Água: O que Fazer para Preservá-la

Podemos evitar desperdícios em casa e também ao fazer escolhas mais sustentáveis nos alimentos e até nas roupas

12 minutos de leitura
07.10.2019

É a água que sustenta toda a vida na Terra; ela nutre a natureza e a fauna e participa de todos os processos que acontecem no nosso corpo. Estamos embalados pela água antes mesmo de nascer; ainda na barriga, o líquido nos envolve, nos protege e nos prepara para respirar.  A natureza nos contempla com as águas que encontram as rochas e formam as cachoeiras, as gotas que despencam das nuvens e molham o chão, as ondas que quebram na praia.

No dia a dia essa dança invisível das águas pode passar despercebida, mas ela está ali, nutrindo a nós e ao planeta, ininterruptamente. Não haveria Terra sem água. E, bem, é claro que essa informação não é nova para nós. Mas a lembrança desse valor precisa guiar nossas decisões para preservar essa fonte de vida que não é inesgotável.

De toda a água existente na Terra, apenas 1% está disponível para o nosso consumo.  Hoje, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU) divulgados no final de março de 2019, mais de dois bilhões de pessoas no mundo já vivem em países que sofrem com a falta de água. Enquanto isso, o uso desse líquido tem crescido cerca de 1% ao ano desde a década de 1980.

É que, além do nosso consumo diário, tudo o que é produzido necessita de água: alimentos, roupas, automóveis e até produtos eletrônicos. Uma folha de papel branco, por exemplo, precisa de 10 litros em sua produção; já a montagem de um único carro demanda 400 mil litros desse líquido. Ao mesmo tempo, também, há muito desperdício: no processo brasileiro de distribuição para as casas, por exemplo, existe 38% de perda de água potável.

Por isso, entender a dinâmica do consumo de água nos traz uma visão mais ampla do uso desse recurso para além do que vemos no dia a dia. E nos permite, principalmente, refletir sobre estratégias possíveis e melhores escolhas que gerem menos impacto no planeta. É sobre esses caminhos que vamos percorrer juntos ao longo desta reportagem. Sim, é possível fazer a diferença.

Para onde a água vai: a questão do agronegócio

Hoje, o rastro que deixamos ao consumir água direta ou indiretamente pode ser medido e é chamado de pegada hídrica. Segundo dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), 70% da pegada hídrica mundial está vinculada à agricultura, principalmente na produção e exportação de produtos. O setor industrial é responsável por 22% e o consumo em residências, serviços e hospitais corresponde a 8%, em média, ao redor do mundo.

No Brasil, o terceiro maior exportador agrícola, essa pegada hídrica chega a 72%, segundo a Agência Nacional de Águas (ANA). Por aqui, já se sabe: há mais cabeças de gado do que população humana. E, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o agronegócio é responsável por 56,5% da coleta total de água dos sistemas hídricos do nosso país. Essa avalanche de números parece nos deixar um tanto perdidos e assustados. Mas, com calma, esses dados nos ajudam a entender a dimensão do problema e a necessidade em agir.

O imenso uso de água pelo agronegócio acontece porque, em todo o mundo, uma grande parte das colheitas não segue diretamente para a mesa da população, mas é destinada à alimentação de animais, que depois serão consumidos pelos humanos. Para cada quilo de carne bovina, por exemplo, é preciso 15.450 mil litros de água, enquanto um quilo de tomate necessita de 214 litros. Produzir um quilo de soja, um dos principais alimentos para engordar o gado, demanda 1.800 litros.

Boas escolhas reduzem desperdício

Mesfin Mekonnen é um pesquisador etíope que estuda o impacto das interações humanas e do uso de recursos de água. Segundo ele, é nosso papel entender o vínculo que temos com os frutos do agronegócio, informar-nos sobre a origem do que consumimos e compreender o impacto da cadeia de produção. “Na maioria dos casos, as pessoas não têm ideia de como suas decisões de consumo afetam lugares distantes, muitas vezes causando crises hídricas”, explica Mekonnen.

