A Década Decisiva Para a Mudança

As grandes corporações continuam sendo as maiores poluentes e responsáveis pelas mudanças climáticas. Por isso, precisamos de uma transformação estrutural e global
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28.09.2021

O debate sobre o papel das organizações quanto às questões das Mudanças Climáticas e seus impactos é imprescindível e extremamente necessário. A má notícia é que a catástrofe planetária está em curso, e já é a realidade para incontáveis espécies sobreviventes, para as populações em estado de vulnerabilidade, para povos originários de todos os cantos do mundo, para a camada de gelo permanente, o permafrost, que pela primeira vez deixou de congelar, e vai ficar cada vez pior.

Seja no âmbito global ou nacional, desde o Protocolo de Quioto (1997) e o Acordo de Paris (2015), que “trabalhariam” para reduzir as emissões globais de gases de efeito estufa e reduzir o aquecimento global, a coisa não vai bem. O que o gráfico de concentração de CO2 na atmosfera dos últimos anos nos mostra é que tais esforços não resultaram em diminuição das emissões e pouco afetaram a tendência de aumento.

Gráfico: Concentração de CO2 na atmosfera global
Gráfico 1- Concentração média de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera, medida em partes por milhão (ppm).[1] / Fonte: NOAA, 2018.
Gráfico: Concentração de CO2 na atmosfera global
Gráfico 2 – mesmo gráfico, porém com zoom para melhorar a percepção da análise, entre 1983 e 2018 / Fonte: NOAA, 2018.

Mas, será que com o quadro da Covid-19, a crise global financeira, e toda a Política Ambiental Internacional, tão em voga no momento, esses gráficos não apontam algum sinal de mudança?

Bem, não é o que os dados mais recentes do Global Carbon Project nos mostram. Inclusive, em 2019, ocorreu um novo recorde de emissões globais.

Gráfico: A Concentração Global de CO2 aumentou de 277ppm em 1750 para 410ppm em 2019
Fonte: Globally averaged surface atmospheric CO2 concentration. Data from: NOAA-ESRL after 1980; the Scripps Institution of Oceanography before 1980 (harmonised to recent data by adding 0.542ppm) Source: NOAA-ESRL; Scripps Institution of Oceanography; Friedlingstein et al 2020; Global Carbon Budget 2020.

Muito pouco foi feito até aqui

Estamos há pouco mais de 40 dias da COP26, que vai reunir 195 líderes de cada um dos países para a grande conferência do clima, que esse ano acontecerá em Glasgow. Os resultados das metas já estipuladas serão avaliados e novas ambições/metas devem ser discutidas e propostas.

Um dos resultados para se discutir é o fato de os países ricos terem acordado um apoio de 100 bilhões de dólares anuais a partir de 2020, para atender as demandas das nações periféricas, aquelas que mais sofrem com os impactos das Mudanças Climáticas. Apenas 79 bilhões foram angariados até o momento, e em sua maior parte em forma de empréstimos que precisam ser pagos de volta e não a fundo perdido. Ou seja, isso configura uma fuga da responsabilidade, além de uma demonstração da incapacidade da política ambiental internacional em quebrar o paradigma econômico.

Outra questão fundamentalmente importante a ser discutida nesta COP será a gerência dos mercados regulados de carbono, o artigo 6 do acordo de Paris. Até o momento, estudos e críticas apontam que o mecanismo funcionou como uma licença aos países ricos para poluir, além de atrasar mudanças reais e estruturais para a efetiva redução das emissões de CO2, por exemplo.

Placa representando um semáforo, submersa no mar

Como está a nossa realidade atual?

Infelizmente, após anos de avisos sobre o cenário futuro que estamos desenhando, e sem ações efetivas para frear o processo de Aquecimento Global e a consequente Mudança Climática, chegamos à seguinte dura realidade:

  1. Em termos de consumo humano global de recursos naturais como gado, florestas, peixes, combustíveis fósseis, metais e etc, em 2012 consumimos cerca de 70 bilhões de toneladas métricas no ano. E em 2050, caso o curso atual se mantenha, esse consumo passará para 180 bilhões de toneladas métricas. Estima-se que os estoques seguros para esse consumo seriam em torno de 50 bilhões de toneladas métricas por ano. Ou seja, a conta não fecha e caminha para um “déficit” cada vez maior. 

