A Mata Atlântica Renasce na Cidade

O plantio de vegetação nativa da mata brasileira resgata nossas árvores e preserva a biodiversidade

10 minutos de leitura
04.10.2019

Uma praça seca, cercada de concreto e plantada de lixo. Por muitos anos, essa foi a paisagem do Largo de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. Também conhecida como Largo da Batata por causa de seus comerciantes, a região começou a ganhar novos ares em 2010, com a chegada da estação Faria Lima do metrô. Na época, a área foi ampliada e reformada, mas recebeu apenas algumas árvores miúdas em canteiros esparsos e continuou sendo um lugar vazio de vida e cheio de entulhos. Nada digno para uma região antes tão arborizada, considerada pelos historiadores como o lugar onde nasceu, por volta de 1560, o primeiro bairro de São Paulo, morada de portugueses e indígenas num cenário – você pode imaginar – bem distante daquele pedaço de cidade tão cinza.

Mas, em 2017, a região viu brotar uma parte de sua verdadeira floresta, com as mesmas espécies que tanto atraíram índios, quilombolas e portugueses. Por baixo de uma grossa camada de solo ruim e muitos entulhos escondidos sob o concreto, uma potente retroescavadeira revelava uma terra preta, cheirosa e fértil, natural das margens do Rio Pinheiros e sepultada há mais de 300 anos pelo processo de urbanização da cidade. Depois de um intenso e delicado trabalho de mapeamento, limpeza e preparação do solo, a região estava pronta para receber a sua (velha) nova floresta.

Numa manhã de sol de maio daquele ano, 350 voluntários plantaram 400 mudas de 90 espécies da Mata Atlântica original da região, especialmente aquela que havia batizado o bairro: o pinheiro brasileiro. O trabalho, coordenado pelo botânico e ambientalista Ricardo Cardim, ainda é um caso atípico de paisagismo na cidade. Mas é, também, um caminho para salvar nossa vegetação nativa e nossa fauna, e ainda melhorar a qualidade de vida no meio urbano.

Nossa botânica não valorizada

O Brasil concentra a maior diversidade botânica do mundo. Segundo uma pesquisa divulgada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), o país tem mais de 46 mil espécies, entre plantas, algas e fungos, sendo 43% delas exclusivas do nosso território. Ainda assim, por aqui, “noventa por cento da vegetação usada para paisagismo e arborização é estrangeira”, avisa Cardim, que tem trabalhado contra essa corrente.

Para ele, até hoje a visão de paisagismo no país ainda está muito atrelada à topiaria francesa – técnica de jardinagem do século XVIII, que esculpe a vegetação criando desenhos e formas.

“O brasileiro continua com medo da sua natureza nativa. Ele ainda acha que vai encontrar cobras, aranhas, canibais, monstros imaginários, tudo aquilo que se dizia no passado.”

Para combater essa fixação pelos jardins arrumadinhos e enfeitados com vegetação estrangeira, ele inventou o que chama de “floresta de bolso”: espaços onde faz, de maneira aparentemente desordenada, o plantio de espécies nativas da mata brasileira, como o exemplo do Largo da Batata que você leu há pouco.

Com seu paisagismo ecológico, Cardim busca reproduzir a dinâmica natural da floresta tropical. As mudas são plantadas bem próximas umas das outras, na quantidade e combinação adequada para propiciar uma competição positiva. Assim, diferentes espécies se ajudam mutuamente a se desenvolver. “Dessa forma, a floresta cresce muito rápido porque cria áreas de sombra no chão, o que preserva a umidade e evita ervas daninhas. É um ciclo virtuoso que faz com que a vegetação cresça, por exemplo, oito metros em dois anos”, explica o botânico.

O resultado de suas florestas de bolso já pode ser visto em São Paulo, nas reinserções feitas pelo escritório de Ricardo, o Cardim: arquitetura paisagística. É justamente o caso do Largo da Batata, da floresta do Parque Cândido Portinari, da fachada do edifício Seed Gamaro, e até de algumas das caçambas da Vila Butantã. Em breve, as margens do Rio Pinheiros, que estão em processo de reflorestamento, também entrarão para essa lista.

Benefícios da (re)conexão com a nossa mata

As vantagens desse tipo de paisagismo são muitas. Quando as plantas crescem, esses bolsões de Mata Atlântica se comportam como uma reserva de serviços ambientais, aumentando a qualidade de vida e a saúde da população. “Elas diminuem a temperatura do ambiente, elevam a umidade do ar, filtram a poeira que os carros soltam, baixam o nível da poluição sonora, absorvem a água da chuva, amenizando as enchentes. E ainda atraem uma fauna que vai combater pragas urbanas exóticas, como baratas, cupins e pernilongos”, afirma Cardim. Além disso, trazem de volta espécies de aves nativas que reencontram nas árvores seu habitat natural.

Além do impacto ambiental, o botânico ressalta que a iniciativa também carrega uma mudança cultural. Segundo Cardim, nossa vegetação urbana é normalmente estrangeira e, considerando que mais de 80% da população brasileira vive hoje em cidades, “a floresta de bolso acaba sendo fundamental para ensinar e reconectar as pessoas com a importância do patrimônio natural que herdamos”, observa.

