Como a Indústria Alimentícia Moldou Nosso Paladar

Da Revolução Verde até hoje, um mix de lobby, marketing e alianças com o agronegócio transformou as grandes marcas em protagonistas insuspeitas das escolhas que chegam à mesa da população. Por outro lado, o ativismo nessa área nunca esteve tão forte
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03.03.2021

Foi com o discurso positivo de “acabar com a fome no mundo” que a indústria bélica e militar transferiu tecnologias dos campos de batalha para as lavouras, em uma estratégia de evitar grandes perdas financeiras ao setor, com o fim da Segunda Guerra Mundial. Começava a surgir, assim, o que culminaria numa transformação dos nossos hábitos alimentares pela indústria alimentícia.

Inicialmente, isso se deu nos EUA a partir da década de 1940. Na época, a fome batia recorde no século XX, com mais de 18,5 milhões de vítimas em todo o mundo. Posteriormente, levaram para os países latino-americanos essa adaptação do arsenal bélico. 

Assim, tanques de guerra viraram colheitadeiras e outras grandes máquinas para a agricultura. Aviões-caça se transformaram em pulverizadores aéreos e armas químicas passaram a servir como pesticidas, fertilizantes e herbicidas. Era a chamada Revolução Verde que, no Brasil, teve início durante a ditadura militar, nas décadas de 1960 e 1970. 

Marcas da Revolução Verde 

De lá para cá, as taxas da fome no mundo caíram consideravelmente. Segundo o site Ourwourldindata.org, passamos de quase 800 mortes em cada 100 mil habitantes nos anos de 1940 para três vítimas por 100 mil habitantes entre 2010 e 2016.

Mas é preciso dizer que a missão não teve tanto sucesso assim. Para produzir em grandes escalas e em sistemas de monocultura, a agropecuária altamente industrializada expandiu suas fronteiras sobre áreas de florestas, promoveu uma intensa degradação do solo, expôs os trabalhadores rurais e a população a doses cada vez mais elevadas de agrotóxicos, alavancou o êxodo rural, reduziu a diversidade no campo e, por consequência, também em nosso prato.

Hoje, assistimos ao crescimento da desigualdade social e aos efeitos das ações inconsequentes da humanidade sobre o meio ambiente. E já sabemos que essa combinação é uma bomba-relógio para o aquecimento global, novas pandemias e… mais fome no mundo.

Do campo à indústria, da indústria alimentícia à mesa

Todo esse contexto ajuda a entender o que encontramos atualmente nas prateleiras dos supermercados. E por que as grandes marcas do setor alimentício são tão poderosas em termos de forças econômica e política.

Se olharmos bem, boa parte dos produtos alimentícios contém os grãos das maiores commodities agrícolas do mundo ou seus diversos produtos derivados. São eles: soja, milho, trigo e arroz. E por uma questão de barateamento da produção industrial. Simples assim.

“Essa monotonia que empobrece nossa alimentação também se estende para o campo e ameaça tanto a biodiversidade no campo como também a nutricional”, aponta Alessandra Luglio, nutricionista, ativista do veganismo e professora do YAM no curso Veganismo: O Mundo é o que Você Come.

“Hoje não dá mais para falar em indústria alimentícia, mas em sistema agroalimentar. Ele começa na agricultura, mas a indústria de alimentos é só uma parte dele”, afirma a nutricionista e socióloga da alimentação Elaine de Azevedo, pesquisadora da Universidade Federal do Espírito Santo e criadora do podcast Panela de Impressão, no Spotify.

Muitas indústrias envolvidas no nosso hábito alimentar

Segundo ela, esse sistema agroalimentar envolve toda a indústria química que produz os agrotóxicos, a indústria de maquinários agrícolas, de sementes transgênicas, o setor de transportes que precisa escoar a produção, as agências reguladoras, toda a cadeia da soja, por exemplo (que consegue até criar uma Embrapa Soja) e por aí vai. 

“O termo lobbies alimentares dá um pouco conta dessa miscelânea toda, que ainda envolve a mídia, o estado corrompido que participa ativamente da manutenção e crescimento desse sistema e também a ciência manipulada em pesquisas patrocinadas pelas corporações do setor. Quando vemos em universidades públicas grandes empresas como DuPont e Basf conduzindo os avanços da ciência, entendemos a dimensão desse sistema que é tão complexo”, diz Elaine.

“É todo um sistema pautado em objetivos muito mais mercadológicos do que nutricionais. E como o mais importante é vender, os produtos ganham mais açúcar, mais gorduras, mais aromas artificiais e realçadores de sabor para ficarem mais atraentes. Essa influência da indústria de produtos alimentícios sobre a população é feroz porque usa muito o marketing para gerar um constante desejo de consumo”, completa a nutricionista Alessandra Luglio.

Por que trocamos alimentos por produtos alimentícios

Para Alessandra, apesar das críticas, é preciso pontuar que a indústria teve um papel importante nesse caminho. “Houve avanços do ponto de vista de saúde. Antes de existir o leite pasteurizado pela indústria, por exemplo, tínhamos muitos casos de toxinfecção alimentar. Só que para os produtos serem mais duráveis na prateleira e mais seguros também, eles acabaram ficando menos naturais, menos sensíveis ao calor e, por fim, menos nutritivos”, avalia.

Além disso, a maior durabilidade dos produtos mudou a forma como as pessoas lidam com a comida em casa. “Antes não dava para ter um estoque porque a comida estragava. Com os industrializados, ficou tudo mais prático, mais fácil criar cardápios e, além de tudo, com preços acessíveis também. É só pensar que não dá para deixar uma banana na bolsa por alguns dias. Mas um snack pode ficar mais de uma semana sem problema algum. É muito tentador, muito atraente”, diz Alessandra.