A questão é que, se ainda temos pouquíssimo controle sobre a forma como a indústria tem produzido seus alimentos, ao menos nossas escolhas podem ser guiadas para um consumo mais crítico e ético, cobrando por mais transparência na forma como os produtos foram feitos e, claro, repensando aquilo que colocamos no prato. Reduzir o consumo de carne, por exemplo, é uma medida urgente, além de selecionar melhor o tipo de alimento que a gente escolhe, já que o uso de agrotóxicos também contamina o lençol freático.

“Quando estiver comprando algo, você pode observar se o item foi produzido de maneira orgânica, feito em menor escala, de forma menos agressiva ao meio ambiente”, explica Jefferson Mariano, analista do IBGE. Cobrar medidas do governo e se preocupar com decisões que envolvem a preservação ambiental, segundo Mariano, é um caminho. 

Para a nutricionista Neide Rigo, também precisamos questionar a ideia de que uma alimentação mais sustentável é economicamente inviável. “Ainda ligamos a vida sustentável a escolhas de opções veganas e orgânicas que existem no mercado, enquanto outros caminhos são possíveis”, explica. “Não preciso comprar uma salsicha vegana. É só ter uma alimentação normal, mas sem carne. Faço um prato muito rico em nutrientes com feijão, arroz e verdura e não gastei quase nada para comer”, diz.

Hortas e compostagem ajudam a cuidar da água

Para além das nossas escolhas de consumo, Neide Rigo também propõe outras alternativas a fim de diminuir o gasto de água, especialmente nas cidades.  “Uma ideia é despavimentar os espaços públicos o máximo possível, para que as pessoas voltem a plantar e possam manter hortas urbanas e comunitárias”, diz. Ela sugere o cultivo de hortas comunitárias em prédios, condomínios ou terrenos abandonados e a troca do paisagismo dos jardins por espaços de plantio.

Nos fundos de sua casa, por exemplo, Neide criou um canteiro com plantas comestíveis e, em um terreno da rua, instalou uma horta comunitária. O interessante é que a iniciativa traz benefícios diversos: há menos consumo de produtos industrializados e vindos de grandes fazendas, não há deslocamento até os mercados, os alimentos são orgânicos (ou seja, não contaminaram as águas subterrâneas com uso de agrotóxicos) e a escolha das espécies para o cultivo não foi aleatória: elas sobrevivem apenas com a água da chuva mesmo nos períodos de inverno e seca. 

Olhar para o desperdício de alimentos e a quantidade de lixo que geramos também é importante para reduzir o gasto hídrico. Cada brasileiro produz cerca de um quilo de lixo por dia, sendo que mais da metade dele é composta por restos de comida. E, segundo o Instituto Guandu, metade desse lixo vai para lixões e a falta de tratamento adequado do solo faz com que esses resíduos contaminem as águas subterrâneas.

“É ótimo que já estejamos falando dos plásticos, proibindo os canudos, mas a questão do lixo orgânico também é urgente”, afirma Fernanda Danelon, presidente do Instituto Guandu. Segundo ela, um caminho é transformar, por meio da compostagem, o lixo em comida, aliada à horta urbana. (Aprenda a fazer sua própria composteira aqui).

Enxugue seu guarda-roupa

O que levamos para o nosso guarda-roupa também pesa no gasto hídrico: uma única calça jeans, por exemplo, precisa de oito mil litros para ser produzida. Além disso, segundo a rede Water Footprint, que estuda o impacto do uso de água no mundo, o plantio de algodão é um dos que mais utiliza agrotóxicos. 

“Por ser uma das indústrias mais poluentes, o setor da moda é e deve ser responsabilizado por seus danos e impactos, desde a produção até o descarte”, diz Aline Fischmann, criadora da Mudha, uma marca de roupas que busca a sustentabilidade e a transparência por meio do aproveitamento de tecidos ao utilizar materiais reciclados e veganos e com o rastreamento da origem de sua matéria-prima.

