Você Conhece as Abelhas Sem Ferrão?

Entre as meliponini, ou abelhas sem ferrão, as jataís são as mais mansas e adaptadas à vida nas cidades, com um impacto importante para o ambiente. Mas, cuidado, quem se aproxima dessas pequeninas pode se apaixonar por elas para sempre
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Juliana Valentini ganhou seu primeiro enxame de abelhas sem ferrão de presente do marido, Flores, cerca de três anos atrás. Eram jataís. “Comecei a observar elas chegando com as perninhas cheias de pólen, voando pelo jardim, e me apaixonei. Fui identificando outras espécies que apareciam por aqui, comprei caixas diferentes para que elas também pudessem se abrigar e hoje tenho doze espécies para proteger e observar”, conta a educadora ambiental, que planeja criar um curso sobre essas abelhas na Escola Orgânica de Holambra.

O encantamento que Juliana descreve é lugar-comum entre as pessoas que se aproximam dessa espécie pequenina e mansa de abelha. Em Holambra, no interior de São Paulo, há uma campanha para que cada casa crie uma moradia para elas e a Embrapa preparou uma lista de plantas mais atraentes no projeto (agapanto, camarão, érica, erva-doce, girassol, Iris, ixora, lavanda e manacá da serra são algumas).

Acompanhando a vida das abelhas

“O legal da jataí é que podemos mexer nas caixas e ver tudo de perto. Aprendi, por exemplo, que elas guardam mel em potes, como se fossem dedais – diferente dos favos com alvéolos em formato hexagonal criados pela abelha africana, a apis mellifera. Quando o compartimento lota, elas fecham com uma cera bem fina”, conta Juliana. “Na primavera, dá para sugar esse mel com uma seringa. Mas nunca tudo, só metade – se não elas não têm estoque de alimento para o inverno”, informa.

As abelhas jataí não armazenam o mel em colmeias, mas em “potes”, como se fossem dedais. / Foto: Beeliving
O formato da entrada da colméia, feito com cera, é diferente em cada espécie. Essas são abelhas Jataí / Foto: Beeliving

Mel de jataí é um tesouro, superlimpinho, pronto para o consumo, mas longe de ser o motivo principal de se ter uma colmeia em casa. “Amo abelhas porque, para mim, elas são a chave da vida. Sem elas a gente não tem comida. Sem elas não existe polinização”, diz a jornalista Janaína Fidalgo, que acabou de adquirir uma caixa-isca para mandaçaias (outro tipo comum de abelhas sem ferrão) e logo terá jataís porque sua rua, em um bairro arborizado de São Paulo, está coalhada de iscas-ninho, um tipo de armadilha feita com garrafa PET e prevista pela legislação ambiental.

Bom para a cidade, bom para as abelhas

Existem mais de 22 mil espécies de abelhas descritas. Cerca de 600 são do tipo sem ferrão e, desses, 240 ocorrem no Brasil (temos a maior biodiversidade delas no mundo). Mandaçaia, Uruçu Amarela, Jandaíra, Manduri, Tiúba, são algumas das espécies que compõem essa riqueza da biodiversidade brasileira.

As abelhas sem ferrão perderam a capacidade de ferroar ao longo de sua evolução, desenvolvendo outras formas de defesa, como mordiscar, enrolar os cabelos, entre outros, afastando, assim, quem as chatear ou atacar. 

“As jataís acabaram se tornando o símbolo dessas espécies no Brasil porque ocorrem em todo o território nacional, são as mais mansas e porque se adaptaram bem aos ambientes urbanos”, explica o entomologista e pesquisador da Embrapa Cristiano Menezes, especialista nesses insetos pacíficos.

Segundo ele, pode-se dizer que a cidade faz bem para a jataí e a jataí faz bem para a cidade. “Por causa das estruturas que oferecemos – postes, morões de cerca, cavidades de paredes e as próprias iscas-ninho ou caixas – as abelhas têm onde se abrigar. Pois o oco da natureza, nas madeiras, por exemplo, são um recurso raro, disputado por formigas e aranhas também”, conta Cristiano.