Foi assim que, aos poucos, a população começou a trocar as frutas por suco adoçado em caixinha e biscoito recheado. “Isso aconteceu e ainda acontece em políticas públicas para a merenda escolar, infelizmente. Como são grandes corporações envolvidas, que lucram muito, elas têm grande influência sobre os governos”, ressalta a nutricionista. 

Quando começa essa influência da indústria alimentícia

Não é de hoje que recebemos notícias de eventos de profissionais de saúde patrocinados por marcas de produtos alimentícios. “Desde o início da pandemia, recebemos diversas denúncias de cursos online de aprimoramento profissional, especialização etc. para pediatras e nutricionistas patrocinados por marcas como Nestlé e Danone”, conta Laís Amaral, nutricionista do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec).

“Para os profissionais é vantajoso porque eles ganham viagens, participam de congressos e tudo é feito como se fosse algo realmente bom para a saúde das pessoas”, completa.

Laís comenta que, apesar de o Brasil contar com a chamada NBCAL, uma norma de caráter nacional que regula a promoção comercial e a rotulagem de alimentos para recém-nascidos e crianças até os três anos de idade, algo que começou lá nos anos 1990, as infrações ainda são muitas e falta fiscalização e aplicação das penalidades. “Na maioria das vezes não temos respostas dos órgãos competentes e há lentidão ou até arquivamento do processo”, lamenta.

Outro problema é que as empresas tentam a todo custo burlar a legislação. “Para as fórmulas infantis existem regras claras, mas as marcas criaram os chamados compostos lácteos, que são muito parecidos nas embalagens, mais baratos e não são abarcados pela NBCAL. Esses produtos contêm 51% de leite e derivados e o resto é açúcar, aromas artificiais, qualquer outra coisa. A mãe muitas vezes se confunde e compra sem saber o que está levando pra casa”, diz Laís.

Indústria alimentícia: uma relação muito desigual

Ela diz que não dá para culpar a mãe ou a família porque tudo é conduzido para que elas acreditem que estão oferecendo o melhor para as crianças. É triste, mas há quem já pense que as fórmulas criadas pela indústria são equivalentes ou até superiores ao aleitamento materno em termos de valor nutricional.

E mais: algumas marcas chegam a indicar fases nos rótulos, como se fosse uma sequência que a mãe tem que seguir ao longo do crescimento de seu bebê. “É uma relação muito desigual porque a indústria tem um poder enorme, um marketing muito forte mesmo. A solução é a política pública, mas para isso é preciso dar pequenos passos, contornar o lobby e celebrar cada conquista”, desabafa.

Laís lembra casos em que essa influência invade o território escolar. “É comum marcas como Coca-Cola, Danone e McDonald’s entrarem nas escolas travestidas de atividades educativas, palestras sobre sustentabilidade para, na verdade, distribuírem brindes e criarem toda uma relação positiva entre as marcas e as crianças”.

Esses apelos do mercado foram bem registrados no documentário Muito Além do Peso (2012), dirigido por Estela Renner. O filme mostra os efeitos dessa comunicação mercadológica para o público infantil e alerta para os riscos da obesidade nessa fase da vida, que já afeta 33% das crianças brasileiras.

O marketing do feirante e a propaganda dos gigantes 

Mas, afinal, o que você pode fazer para passar por cima disso tudo e conquistar uma alimentação mais saudável? A primeira coisa é lembrar a diferença qualitativa que há entre os alimentos de verdade e os produtos alimentícios. “É aquela coisa, o feirante não faz propaganda no intervalo do Jornal Nacional, falando dos nutrientes de cada legume, verdura ou fruta que ele vende. Mas o que ele vende é comida de verdade”, comenta Alessandra Luglio.

Então, a dica, diz a nutricionista, é fazer uma revisão geral dos hábitos de consumo. Buscar o que é mais natural, cozinhar mais, reservar mais tempo para as atividades que envolvem a alimentação da família (planejamento, compras, preparo etc.). “Em cima disso, é legal trabalhar as variedades, diversificar, por exemplo, os tipos de feijão e priorizar os alimentos regionais. O consumidor precisa agora entender que ele pode ajudar a moldar a indústria e que isso já está acontecendo”.

É verdade. É só pensarmos no crescimento do mercado de produtos saudáveis, orgânicos e veganos. “Recentemente, a Unilever comprou a Mãe Terra. Grandes empresas estão oferecendo carne vegetal, versões orgânicas para os mesmos produtos, além de itens com menos açúcar. Enfim, estão investindo para atender a um público que aumenta todos os dias”.

Ativismo alimentar: água mole em pedra dura

Para Elaine de Azevedo, o ativismo na área da alimentação saudável e sustentável nunca esteve tão forte. “Se de um lado temos esse sistema vinculado ao consumo, de outro temos o ativismo alimentar. E, este, quer saúde para as pessoas e para o planeta”.

Ela diz que o grande inimigo é muito abstrato, complexo, mas que quando uma massa de consumidores deseja alimentos orgânicos, por exemplo, a indústria vai lá e produz. A força do ativismo é água em pedra dura: lenta, gradual e permanente. “Hoje temos diversas escolas livres, escolas do MST, mídias alternativas independentes, como o próprio YAM, e tantas pessoas e entidades lutando para transformar, para mobilizar a esperança, a utopia. É disso que precisamos e é o que nos move. O que mantém essa caminhada firme e o que torna o cotidiano mais afetivo”, observa Elaine. 

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