Neide Rigo defende, também, que uma vida mais sustentável é uma vida com menos consumo. Ou seja, ainda que a gente priorize marcas com preocupação social e ambiental, continua sendo insustentável manter nosso padrão de consumo atual. “No fim, tudo vira motivo para vender mais”, afirma. “Então, o mercado tem que ser repensado, mesmo o mercado de sustentabilidade”.

Feche sua torneira

Apesar do gasto de água no uso residencial ser menor do que o agrícola e o industrial, também podemos ganhar mais consciência sobre a forma como utilizamos esse recurso no nosso dia a dia para evitar o desperdício. Fechar a torneira enquanto escovamos os dentes, acumular mais roupas para lavar de uma só vez ou mesmo fazer xixi durante o banho em vez de usar o vaso são atitudes muito simples que poupam o consumo. “Não adianta pensar no planeta ou no país se você não pensar na sua rua, na sua própria casa”, diz Édison Carlos, do Instituto Trata Brasil, que trabalha para reduzir a perda de água e ampliar o saneamento básico no país.

Segundo o Instituto Akatu, o uso médio de cada brasileiro é de 154,1 litros por dia. E, embora a água seja uma fonte renovável, ou seja, pode retornar ao uso após tratamento, no nosso país só 46% do esgoto é tratado. “Temos cidades como Guarulhos, na Grande São Paulo, que tem mais de 80% de coleta e trata só 3%. Para onde vai o esgoto? Para o rio Tietê. O esgoto simplesmente é afastado das casas e jogado no rio”, observa Édison Carlos.

Ainda que o problema seja amplo, a população tem como agir. Édison Carlos sugere que os moradores do bairro se reúnam e lutem em conjunto pelo direito à água tratada e à coleta de esgoto. “O cidadão comum tem muita dificuldade de resolver sozinho esse tipo de problema mas, em grupo, muitas comunidades estão conseguindo mudar essa situação”, diz.

Guardião da água

Atitudes que você pode incorporar no dia a dia para preservar a água e fazer um uso mais consciente desse valioso recurso

Elimine ou reduza o consumo de carne. O agronegócio é responsável pelo maior uso de água, e o gado tem impacto nisso. Um quilo de carne de vaca consome 15.450 mil litros de água.

Priorize alimentos orgânicos, locais e da estação. O uso de agrotóxico, além de ser prejudicial à nossa saúde, também contamina as águas. Produtos locais e da estação duram mais e evitam desperdício.

Cuide do seu lixo e aproveite os alimentos. Cascas, talos, sementes outras partes que costumamos jogar fora podem ser aproveitadas em outras receitas. Compostar o lixo orgânico também ajuda a cuidar das águas.

Despavimente a cidade, plante hortas urbanas. Reúna moradores do seu bairro ou condomínio e estudem alternativas de plantações acessíveis que possam fornecer alimento de maneira saudável.

Exija o tratamento de esgoto. Pressione as autoridades para que a água que sai pelo ralo receba tratamento para se tornar potável novamente. No site da Trata Brasil há propostas para engajar a comunidade.

Reflita antes de comprar. A indústria da moda é uma das que mais consome água em sua produção. Uma calça jeans equivale à demanda diária de uma pessoa durante 3 meses. 

Faça escolhas mais éticas. Procure saber se a forma de produção do que você quer comprar  se preocupou com o meio ambiente e a sociedade, se os produtos são mais sustentáveis ou veganos.

Priorize bens duráveis e evite descartáveis. Quanto mais produzimos e jogamos fora, mais água também é desperdiçada no processo.

Prefira produtos de higiene e limpeza concentrados. Eles utilizam menos água na produção e também no transporte.

Em casa, adote medidas que reduzem o consumo. Fazer xixi no banho, escovar os dentes com a torneira fechada e até recolher a água de enxágue da máquina de lavar ajudam a economizar. A Akatu mostra o impacto disso no consumo total.


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Aqui, resumimos alguns exemplos da quantidade de água envolvida nos processos da agricultura e da indústria. A ideia é que a gente possa fazer escolhas cada vez mais éticas e mais conscientes.

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