  1. Desde o acordo de Paris, as organizações vêm investindo muito pouco de seu tempo e dinheiro para reverter a situação da qual elas são as maiores responsáveis. A criação dos mercados de carbono e a espetacularização do ciclo de carbono do planeta desviou as mudanças estruturais reais e delegou, ou melhor, delargou ao capital especulativo as possíveis mitigações das Mudanças Climáticas durante anos. Basicamente, isso foi entregar uma necessidade de articulação global efetiva e de governança ambiental global para os bancos, instituições que instrumentalizam o controle da exploração, endividamento e repasse de capitais aos bilionários e organizações. Assim, algo que deveria funcionar como medida ambiental, se tornou apenas mais um produto para o mercado financeiro. ​​Um ótimo documentário recente para entender esse processo é o Oeconomia (2021), da diretora alemã Carmen Losmann. 

  1. Apesar da pandemia ter nos dado uma excelente demonstração do quanto nosso sistema social é frágil, e o quanto ele requer políticas sociais robustas para ser sustentado de forma justa frente às crises, ficou evidente o quanto, diante do sistema econômico, as vidas humanas importam. Também trouxe uma percepção mais escancarada sobre o abismo que existe entre os países localizados no centro do sistema capitalista e os países periféricos, aqueles que serão mais atingidos pelos efeitos das Mudanças Climáticas.

A década da ação

De acordo com o consenso científico, essa é a década mais crucial para humanidade, a última janela que temos para agir de forma extremamente efetiva e radical.

Ora, se hoje é irrefutável que as ações humanas foram as causadoras das Mudanças Climáticas, porque as organizações petrolíferas existem, e ao invés de diminuírem sua produção, estão aumentando suas extrações?

Se sabemos os impactos dos plásticos para a biodiversidade planetária e dos oceanos, porque sua produção ainda é aceita globalmente? Por que mesmo conhecendo os danos do sistema capitalista ainda não fomos capazes de superar o sistema?

São baseados em perguntas-chaves como estas que movimentos sociais e de desobediência civil, os movimentos dos jovens pelo clima, movimentos indígenas, Extinction Rebellion, entre outros, e até mesmo a ciência, têm nos alertado que historicamente a política ambiental internacional não está produzindo os efeitos esperados frente à catástrofe climática anunciada.

Mas, nesse contexto, é possível entendermos quem são os maiores responsáveis?

O papel das grandes corporações na crise do clima

Sim, as organizações e as corporações são as grandes responsáveis pelo processamento e materialidade das Mudanças Climáticas e da crise ecológica.

É dentro das empresas que a natureza é transformada, via trabalho humano, em milhares de produtos. São as organizações que definem o que e como serão produzidos os bens de consumo para a sociedade.

Olhando para uma divisão da responsabilidade de emissões por setor econômico, observa-se a seguinte distribuição entre setores:

73.2% Energia (* other industry (10.6%): emissões relacionadas à energia da manufatura em outras indústrias, incluindo mineração e pedreiras, construção, têxteis, produtos de madeira e equipamentos de transporte (como fabricação de automóveis)

18.4% Produção agropecuária e mudança no uso do solo (desmatamento)

3.2% Produção de resíduos

5.2% Indústria de cimento, químicos e petroquímicos

Gráfico: Emissões globais de gases de efeito estufa por setor
Fonte: Our World in Data CO 2 and Greenhouse Gas Emissions. Source Climate Watch, the World Resources Institute (2020).

Ação individual e coletiva


A partir desse gráfico, é possível fazer algo? Bem, podemos fazer algumas escolhas individuais, e no máximo na escada de pequenos e médios negócios. Por exemplo, parar de comer carne (18.4%) é realmente algo que individualmente e organizadamente pode combater as indústrias desse setor, responsável por consideráveis emissões, além do impacto socioambiental, e da responsabilidade pela destruição da Amazônia. Em relação à indústria têxtil (10.9%), existem diversas informações e ações em níveis de negócios e individual que combatem de alguma forma seu impacto, especialmente em torno de um consumo responsável, cobrando de marcas a transparência sobre matéria prima e mão de obra.

