5 Maus Hábitos Alimentares que Você Deveria Evitar

Alguns princípios gerais (e muito simples) da Ayurveda nos ajudam a desconstruir costumes ruins ao nosso organismo e criar uma rotina verdadeiramente mais saudável
8 minutos de leitura
03.05.2021

Há milhares de anos, a Ayurveda, sistema de saúde que corresponde à tradicional medicina indiana, propaga ensinamentos que não perdem a validade com o passar do tempo. Ao contrário: nesse agitado século XXI, resgatar essa sabedoria pode ser uma chave fundamental para restabelecermos e cultivarmos a saúde, deixando para trás maus hábitos já tão enraizados em nossos tempos.

A mais moderna ciência, aliás, caminha em direção a evidências que a Ayurveda já apontava desde seu surgimento. Uma delas, pilar central dessa medicina, diz respeito aos hábitos que adquirimos e reforçamos no nosso dia a dia. Hoje as pesquisas científicas mostram que cerca de 80% das doenças crônicas podem ser evitadas, tratadas e revertidas com mudanças no estilo de vida.

“Por mais que uma pessoa possa ter na família uma predisposição para certas doenças, já se sabe que a maior parte desse potencial genético pode ser transformado quando criamos uma boa rotina, com hábitos realmente saudáveis”, afirma a terapeuta ayurveda e professora de yoga Maíra Salomão, cofundadora do projeto Saúde Elementar.

Segundo ela, nosso estilo de vida é que constrói nosso corpo e, quando falamos sobre isso, a Ayurveda inclui nessa história não apenas a alimentação, mas também o sono, o ritmo das nossas atividades e até mesmo nossa capacidade emocional e mental de lidar com adversidades.

Você é o que come e consegue digerir

“Costumo dizer que nós somos o que comemos e conseguimos digerir. Isso varia de pessoa para pessoa, de corpo para corpo, e depende basicamente do que chamamos de agni ou fogo. Algumas pessoas digerem melhor certos alimentos, outras demoram mais tempo para isso ou têm problemas nesse processo”, explica.

Na alimentação, nossas escolhas favorecem ou atrapalham esse fogo, por isso os maus hábitos alimentares influenciam todo o nosso sistema. “Quando o agni (nosso fogo digestivo) está feliz, vibrando, ele potencializa outros sistemas, como o imunológico e nossa capacidade de foco, por exemplo. Uma alimentação adequada é aquela que nos nutre com calma e consciência. Ao contrário, ela pode ser muito desgastante para nosso organismo, como quando vivemos sempre em sobrepeso, inflamados, com gastrite, refluxo, sensação de pesado, com gases, rinite, problemas menstruais etc.”.

Da mesma forma, Maíra conta que essa capacidade de digestão vai além da alimentação. “Temos agni também em outros tecidos. Uma informação, um trauma, uma notícia que você não consegue processar e fica ruminando no campo emocional também gera toxina e vai causar um desgaste”, completa. 

Para Andrezza Oliveira, chef medicinal e terapeuta ayurveda formada no Kapati Kannur Ayurvedic Hospital, na Índia, a preparação do alimento também envolve manipulação de energia. “Há uma troca de energia entre o alimento e quem o prepara. É por isso que sempre digo que o alimento deve ser preparado por alguém que nos queira bem. A pessoa deve sempre cozinhar com carinho, para que o alimento tenha boa qualidade energética”, argumenta Andrezza, também fundadora e CEO do Taila Veda, marca de óleos medicados, massalas, chás e outros produtos ayurvédicos. “Para mim, é sagrada a hora da alimentação. É um momento espiritual de nutrir meu ser e, por isso, merece tempo, calma, amor e atenção”, diz.

Imagem: “The Ayurvedic Man., c.18th century” / Imagem de capa: “Mystical body of tantric meditation, flow of the life force”, ambas da Wellcome Collection, London @WikimediaCommons (CC BY 4.0)

Desconstruindo 5 maus hábitos alimentares

Conversamos com as duas especialistas para saber sobre alguns maus hábitos alimentares que devemos evitar, segundo princípios da Ayurveda. A seguir, listamos 5 costumes mencionados por elas que devem ser desconstruídos se quisermos ter uma rotina que promova a nossa saúde e o nosso bem-estar.

1. Comer sem fome real

“Fome é algo fisiológico e também um problema social que milhões de brasileiros vivenciam no nosso país, infelizmente”, diz Maíra Salomão. Ainda assim, muitas pessoas comem sem estar com fome. “A fome é um sinal de que o corpo está preparado para a digestão. Então, se chegou a hora de uma refeição e você não está com fome, o ideal é pensar em se hidratar, tomar um caldo de legumes, um chá, e esperar a fome chegar”.

