intervalo de 70 cm entre as espécies, que se alternam assim: bananeira, atemoia, bananeira de novo, limão siciliano. E entre eles urucum, candeia, mamonas, feijão azuki, milho, mandioca. Uma rúcula de vez em quando.

A bananeira tem muito potássio e, como absorve muita água no caule, serve de reservatório auxiliar para as mudas ao redor na época da seca. 

“O feijão azuki e o milho, depois da colheita, podem ser podados e essa matéria ser incorporada ao solo, servindo de adubo”, sugere André.

Já a mandioca, bom, essa parece a queridinha não só do André, mas da Karin também. “Ela tem uma grande capacidade de descompactar o solo e libera muito hormônio do crescimento, o que afasta as formigas”, indica a agricultora.

O cardápio variado é uma vantagem do modelo de agricultura sintrópica

Qual é o benefício da agricultura sintrópica?

A vantagem de um cardápio tão variado vai para além da abundância na colheita, e do gosto dos alimentos. Sacia também o apetite do solo, que precisa de nutrientes diferentes para se manter saudável – na monocultura, a monotonia de nutrientes empobrece o solo com o tempo, daí precisar de mais fertilizante, mais agrotóxico para combater as pragas e ir erodindo, assoreando rios. ”Sem contar o compactamento da terra causado por máquinas que pesam toneladas, uma das consequências mais desastrosas para o sistema”, destaca Karin.

A inclusão permanente sugerida pela agricultura sintrópica – um dos exemplos mais éticos e bem acabados de agrofloresta – ainda traz uma reflexão estrutural: o solo não é um suporte inerte para as plantas. Ele é vida, é fluxo, e responde com vigor quando respeitado. Princípio que vale para uma fazenda, um sítio, uma horta. Se seremos 10 bilhões de habitantes até a metade do século, é melhor começar a regenerá-lo ao invés de castigá-lo. ▲