Porém, muito mais do que as ações individuais, apenas as mudanças estruturais é que vão alterar este quadro. Isso precisa chegar às regulamentações duras contra setores e organizações, políticas públicas e banimento de atividades tóxicas e destruidoras, apenas para começar. (É bacana se perguntar quais empresas dominam cada setor).

E quando olhamos para as emissões de CO2 per capita? O gráfico da Oxfam nos mostra a desigualdade social das emissões, já que é simplista dividir apenas as emissões pelo número de cidadãos daquele país.

Gráfico: Decis de renda global e emissão de consumo de estilo de vida associadas
Fonte: Extreme Carbon Inequality, Oxfam 2015 (em rede)

Está claro que os 10% mais ricos da humanidade são os responsáveis por quase metade das emissões (49%) de origem humana, enquanto que os 70% mais pobres do mundo são responsáveis por 21% dessas. Ou, que os 30% mais ricos do mundo são responsáveis por 79% das emissões.

Dessa maneira, podemos concluir que as emissões do ponto de vista social também são desiguais. A humanidade como um todo não é igualmente responsável pela crise ecológica. Saber disso é muito importante para lidarmos com as imprescindíveis mudanças que todos teremos que fazer, sejam políticas ou do ponto de vista dos impactos que cada um sofrerá daqui para frente.

Horizonte de floresta desmatada, com poucas árvores restantes e céu nublado

O que você pode fazer

A seguir, compartilho algumas mudanças concretas que me ajudam a seguir adiante e lutando em prol de transições ecológicas justas

1 As escolhas individuais são muito importantes, porém limitadas. É importante que você mude seus hábitos alimentares e de consumo e que, para além disso, você se articule e se organize em movimentos, coletivos ou iniciativas no seu bairro, na sua cidade e no seu país. Aliás, uma iniciativa incrível é o Instituto Eco Bairro, cheia de metodologias para articulação nos bairros e em rede.

2 Se engaje politicamente. Um movimento sócio-climático espera por você.

3 O boicote é de grande valia para o sistema degenerativo. Se você pertence a uma classe de consumo que te dê possibilidades de escolhas, banir as empresas mais poluidoras do mundo é poderoso. (Aqui o Top 10: 1. Coca-Cola, 2. PepsiCo, 3. Nestlé, 4. Unilever, 5. Mondelez Internacional, 6. Mars, 7. P&G, 8. Phillip Morris Internacional, 9. Colgate-Palmolive, 10. Perfetti van Melle).

4 Você conhece uma CSA (comunidade sustenta agricultura) perto de você? Se articular com agricultores locais, que estão produzindo alimentos sem veneno é a melhor maneira de apoiar uma transição no setor de agricultura. Você também pode se tornar um co-agricultor. Aprender a plantar e a arte de gerar o próprio alimento é muito valioso nessa transição.

5 Procure apoiar os pequenos negócios que estão estreitamente conectados e comprometidos com a regeneração dos cursos d’água, com a limpeza do ar, restauração das florestas, redução de resíduos, sejam embalagens ou orgânicos (compostagem), que estejam transformando relações de trabalho e consumo.

6 Diminua as distâncias. Consuma o que estiver mais perto de você e prefira os produtos da época. Também busque conhecer produtores locais. O Faz a Feira pode ser uma efetiva ferramenta para essa pesquisa, conectando produtores e consumidores.

7 Livre-se dos químicos o quanto você puder. Tudo o que estiver dentro das tuas possibilidades financeiras e de tempo, faça para tirar a indústria petroquímica do seu corpo, e assim do planeta também! Experimente fazer alguns produtos de higiene pessoal e do lar em casa, e valorize negócios da cosmetologia natural no Brasil.

8 Tudo é natureza. Assim, antes de comprar qualquer coisa nova, peça emprestado, compartilhe, troque, compre de segunda mão ou, se tiver tempo, faça você mesmo. Há aplicativos de compartilhamento de serviços, como o Tem Açúcar?.

9 Não se culpe, mas não estacione! Encontre as pessoas que estão lutando pelas mesmas coisas que você e tome fôlego para seguir, um passo de cada vez.


Foto selfie de Livia Humaine na frente de prédios

Livia Humaire (@transicoes_ecologicas) é geógrafa e ativista sócio ambiental. Especialista em negócios ecológicos, também é autora do livro Sua empresa é uma árvore – Guia Prático Para Projetar Negócios Eco-lógicos.