Cuide do seu Lixo. Não há o “Jogar Fora”

Do lixo orgânico ao plástico, os resíduos continuam no planeta. Cuidar do que jogamos fora é cuidar de nós e da Terra

9 minutos de leitura
18.10.2019

Há uma máxima antiga que o nosso lixo diz muito sobre nós. Em tempos de crises climáticas e de discussões calorosas sobre sustentabilidade, é mais fácil aceitarmos que, na verdade, é o que fazemos dos nossos resíduos que realmente revela sobre quem somos. 

O cenário não é dos mais favoráveis. Nós, brasileiros, estamos gerando mais resíduos e mais municípios enviando lixo para lixões. No entanto, a coleta seletiva não avança. Os dados são do Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, estudo realizado pela Associação Brasileira Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). 

Se antes a única pauta relacionada ao tema era separar o lixo reciclável, hoje é muito fácil saber o que cada grupo – orgânico, plástico, eletrônico – gera de impacto no meio ambiente.

Nunca fomos tão bombardeados com informação gratuita e acessível sobre o que fazer ou não com nosso lixo. Consumir comida, moda, beleza… Tudo gera resíduo. Do tipo seco, apenas 3% é reciclado. Todo resto, de uma maneira ou de outra, volta e impacta diretamente na crise climática.

Lixo deve ser visto com valor

“Lixo e descartáveis são a mesma coisa: devemos ver os resíduos como algo de valor, não descartando, mas cuidando para ser valorizado, reutilizado, compostado”, diz Mateus Peçanha, diretor de projetos do Instituto Lixo Zero Brasil. 

Em comum, tantos movimentos nos mostram o mesmo caminho: a responsabilidade é individual, mas a ação é coletiva. Uma das maiores iniciativas para mobilização e engajamento em busca de conscientização e sensibilização é a Semana Lixo Zero Brasil, que acontece no fim de outubro (em 2019, de 18 a 27/10).

“A semana lixo zero é um momento onde o Instituto Lixo Zero Brasil fomenta diversas instituições dos mais variados setores (comércio, universidade, gestão publica, indústria, supermercado, restaurante, condomínio, entre outros) para discutir sobre a temática, levando ações e intervenções para a cidade”, explica Peçanha. Esse ano a Semana Lixo Zero acontecerá em mais de 80 cidades no Brasil. 

Plástico: inimigo número 1

O plástico tem sido considerado o inimigo número 1 dos mares, e o Brasil colabora em peso (negativo!) nesse status: segundo um estudo recente do Fundo Mundial para a Natureza (WWF), somos o  4º maior produtor de lixo plástico do mundo, atrás apenas de Estados Unidos, China e Índia. Pior: somos quem menos recicla o plástico: apenas 1,2% do volume total ganha um novo objetivo.

Se não existe fora, nossas águas têm sido o principal depósito. Estima-se que, anualmente, são despejados nos oceanos cerca de 25 milhões de toneladas de resíduos sólidos. Difícil imaginar? Pense em um caminhão cheio de lixo sendo descarregado no mar a cada minuto. 

O lixo – sobretudo plástico – está saindo do status invisível e incomodando na areia. A caminhada da praia, para muitos grupos de ativistas, por exemplo, tem sido um ponto de ação anti-lixo.  Um bom exemplo é a Route Brasil, que inspira mutirões de limpeza em praias e idealizou o documentário “Uma gota”, que mostra o impacto do lixo nos oceanos pelo olhar do surfista Marcio Gerba. O coletivo Praia Limpa é outro movimento: nascido em Maceio, em 2018, também tem organizado mutirões pelas praias alagoanas.

Mas não é só plástico que polui nossas águas. O movimento Pegada do Bem recolheu 8.033 bitucas de cigarro, 498 pedaços de isopor, 152 pinos de cocaína e 256 tampinhas de metal e alumínio, em duas edições, nas praias cariocas da Barra da Tijuca e São Conrado, no final de 2018. O projeto da atriz Isabella Santoni e do surfista Caio Braz também inclui workshops e conversas para mobilizar a comunidade.

Compostagem: lixo orgânico que vira adubo

Além do alto consumo de materiais descartáveis e de plástico, que permanece por séculos (ou até milênios) no meio ambiente, o lixo orgânico quando mal cuidado também contamina a água e está intimamente ligado à crise climática.

O Brasil produz quase 37 milhões de toneladas desse tipo de lixo. Um mix de resíduos com potencial para se transformar de adubo até a gás combustível. No entanto, segundo dados da Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos, apenas 1% do descarte é reaproveitado. 

“Nós, enquanto indivíduos, precisamos ser auto-responsáveis pelo nosso lixo (resíduo) doméstico. Quando misturamos os recicláveis, orgânicos e rejeito e mandamos tudo para os aterros sanitários, contribuímos para um modelo ineficiente e que gera custos altíssimos, tanto econômicos quanto sociais e ambientais”, diz a bióloga Mariana Pinto, do Pé de Feijão, iniciativa  que atua na educação alimentar e ambiental.

