A Água que Você Bebe é Pura?

Estudos apontam a presença de componentes como agrotóxicos e outros elementos na água que chega à nossa casa; saiba o que fazer 
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Essencial para a vida na Terra, a água que chega até a nossa casa pode, no entanto, não ser tão pura para consumo. No ano passado, dois estudos importantes revelaram que o líquido que desce pelas nossas torneiras pode até parecer incolor, insípido e inodoro, mas está carregado de componentes que podem ser prejudiciais para a nossa saúde: desde agrotóxicos até cocaína.

O primeiro levantamento apontou para a contaminação da água de todo país, segundo dados de controle do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), ligado ao Ministério da Saúde. 

Com base nesses dados, as agências de jornalismo brasileiras Repórter Brasil e Agência Pública, em parceria com a organização suíça Public Eye, criaram um mapa que aponta a concentração de agrotóxicos na água da torneira de 2.300 cidades. Isso significa que um a cada quatro municípios brasileiros carrega em suas águas substâncias indesejadas.

Nossa água está contaminada

Na capital paulista e em outros 1.395 municípios, entre 2014 e 2017,  foram identificados 27 tipos de agrotóxicos . E pior: 21 deles já foram proibidos na União Europeia e 16 são classificados como altamente tóxicos pela Anvisa. E dez já não são mais comercializados no Brasil – mas, ao que parece, ainda podem ser encontrados em nossas águas.

Já outra pesquisa do Instituto de Química da Universidade de Campinas (Unicamp) encontrou 58 substâncias nas águas de rios, esgotos e nas que chegam à nossa casa. Entre elas, além de agrotóxicos, estavam presentes cosméticos, hormônios, medicamentos, produtos de higiene pessoal e até drogas como cocaína.

E qual o impacto do que estamos bebendo?

As concentrações encontradas pelos pesquisadores da Unicamp eram mínimas, e no levantamento feito pela Agência Pública e Repórter Brasil elas estavam dentro da lei permitida. Assim, em tese, seriam insuficientes para causar algum mal imediato em quem bebe dessas águas.

No entanto, a posição é controversa e o que se discute é sobre o risco de se expor a pequenas concentrações ao longo da vida – e qual poderia ser o impacto disso na nossa saúde, especialmente no sistema endócrino e imunológico. Além, é claro, de algum risco potencial para o câncer. 

Presença de microplásticos na água

A contaminação da água também foi levantada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2019. Depois de publicar uma análise de pesquisas atuais sobre microplásticos em água potável, a OMS pediu uma avaliação adicional desses materiais no meio ambiente e de seu potencial impacto na saúde.

Na época, Maria Neira, diretora de Saúde Pública, Determinantes Ambientais e Sociais da Saúde da OMS, disse em reportagem no site da organização: “Com base nas informações limitadas que temos, os microplásticos na água potável não parecem representar um risco para a saúde nos níveis atuais, mas precisamos descobrir mais.”

A questão é que o intenso uso do plástico e o descarte inadequado no meio ambiente está fazendo com que ele chegue até as nossas águas – além de oferecer risco à vida marinha.

“Precisamos cuidar dos nossos rios, reconstruir nossas relações com a água e lembrar que ela é sagrada. Temos muito trabalho pela frente, que pede a mobilização do coletivo, a fim de gerar políticas públicas que tragam impactos socioambientais positivos”, reforça Vitor Tonzar Chaves, mestre em engenharia ambiental e sanitária.

O que você pode fazer

Além de buscar informações e monitorar as autoridades do seu município, cidade e estado responsáveis pelo saneamento, há algumas formas de garantir que a água que você consome em casa seja própria para consumo

Use filtro de barro ou cerâmica. Cheque se ele recebeu o selo de verificação do Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro). O filtro de barro é uma opção barata e acessível que não demanda gastos com energia elétrica. Estas alternativas podem ser usadas tanto para beber água quanto para lavar alimentos.

Repense o galão de água. Os galões geram mais poluentes por serem de plástico, demandam uma contínua logística de compra e entrega, além de precisarem de uma prévia limpeza antes de serem posicionados para uso. Sem contar que o plástico pode liberar ativos químicos na água.

Limpe a caixa d’água. A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) recomenda a limpeza da caixa d’água a cada seis meses.

Fique de olho nas análises. Acompanhe os relatórios periódicos sobre a limpeza e o tratamento da água e use os canais de atendimento ao consumidor para fazer reclamações. Essas informações são públicas e devem estar disponíveis para a população.

Use detergentes biodegradáveis. Os produtos de limpeza comuns costumam ser poluentes das nossas águas. Você pode comprar opções biodegradáveis ou aprender a fazer o seus aqui, no Curso Yam de Sustentabilidade: Ecologia Profunda na Prática.

Priorize alimentos orgânicos. É um jeito de reduzir a exposição a agrotóxicos e a substâncias que, a longo prazo, podem ser prejudiciais à saúde. ▲