Ela destaca que beliscar toda hora, mantendo a “boca sempre viva”, é um mau hábito porque não permite um descanso ao sistema digestório, que leva em média três horas para completar a digestão de uma refeição.  Andrezza Oliveira ressalta, ainda, que é preciso aprender a ouvir o próprio corpo para identificar a presença da fome real. “Comer sem fome é forçar o corpo a um trabalho que ele não estava preparado para fazer. É fundamental perceber como o seu corpo funciona, em que horários você sente mais fome e observar o grau dessa fome”, ensina.

Além disso, ela menciona que alguns horários são mais propícios para uma boa digestão. “O período entre as 11h30 da manhã e as 14h tem regência do dosha pitta e, portanto, é o melhor horário para a digestão. Quem rege o jantar é kapha, que pede uma alimentação mais leve”, diz Andrezza.


2. Comer alimentos ultraprocessados com frequência

Para começo de conversa, defende Maíra, comida ultraprocessada nem poderia ser chamada de alimento, de tão transformada que foi por aditivos e processos químicos que priorizam o “sabor” em detrimento da nutrição. 

“Esse tipo de comida enche o estômago mas não nos nutre. É como quem come todo dia de manhã pão francês com margarina, leite de caixinha e café. Isso é uma refeição absolutamente vazia, o corpo não vai ter como retirar nutrientes desses alimentos para fazer o organismo funcionar perfeitamente”.

Nesse sentido, optar por alimentos sazonais, naturais e puros é um caminho mais interessante. “A natureza é muito sábia e precisamos nos conectar a ela. Não é à toa que cada estação oferece um grupo de alimentos diferentes. Eles nos auxiliam. As melancias vêm no verão para nos hidratar, as laranjas chegam no outono para não griparmos e as raízes no inverno nos fortalecem e nos ajudam a suportar os dias frios”, complementa Andrezza.

3. Tomar bebidas geladas

Neste tópico, as duas terapeutas são categóricas: especialmente durante as refeições, tomar líquidos gelados atrapalha a digestão, “apagando” o fogo digestivo (agni). “Este é um hábito ruim porque a digestão precisa de um certo calor no corpo e as bebidas geladas prejudicam os sucos gástricos naturais que o corpo precisa para digerir os alimentos, e também o bolo fecal”, afirma Maíra.

O ideal é tomar bebidas duas horas após a refeição e, de preferência, mornas ou quentinhas nos horários mais próximos das refeições. É claro que no verão é possível abrir exceções eventuais e degustar uma água de coco gelada, por exemplo. Mas sem que isso se transforme em um hábito corriqueiro.

4. Comer com estresse, raiva ou distração

“Quando estamos nervosos ou muito emocionados, o sangue tende a se concentrar mais na parte periférica do corpo, colocando o organismo em estado de luta e fuga. Comer assim faz com que a gente não digira bem o alimento”, acrescenta Maíra.

A falta de atenção também prejudica a digestão. “A alimentação começa antes de nos sentarmos à mesa. Por isso, esteja presente no momento de se alimentar, evite o celular, a televisão e o computador. Coma respeitando o seu ritmo pessoal, nem muito devagar e nem muito rápido. Evite pensamentos ruins. Tenha uns minutos para respirar antes e após se alimentar. Isso tudo tornará a digestão mais eficaz”, lembra Andrezza.

5. Comer sempre igual

Escolher sempre os mesmos alimentos e prepará-los do mesmo jeito não é legal para a microbiota do intestino e é um dos grandes maus hábitos alimentares. “As células não vão ter muitas opções para fortalecer seu organismo. Pode haver déficit de minerais, vitaminas. Nesse sentido, é legal passear na feira, no supermercado e ter curiosidade, vontade de provar alimentos diferentes, de cozinhar algo diferente e de incentivar isso também nas crianças”, sugere Maíra.

“Incluir mais especiarias é algo bacana para despertar os sentidos, aguçar as papilas gustativas. Tudo isso favorece a boa digestão e nos nutre mais e melhor”, ensina a chef Andrezza.

Por fim, vale a pena evitar dietas da moda. “A nutrição moderna tem informação excessiva que pode confundir as pessoas e levá-las a uma alimentação que causa danos e desequilíbrios. A Ayurveda nos ensina que devemos ouvir nosso corpo. Ele sabe o que é melhor e mais adequado para você”, destaca Andrezza.

Leia também