Para ele, as discussões ambientais ainda tratam de assuntos muito distantes da sociedade. Por isso, aproximar essas temáticas do nosso dia a dia pode ser uma poderosa ferramenta de educação ambiental. Quando crescem perto de uma floresta, por menor que seja, as pessoas tendem a desenvolver empatia pela vegetação e a se envolver mais na preservação da natureza. É aí que entram as florestas de bolso. Por serem normalmente criadas por meio de mutirões comunitários, elas intensificam o vínculo dos cidadãos com o meio ambiente.

O perigo das espécies estrangeiras

Nem todas as plantas, no entanto, têm esses impactos e nem toda espécie cultivada na cidade é benéfica para o ambiente. Não é à toa que Cardim optou pelo plantio de exemplares da mata nativa e não pelos reflorestamentos tradicionais. Segundo a ONU, as espécies invasoras exóticas representam a segunda maior causa de perda de biodiversidade do mundo. Vale saber que nem todas as espécies estrangeiras são invasoras, mas as que são dominam as nativas e geram um desequilíbrio ambiental. É o caso de plantas como a amoreira, de origem chinesa; a agave, mexicana; o jacarandá-mimoso, que veio da Argentina; e o fícus, asiático; todos muito comuns em áreas de mata nativa tropical. Um dos impactos disso, por exemplo, é que o domínio da vegetação exótica acaba afastando diversos pássaros e insetos que não encontram mais seu habitat e nem alimento. Por isso, replantar exemplares da mata original aumenta a possibilidade de vida desses animais.

Na maioria das áreas urbanas, porém, a criação das florestas de bolso não é um processo tão simples. “Para o plantio, recuperamos todo o solo, tiramos o lixo e colocamos matéria orgânica, em geral com o auxílio de máquinas específicas. Compramos mudas acima de um metro e sessenta, de grande qualidade e em grandes quantidades. Fazemos irrigação e usamos um produto que hidrata a terra. Assim, o plantio acaba ficando caro”, explica Cardim, que também pondera que esse processo pode, no entanto, sair mais barato que o metro quadrado de projetos de paisagismo convencionais.  E também vale ressaltar: a proposta das florestas de bolso não são de ordem meramente estética, mas de impacto real e duradouro tanto na fauna e flora nativa, quanto na qualidade de vida da população.

Pequenos plantios já fazem a diferença

Por enquanto, as florestas de Cardim estão sendo formadas em São Paulo, normalmente em terrenos maiores do que 15 m2, e são financiadas pela iniciativa privada – mas ações menores também têm sua importância. Para o botânico, qualquer espaço acima de dois m2 já pode fazer a diferença. “Nenhuma ação é pequena demais e nenhum espaço é pequeno demais”, ele diz.  Escolhendo espécies nativas para o cultivo, é possível criar miniflorestas em jardins e até mesmo em apartamentos.  Cuidar das árvores das calçadas, retirando o cimento do entorno de suas bases, e plantar vegetação nativa em sua região também são ações que ajudam a resgatar a nossa biodiversidade.

Entre as tantas espécies nativas de São Paulo que poderiam ser replantadas na cidade estão árvores de pequeno porte, como cambuci (de frutos saborosos que atraem a fauna e, mesmo sendo um símbolo da cidade, está quase em extinção), a jabuticabeira (que encanta pela beleza e pelos frutos), e o ipê-amarelo (cuja copa flori de amarelo no mês de agosto). Nas de médio porte há espécies como o cedro rosa, que cresce rápido, tapiá, com suas folhas peludas capazes de segurar a poluição e o barulho, e cambucá, de frutos saborosos e cascas descamantes muito bonitas. Já nas espécies de grande porte, há a árvore centenária copaíba, o jacarandá-paulista, com sua copa frondosa e bonita, e a peroba-rosa, em extinção nas florestas nativas, além de outras tantas opções.

Em São Paulo, por exemplo, a prefeitura estimula o plantio de árvores na cidade doando mudas a quem deseja arborizar sua calçada ou outra propriedade. Na Campanha Permanente de Incentivo à Arborização, cada pessoa recebe até cinco mudas, depois de uma análise do local aonde elas serão plantadas.  Quem quiser saber mais sobre quais plantas cultivar pode encontrar mais informações no blog de Ricardo Cardim, o Árvores em São Paulo. Ele também reproduz conteúdo sobre o assunto em seu Instagram e está escrevendo um livro, onde conta as descobertas que fez em 15 anos de pesquisas e dá dicas para quem quer se envolver com essa causa.

Para Cardim, o objetivo do paisagismo no Brasil deve ser a convivência harmônica entre a cidade moderna, cheia de construções de concreto, e nossa rica paisagem ancestral.

“Temos que tentar fazer todo o possível para reverter esse quadro de cidades sem verde ou com verde ‘estrangeiro’.”

“Temos que trabalhar para retomar nossa vegetação nativa”, completa ele. No fim, resgatar a nossa botânica é, em essência, preservar as formas de vida e também honrar a história que nos trouxe até aqui.


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Compartilhamos, neste pôster, três espécies nativas que podem ser plantadas na cidade. Elas trazem beleza às ruas e ajudam a equilibrar a fauna e a flora urbana.

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