Por que Consumir Carnes Pode Comprometer o Futuro do Planeta

Como veganismo, para além de uma tendência mundial, é uma necessidade e uma urgência quando o assunto é a saúde da população e a sobrevivência da espécie humana no planeta
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14.07.2021

Não é questão de ativismo, mas de evidências científicas. “A redução do consumo de alimentos de origem animal, sem pensarmos em qualquer tipo de tendência ou ativismo, é essencial, primordial, emergencial. É uma necessidade”, avisa a nutricionista Alessandra Luglio, professora no curso YAM Veganismo: O Mundo é o que Você Come.

“A humanidade e os recursos naturais do planeta não aguentam mais a alimentação pautada no protagonismo da proteína animal. Isso se torna incondizente com a possibilidade de alimentar 10 bilhões de pessoas em 2050”, argumenta a nutricionista. 

Para além da questão das doenças crônicas associadas ao consumo de carne, que são um enorme problema para a saúde pública mundial, ela conta que esse tipo de alimentação tem uma cadeia produtiva muito ineficiente em termos energéticos. É um setor em que bilhões de animais são alimentados com grãos que também poderiam alimentar humanos. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), 46% de todos os grãos cultivados no planeta são destinados à alimentação animal. É quase metade de tudo que se planta no globo terrestre.

Além disso, esses alimentos destinados aos animais são cultivados em áreas colossais, reduzindo florestas, emitindo CO2 à atmosfera e consumindo água, agrotóxicos, adubos sintéticos etc. E, ao final, a caloria que chega para o consumo humano é uma parte muito pequena de tudo isso. Alto custo para nós e o planeta.

“Estima-se que para engordar um frango, de tudo que ele come ele devolve somente 11% das calorias. Os outros 89% se perdem no caminho. Nesse sentido, a alimentação plant-based é mais eficiente. Se a gente reduzir 50% do consumo de carne, poderemos alimentar mais 2 bilhões de pessoas. Isso mataria a fome no mundo e ainda sobraria para mais de um bilhão de pessoas”, calcula Alessandra.

Pecuária intensiva e pandemias

Para ela, ainda que o veganismo seja um ativismo ético, que defende um mundo mais justo para todos, sem sofrimento animal e, portanto, sem consumo de produtos de origem animal, a questão agora é que a alimentação vegana é vista por entidades científicas como a que tem mais condições também de garantir a manutenção dos seres humanos no planeta. Vamos contar por quê.

Para a pesquisadora brasileira Cynthia Schuck Paim, coautora do livro lançado em 2020 “Pandemias – Saúde Global e Escolhas Pessoais” (disponível para download gratuito), escrito com Wladimir Alonso, reduzir o consumo de carne e outros produtos de origem animal é fundamental para conter o surgimento de novas pandemias. Ela não tem dúvidas sobre a relação entre a origem das pandemias e a pecuária intensiva. Com doutorado em Zoologia pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, Cynthia já participou de diversas pesquisas e projetos na área de epidemiologia e infecções respiratórias nos EUA e no Reino Unido. 

“A maioria das doenças infecciosas tem origem em animais. São patógenos que circulam na fauna silvestre e podem ser transmitidos para humanos diretamente, pelo contato com esses animais ou, o que é mais comum hoje em dia, por hospedeiros intermediários, no caso os animais de criação para consumo humano. Esses patógenos são transmitidos aos animais de criação, depois são amplificados nesses hospedeiros e, então, por recombinação de material genético, saltam para a população humana”, explica.

Por que isso acontece? Segundo a pesquisadora, atualmente mais de 90 bilhões de animais terrestres são abatidos todos os anos para consumo humano. É uma biomassa imensa (maior do que a biomassa de mamíferos na natureza) que funciona como um enorme reservatório de patógenos porque a maioria vive em uma situação propícia para o surgimento e a transmissão de cepas com potencial para transmissão sustentada na população humana. É uma questão de probabilidade. Quanto mais consumimos carne, mais sistemas de criação são necessários e maior a chance desses eventos ocorrerem.

“Nos sistemas intensivos de criação animal, os animais ficam confinados em lugares fechados, em altíssimas densidades, em contato com dejetos que elevam muito a concentração de amônia no ar e sob estresse crônico, o que os leva a estarem frequentemente imunossuprimidos e, portanto, vulneráveis à possibilidade de contaminação e infecções no sistema respiratório”, argumenta a pesquisadora.