Novas moradias para as abelhas

“Quando se distribuem iscas pelas árvores ou postes de rua não estamos aprisionando o inseto, mas dando uma opção de moradia”, informa o profissional. “A abelha não vai deixar sua própria colmeia para ir morar lá. A caixa ou isca será um lugar possível para criar uma colônia filha e aumentar a população”, explica ele. 

Tê-las por perto, em casa, na opinião do ecólogo Jerônimo Villas-Bôas, autor do Manual Tecnológico Mel de Abelhas sem Ferrão, gera pouco impacto para a sobrevivência das espécies frente à mortandade causada pelo desmatamento, que destrói seus habitats naturais, pela monocultura, que restringe a diversidade e a abundância das flores, e pelo uso de agrotóxicos, que envenena e extermina populações deste inseto. Mas é interessante e desejável. 

“O maior benefício é que se incentiva as pessoas a ter um contato maior com os insetos, a consciência do processo de polinização, a relação disso com os alimentos que se consome e, claro, se incentiva uma conexão com aqueles que estão produzindo colônias no meio rural”, frisa ele. 

Sem contar que as hortas ficam mais fartas, as flores se multiplicam melhor, pitangueiras e jabuticabeiras carregam mais e seus frutos ganham em suculência pelo trabalho de polinização de flor em flor.

Um meliponário é um conjunto de colmeias de abelhas sem ferrão de várias espécies | Foto: Beeliving

Como atraí-las para perto

Meliponicultura é o nome que se dá para a criação das abelhas sem ferrão. O primeiro e principal cuidado é a aquisição de colônias criadas por métodos sustentáveis. “Nunca retire abelhas de seu hábitat natural ou compre de produtores que praticam essa extração direta. É preciso fazer um ninho-isca ou comprar de produtores que o façam”, alerta Jerônimo. 

“Você também precisa se informar, acessar internet, livros, se preparar para receber os insetos. Afinal, trata-se de um ser vivo”, frisa o ecólogo. “Outro ponto de atenção é quando existe o fumacê da dengue. É importante fechar a colmeia à noite (quando as abelhas voltam para casa) e transferir a caixa de lugar por pelo menos dois dias, tempo que elas aguentam ficar presas e suficiente para o ‘veneno’ se dissipar no ambiente.”

Mora em apartamento? Preste atenção:

Para quem mora em apartamentos, um aviso: não são todas as abelhas que se desenvolvem em locais muito altos. É raro “subirem” até o oitavo andar. E nada de colocar o enxame em varanda fechada ou perto da passagem das pessoas. 

Se não for possível ter uma colmeia, “plante” para as abelhas. Escolha árvores nativas, melíferas e flores com sementes como o girassol normal, ao invés do estéril, que é bonito apenas para os olhos. “Fazendo isso você vai ter as abelhas da vizinhança visitando seu jardim”, garante Cristiano.

Colméia de abelhas Mandaçaia, uma das diversas espécies sem ferrão

Ajude a preservar as abelhas 

Conheça criadores responsáveis, caso queira ter as abelhas por perto

Beeliving – Além de vender as caixas com as colônias e darem todo o suporte para o cuidado com as abelhas sem ferrão (projeto Poliniza), oferecem o mel de várias espécies e biomas brasileiros, além de outros produtos como o própolis, paninhos de cera, em uma troca de amor e respeito às abelhas: beeliving.com.br e @beelivingmel

SOS Abelhas sem Ferrão – O site oferece desde uma lista de meliponicultores  sérios, até caixas, iscas e atrativos para você mesmo ter um enxame em casa, com informações didáticas para o manejo. Também é possível saber como se tornar um guardião das abelhas sem ferrão: sosabelhassemferrao.com.br

Agradecimento a Beeliving pelas imagens cedidas ao YAM