Como é Viver em uma Ecovila

Embora existam diferentes modelos e propósitos para a criação dessa comunidade, em geral, ela se destaca pelo desejo de gerar o menor impacto ambiental e o máximo de ajuda mútua possível. A questão é: estamos preparados para compartilhar desse sonho coletivo?
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22.11.2019

Imagine um tempo em que o ciclo natural das coisas era respeitado; as pessoas alimentavam-se apenas de produtos orgânicos e pouco ou nada poluíam. Então, viaje para um futuro de convívio harmônico com a natureza, com lixo zero, economia colaborativa, menos desigualdade social. Entre aquele lugar no passado e esse futuro distante há quem opte por viver um dia a dia de consciência ambiental e de mais tolerância agora – morando em uma ecovila.

Consideradas uma das 100 melhores práticas para o desenvolvimento sustentável pela ONU, esses assentamentos humanos, comumente localizados em área rural – onde a terra é mais barata e o manejo dos recursos pode ser feito com mais autonomia –, são uma forma prática de sair do discurso e assumir concretamente uma parcela de responsabilidade pelos cuidados do planeta.

O que exatamente é uma ecovila?

“Embora existam muitas definições e motivações para se formar uma ecovila, stricto sensu ela se caracteriza por um grupo de pessoas de classe média que se une para comprar um terreno e construir uma comunidade sustentável. Lembrando: sustentar significa criar um sistema que se autoalimenta sem gerar resíduos que vão minar o próprio sistema”, elucida Maria Accioly Dias, doutora em Ecologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisadora de ecovilas – aliás, está criando a sua própria, em Friburgo.

O sentido dessa comunidade, portanto, é justo e bom porque vem carregado de um ideal: transformar o mundo para melhor.

Só não se pode generalizar a razão pela qual uma pessoa opta por essa moradia. As intenções variam bastante. “Pode ser uma cola, como costumam dizer os moradores, mais espiritual, como acontece em Auroville, na Índia, criada em torno do guru Sri Aurobindo. Pode ser uma cola principalmente ambiental, como é o caso da famosa Findhorn, no norte da Escócia. Ou pode ser ainda uma mescla das duas coisas, como é típico em Tamera, Portugal”, exemplifica Maria Accioly.

Um dado interessante é que a “cola” espiritual parece ser o aglutinador de maior número de pessoas e capaz de manter a comunidade unida por mais tempo.

Há ainda o desejo de escapismo das metrópoles, a necessidade de uma vida mais natural, simples e calma, como aconteceu nos princípios da Clareando, de Piracaia, interior de São Paulo.

EcConstrução sustnetável na ecovila Clareando, em Piracaia – SP / Foto: Ruifo @Flickr
Cultivo de alimentos locais e orgânicos é prática comum nas ecovilas / Foto: Pexels

Um estilo de vida responsável

Não importam os propósitos para sua criação. O estilo “ecovila” parte da melhor premissa: a responsabilidade nas ações a fim de dar continuidade temporal ao meio ambiente e às pessoas.

Por isso, para começar, o cultivo de alimentos locais não pode ter agrotóxicos ou defensivos agrícolas, o tratamento de águas é crucial para não contaminar o solo e o lençol freático e a preocupação em construir casas de baixo impacto ambiental deve prevalecer – sendo desejável incluir matérias-primas como bambu, barro e pedras; pensar na captação de água das chuvas para reservatórios que irão servir de fonte para molhar jardins e lavar roupas; e optar por painéis solares que ajudarão a trazer energia limpa.

Claro, este espaço ainda pressupõe uma “vida comunitária”, com distribuição de tarefas e compartilhamento de obrigações e prazeres.

Tomas Ahau, especialista em permacultura e morador da ecovila Guabaré, em Pirenópolis, GO, é um adicto deste estilo de vida. “Pelo simples fato de existir, a ecovila já cria um impacto bom ao redor. Vira uma referência para quem tem dúvidas sobre sustentabilidade e, por causa dos cursos e oficinas que oferecemos, pode inspirar e multiplicar conhecimentos a respeito de permacultura, bioconstrução, saneamento ecológico”, informa.  “Além de dar emprego aos moradores da região. Seja o arquiteto, seja o pedreiro, seja a nutricionista, seja a diarista.”

Os desafios de viver em ecovila

Acontece que nem tudo são flores, alimentos orgânicos e harmonia. A matriz de uma ecovila é o ser humano, que é complexo. E aí o bicho pega.

“A maior parte dos projetos não vai para frente por dificuldades financeiras e conflitos interpessoais”, avisa Maria Accioly.  “Mas dificuldades financeiras podem ser contornadas. O que é mais complicado mesmo é o relacionamento humano. Quando há um conflito, estamos acostumados a virar as costas e ir embora porque as pessoas não sabem conversar; então, discordam e se afastam. Só que em uma ecovila isso é mais complicado. Primeiro porque se investe muito de energia, tempo e dinheiro. Segundo porque, por princípio, não deve ser assim tão descartável um relacionamento humano”, detalha a ecóloga.

Giuliana Capello sabia de todos os bons motivos para viver em um assentamento assim. Jornalista, ela havia ido a Findhorn como parte das pesquisas para um livro acerca do tema e vira de perto os desafios e as delícias da vida em comunidade.

Na hora da decisão, falou mais alto sua busca por autonomia, o coração aberto para uma vida em grupo e escolheu com esmero uma ecovila no interior de São Paulo para morar.

“Lembro que uma das sensações mais prazerosas foi a de beber água da nascente da ecovila. Água que a gente mesmo cuidava, sem nenhuma dependência da Sabesp”, conta.

Uma reunião do ‘eco-condomínio’, no entanto, mostrou uma faceta até então desconhecida do grupo. “Minha primeira grande decepção foi durante um plebiscito para decidir sobre o porte de armas ali. Eu achava que uma ecovila era um lugar pacífico, que aquela pergunta não fazia o menor sentido. Mas, para meu espanto, o voto pelo porte de armas passou. Depois deste episódio vieram situações de machismo, falta de coerência em decisões ambientais e comecei a me desiludir”.

Não havia mais “cola” que a grudasse na comunidade e Giuliana saiu. Mudou para a área rural de outra cidade, nos arredores de uma fazenda em Campinas, onde cuida do manejo do lixo e da água, compra alimentos orgânicos dos produtores locais e, assim que puder, vai instalar painéis de energia solar.

 A vizinhança amigável convida Giuliana a sair todas as tardes para caminhar com a filha de 4 anos pelas calçadas cheias de árvores frutíferas do bairro.  A pequena já sabe qual é o pé das jabuticabas mais doces, onde estão as amoras, as pitangas, as acerolas, as goiabas, as uvaias, as mangas… Nestas férias, quando a família viajar, o vizinho já se prontificou a cuidar dos cachorros.

Para a ideia dar certo

O bairro ou a vila ecológica pode acolher ou excluir. Para não decepcionar, o que pretende ser uma ecovila precisa de uma cláusula pétrea no contrato coletivo que enfatize e elucide o respeito ao próximo, da mesma forma que recapitule os motivos pelos quais as pessoas decidiram se reunir lá.

Entendidas essas bases, os assentamentos comunitários são um modelo de vida relevante, porque, como afirma Maria Accioly Dias, se destaca pelo esforço de repensar a sustentabilidade em suas várias dimensões deixando o planeta em boas condições para o próximo inquilino: nossos filhos, sobrinhos, netos, bisnetos. ▲

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