“A água dos resíduos orgânicos se desprende no processo de decomposição e vai carregando partículas tóxicas de outros resíduos formando o chorume, que pode contaminar o solo e a água de lençóis freáticos, sobretudo quando gerado nos lixões”, explica Marina.

Segundo o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), a decomposição desses resíduos no ambiente gera gás metano, com potencial de aquecimento global 25 vezes maior comparado ao dióxido de carbono, liberado na queima de combustíveis ou queimadas, por exemplo.

Neste sentido, a compostagem tem um papel revolucionário, pois os resíduos orgânicos voltam para um ciclo virtuoso da matéria, se tornando adubo e nutrindo o solo, além de evitar a emissão de gases do efeito estufa gerados quando vão para o aterro.

“Assim, fechamos um ciclo: nossos os restos de comida se transformam num composto orgânico extremamente rico que volta para a terra. O que era um problema se torna solução. O composto orgânico regenera a fertilidade e a vida do solo, criando condições para que as plantas sejam mais saudáveis e resistentes. Além disso, não dependemos de transporte para destinar nosso lixo de um lugar ao outro”, explica Mariana.

A compostagem pode ser feita por todos: de empresas privadas, passando pelas versões coletivas, de bairros e comunidades, até as domésticas, em apartamentos.

Há um lixo quase invisível

É comum pensarmos mais no que descartamos no fluxo efêmero, como comer um pacote de biscoito e jogar fora a embalagem. Mas nossa rotina de consumo é muito mais nociva do que pensamos, e produtos que unem valor e uso aparentemente à longo prazo também podem prejudicar o meio-ambiente. Pense, por exemplo, na moda, a indústria dos desperdícios. 

“Mesmo com processos de modelagem inteligentes, no geral, cerca de 20% a 30% de tecido é descartado no processo de corte de uma peça. Uma volta no Bom Retiro, bairro paulista com uma das maiores concentrações de confecções do país, é capaz de abrir os olhos de qualquer um sobre o quanto de matéria-prima é descartada diariamente pela indústria de confecção”, afirma a designer e consultora de moda sustentável, Marina Colerato, da Futura Moda.

A indústria da beleza também tem sido grande responsável pela geração de lixo no dia a dia. Além do volume de embalagens fruto de um consumo excessivo de produtos, as fórmulas também trazem ingredientes tóxicos e nocivos à natureza. Vale destacar as microesferas de plástico, minúsculas bolinhas produzidas a partir de alguns tipos de materiais naturais ou sintéticos. Em 2016, o então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, assinou um projeto de lei que  proibiu o uso desse ingrediente em itens de cuidados pessoais. 

Além disso, produtos cosméticos da indústria convencional, como hidratantes, óleos corporais e até cosméticos para bebês podem conter o petrolatum, que é obtido do petróleo bruto – é, literalmente, uma geleia de petróleo. Um ingrediente barato que a grande indústria cosmética usa para dar aos seus produtos a função emoliente.

“Derivados de petrolatos não são solúveis em água. Portanto, não são biodegradáveis; estão ligados a uma poluição invisível que agride a vida marinha”, diz a dermatologista Patrícia Silveira que, em parceria com o perfil @anaturalissima, faz a série #listatoxicadabeleza, onde falam do impacto dos ingredientes dos cosméticos na saúde e no meio ambiente.

Consumir sim, mas sem gerar lixo

Ativista do movimento lixo zero, a bióloga e empreendedora Lívia Humaire conheceu, nos últimos anos, mais de 35 estabelecimentos de consumo – de produtos a informação –  que seguem o conceito.

Movida por deixar um mundo mais limpo para a filha, hoje com 12 anos, há dois ela resolveu investir na causa e fundou a Mapeei – Uma Vida Sem Plástico, a primeira loja lixo zero do País.

Composteiras, garrafas reutilizáveis, cosméticos orgânicos sem embalagens, escovas de dentes de bambu, canudos de vidro e inox, kits de talheres para comer na rua, guardanapos de pano, absorventes de tecido, entre outros produtos sem embalagens plásticas, são encontrados por lá.

Mas a venda vai além de consumo.  “O objetivo maior é disseminar o conceito. Então a pessoa chega querendo três itens, e explicamos que apenas um pode resolver a questão dela. O negócio precisa ser sustentável também na ética”, diz Lívia.

Entre lixos visíveis, invisíveis e aparentemente não tão nocivos, temos algumas certezas: a responsabilidade é nossa. E um olhar atento e constante vai refinando a nossa percepção sobre o que compramos e descartamos. Porque, mesmo com tanta tecnologia espacial, realmente não existe o jogar fora. ▲

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