Por uma Cidade mais Humana

Quem mora nos centros urbanos sente, cada vez mais, que precisa lançar um olhar de gentileza e cuidado para que as cidades se tornem mais acolhedoras
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A vontade do jovem Guilherme Moro, que vive no bairro Bacacheri, em Curitiba, era criar uma horta comunitária para integrar seus vizinhos. Um deles, Leônidas Harger, queria montar uma bicicletaria – e tinha um terreno na região. Então, juntaram as ideias para uma cidade mais humana e, de amigos, viraram sócios de um lugar autêntico, de clima familiar e colaborativo, o aHorta Bike Café.

Lá não tem muro, não tem grade e todos podem usar a horta. “Os canteiros são livres para cada pessoa cuidar, colher ou plantar o que quiser. A ideia é trabalhar com o senso de responsabilidade e o espírito de coletividade”, explica Guilherme. Hoje, além da horta, da bicicletaria e do café, há salas para cursos como ioga e dança e descontos para quem vai de bicicleta.

Uma cidade mais humana é reflexo de nós

Iniciativas como essas, pensadas para o bem estar das pessoas, deixam a paisagem urbana mais amigável e o quarteirão mais gostoso para passear, um convite para pedestres e ciclistas. De quebra, com tanta gente circulando ali, ganha-se um pouco mais da desejável segurança – sem precisar isolar ninguém. “As cidades são reflexo das ações das pessoas que ali vivem. E cada cidadão é responsável pela humanidade dos espaços”, diz o arquiteto e urbanista Breno Luiz Miguel.

Melhorar o que está ao nosso alcance com medidas privadas, como a do café em Curitiba ou consertando o muro da sua própria casa, por exemplo, plantando flores no canteiro ou na janela, são ações que colaboram para a saúde da cidade. Mas não podemos deixar de pensar nas nossas atitudes diante das ruas e dos espaços públicos também.

De acordo com Breno, limpeza urbana, respeito às leis de trânsito e convivência social é papel central das pessoas que ocupam, moram, trabalham, educam e brincam nesses locais. “A humanidade das cidades passa pela cultura de zeladoria com o que é de todos, sem perder de vista a importância de cada um”. As praças, por exemplo, são espaços públicos para lazer, que precisam ser incentivadas também pelo poder público. “No entanto, muitas não cumprem sua função, seja por infraestrutura ultrapassada, seja pela ausência de uma comunidade que zele e se conecte com elas”, diz.

Este é um problema que também se relaciona com o planejamento urbano de mobilidade feito nas últimas décadas do século passado. Para o urbanista dinamarquês Jan Gehl, autor do livro Cidades para Pessoas, um dos mais lidos por quem estuda o tema na atualidade, durante 50 anos o planejamento urbano foi apoiado pelo automobilismo e feito para carros nos levarem de um lugar a outro. E, agora, percebemos que isso gerou um grande problema para a saúde tanto das pessoas, que vivem sentadas, quanto das cidades, que vivem congestionadas.

Reocupar a cidade para transformá-la

A boa notícia é que, desde os anos 2000, vemos uma mudança acontecendo nas ruas, nas praças, nas escolas e até nos condomínios das grandes metrópoles. Então, aos poucos, a pressa, o estresse e o isolamento têm dado lugar ao afeto, ao senso de pertencimento e à reocupação de espaços públicos e democráticos. “Por isso, há diversos movimentos atuando localmente e globalmente, compartilhando suas experiências e resultados”, conta Breno.

O projeto Acupuntura Urbana é um bom exemplo disso. Fundado em 2012 em São Paulo, ele incentiva a ocupação e a transformação de locais públicos a partir das próprias pessoas que vão usufruir (e cuidar) daquele espaço no dia a dia.

“O mundo está vivendo um momento em que todos querem se sentir úteis e descobrir seus propósitos”, diz uma das fundadoras, Renata Minerbo Strengerowski. Sua missão é envolver vários setores (comunidades, instituições, empresas e poder público) para repensar a atuação de cada um na sociedade. “Pois o poder público já percebeu que, sozinho, não dá conta de deixar a cidade como a gente merece”.

Estar visível e comunicável no nosso entorno, aliás, é essencial para produzirmos cidades mais humanas e confiantes. “Largar mão do carro e fortalecer os comércios locais cria referências de caminhadas, promove encontros e aproxima a vizinhança”, diz o arquiteto.

E o raciocínio aqui é simples: quando há pessoas nos espaços, há também realização. E se quiser simplificar ainda mais o pensamento, Breno dá a receita para a revolução: “um par de cadeiras na praça, um balde e crianças são potentes nesse sentido”.

Leia sobre o que são Ecovilas e como é viver em uma comunidade sustentável.

Prédios que perturbam a paisagem

“Você praça, acho graça. Você prédio, acho tédio”. É comum encontrar essa frase estampada pelos muros de São Paulo. Isso porque ela faz parte de uma ação poética que expressa claramente um protesto contra a construção de prédios e mais prédios pelas ruas da cidade.

É que, para muitas pessoas, os edifícios perturbam a paisagem, aumentam o isolamento dos cidadãos e prejudicam o trânsito. Faz sentido, afinal, quase tudo foi construído de forma descontrolada nas últimas décadas, com a mesma cara e sem muita atenção à arquitetura e às questões sociais – desconsiderando a relação com a vizinhança e sua gente.

Porém, como lidar, então, com a população das metrópoles, que não para de crescer? Será que o setor imobiliário sempre deixará um legado ruim para as cidades? Para Natália Garcia, do projeto Cidades para Pessoas, que investiga, interpreta e experimenta ideias para deixar as cidades mais humanas, não precisa ser sempre assim.

“Se mais pessoas pudessem decidir sobre o que vai e o que não vai ser construído nas cidades, talvez a atuação deste setor fosse mais interessante”, disse ela durante o TEDxfloripa, onde apresentou uma plataforma americana chamada Fundrise.

Nela, qualquer pessoa, mesmo com apenas 100 dólares, pode ajudar a financiar um investimento no seu bairro, como um café ou um prédio que lhe faça sentido. “Com os financiadores em pequena escala, os de grande escala se sentem mais seguros para investir, afinal, as pessoas que moram ali estão querendo aquilo. E, ao mesmo tempo, se sentem donas da sua cidade”, explica Natália.

Soluções coletivas para uma cidade mais humana

Claro que essas ações isoladas não resolvem em absoluto a questão do legado imobiliário, do trânsito, da limpeza, da nossa relação com a cidade. “Mas é um caminho e um passo em direção da democratização sobre o que é feito e construído nas ruas”.

Afinal, uma cidade mais humana depende de todos nós – e o desejo de viver em espaços mais .

Este trabalho de formiguinha, aliás, é justamente a proposta do Formiga-me, uma plataforma de conteúdo e de projetos feita por pessoas que acreditam no poder da multiplicação que as pequenas ações de cuidado têm para tornar a cidade um espaço mais acolhedor.

Em outras palavras: cuidado gera cuidado, assim como falta de zelo gera destruição. Uma dinâmica poderosa e que expande para todo lugar, seja na rua, na cidade e dentro da gente. ▲

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