Foto aérea de pasto com boiada
Foto: Unsplash

Vírus ainda mais letais podem surgir

Há ainda o problema da evolução de patógenos mais patogênicos, ou seja, mais severos e até letais nesses ambientes. Quando o vírus é muito letal, ele não se difunde muito rapidamente para não se extinguir junto com os animais que ele mata. “Mas na criação intensiva, fica mais fácil a transmissão de vírus mais severos por causa da alta densidade de animais, que permite que mesmo animais doentes ou mortos contaminem outros e levem o vírus adiante”, lembra Cynthia.

Dois casos são bastante emblemáticos: a gripe, que rendeu uma pandemia em 2009 a partir de uma criação comercial de porcos, e a gripe aviária que, segundo a pesquisadora, pode ser a origem de uma nova pandemia a qualquer momento. “Temos surtos ocorrendo o tempo todo e isso significa um constante risco de que esse vírus adquira a capacidade de transmissão de pessoa para pessoa, o que geraria uma pandemia com potencial letal muito maior do que o que a gente vê com a covid-19”, alerta.

O problema do uso exacerbado de antibióticos na pecuária

Outro grande problema causado pela pecuária intensiva, que é fruto desse mercado de carnes e derivados, é a resistência a antibióticos e o aparecimento de superbactérias. “Mais de 70% dos antibióticos produzidos no mundo são usados na pecuária de forma profilática e em altas doses, ministrados na água e na ração dos animais, o que expõe o ambiente a uma quantidade absurda de antibióticos, levando os micro-organismos a se tornarem resistentes a eles”, diz a nutricionista Alessandra Luglio.

A Organização Mundial da Saúde alerta para a crescente ameaça da resistência antimicrobiana. Imagina-se que resquícios desses medicamentos estejam contaminando lençóis freáticos, rios, canais de esgoto, alimentos e, assim, potencializando a existência de organismos resistentes a eles.

“Esses antibióticos são os mesmos usados em humanos, o que significa dizer que eles podem perder a eficiência no tratamento de doenças infectocontagiosas simples”, reforça Alessandra.

Segundo a pesquisadora Cynthia, 700 mil pessoas morrem anualmente por infecções resistentes a antibióticos no mundo, 25 mil delas no Brasil. Se continuarmos como estamos, o número pode chegar a 10 milhões de pessoas por ano. “Como combater isso? Reduzindo o consumo de carnes e outros produtos de origem animal, porque isso significa reduzir o número desses animais de criação e, por consequência, reduzir a demanda por esses antibióticos e o risco de novas cepas bacterianas resistentes a eles”, defende.

Tábua de aperitivos feito com carne de plantas
Tábua de aperitivos feitos com carne de plantas / Foto: Loiro Cunha

Como a tecnologia pode ajudar nessa transição necessária

Diante desse cenário, como podemos mudar os hábitos alimentares de bilhões de pessoas “para ontem”? Alessandra Luglio tem uma visão mais cética em relação a isso. “Sabemos que a humanidade quer manter seu conforto, suas tradições e que mudar hábitos para o bem coletivo é algo que temos dificuldade de fazer. Está muito longe da ganância do homem e do comodismo do sistema”, lamenta. 

Mas isso não significa que não existam caminhos. “Acredito muito na tecnologia como um meio para que essas pessoas possam mudar a alimentação sem ter que mudar seus gostos e privilégios. É por isso que sou entusiasta das carnes vegetais e dos leites vegetais, porque com eles elas podem mudar apenas a matriz do que gostam de consumir e não querem abrir mão, e com ganhos para a saúde também”.

As projeções de crescimento do setor de carnes vegetais são animadoras. Até 2035, segundo a JP Morgan, esse mercado pode atingir US$ 100 bilhões, abocanhando 7% de todo o segmento de carnes no mundo. 

“Aposto muito nessa tecnologia como uma muleta bastante eficaz para fazer com que os hábitos das pessoas sejam modificados emergencialmente, com base nos problemas sérios que temos que enfrentar daqui para frente”, conclui. Que assim seja!

Vaca em pasto olha para a câmera de frente
Foto: Soul em Cena

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