Como o Cacau Libertou um Povo em Dois Riachões, na Bahia

Antes trabalhando de forma precária e mal remunerada, os agricultores desse assentamento no Sul da Bahia conquistaram terra, independência financeira e soberania alimentar graças à reforma agrária e ao apoio de instituições e marcas chocolateiras
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11.02.2021

“Meu avô nunca comeu chocolate, nunca. Ele morreu sem saber o que era chocolate”. Essa frase, repetida diversas vezes pelo cacauicultor Edivaldo dos Santos, o Biscó, foi tão perturbadora que a escolhemos como ponto de partida para contar a história do mini documentário independente Dois Riachões, Cacau e Liberdade. O filme, que dirigi ao lado do cineasta Fellipe Abreu, foi lançado em novembro de 2020 no evento Terra Madre Brasil, promovido pelo movimento Slow Food

Infelizmente, trata-se de uma realidade ainda comum no Sul da Bahia, principal região produtora de cacau do país há mais de 250 anos. E responsável por abastecer as indústrias gigantes do setor. Quem comia chocolate eram apenas os coronéis e suas famílias. Aliás, os agricultores nem podiam provar o fruto e sofriam marcação cerrada dos cabos de turno. Há pouco menos de 15 anos, Biscó não tinha sequer carteira assinada e ganhava cerca de R$ 12 por semana, que mal davam para comprar a comida do mês. Tampouco podia plantar o próprio alimento. 

O relato acima parece ter sido tirado de documentos históricos dos séculos passados. Entretanto, é atual. Por meio da reforma agrária, apoio e capacitações de diversas instituições, o Assentamento Dois Riachões, que fica em Ibirapitanga, no Sul da Bahia, tornou-se um exemplo de superação. Mas antes,  nas palavras de Biscó, “era como se fosse um trabalho escravo”. 

Como o Cacau Libertou um Povo em Dois Riachões, na Bahia

Um novo lar em Dois Riachões

Depois de se envolverem em movimentos sociais de luta pela terra, como o CETA, Movimento Estadual de Trabalhadores Assentados, Acampados e Quilombolas, os agricultores decidiram montar acampamento em uma fazenda abandonada à beira da rodovia BA-652. Passados seis anos de bastante tensão, conseguiram ocupá-la em 2007. A terra conquistada, de 406 hectares, representa uma pequena parte de uma das 91 propriedades que o fazendeiro tinha na região. Hoje, se tornou o lar de 150 pessoas.  

Santa Vassoura

Em 1989, uma praga conhecida por vassoura-de-bruxa infectou e devastou as lavouras de cacau no Sul da Bahia, causando enormes prejuízos econômicos e sociais. Assim, diversas propriedades se tornaram improdutivas e mais de 150 mil agricultores ficaram desempregados. Os assentados, entretanto,  consideram a praga uma “santa vassoura” pois possibilitou estarem na terra hoje. Se não tivesse a cultura do cacau, a Reforma Agrária seria praticamente inviável. As famílias entraram na terra já sabendo que o cultivo garantiria seu sustento. 

Sistema Cabruca

Quando ocuparam o assentamento, só existia gado e cacau naquelas terras. Os solos estavam pobres e inférteis, resultado de anos de abandono. Assim que entraram, plantaram alimentos para a própria subsistência, como mandioca e feijão. Com isso, aos poucos, passaram a vender o excedente nas cidades vizinhas e então passaram a ser valorizados como produtores de comida. Finalmente, a realidade começava a mudar.  

Enquanto isso, para recuperar a biodiversidade, mantiveram o sistema Cabruca. Trata-se de um modelo de produção com 170 anos de prática na região, que cultiva sem derrubar a mata e ainda beneficia a produção do cacau. Para que um sistema seja considerado Cabruca, são necessárias ao menos 50 espécies de árvores nativas junto ao cacau. Mas esse sistema está ameaçado de extinção na Bahia porque opõe-se à monocultura à pleno sol fomentada pelo Governo do Estado e a indústria. 

Os agricultores ainda optaram por focar na espécie de cacau conhecida como Parazinho. Local e ancestral ela não tem variedade híbridas ou clonadas. Ou seja, além de mais saborosa, colabora para manter a tradição. “Hoje, é graças ao cacau que nós ainda temos a Mata Atlântica na Bahia”, orgulha-se o cacauicultor Rubens de Jesus. Ele conta que atualmente faturam quatro vezes o valor por hectare comparado a um modelo convencional de cultivo. 

Como o Cacau Libertou um Povo em Dois Riachões, na Bahia

Parceria com marcas comprometidas

Outro diferencial do Dois Riachões é o rigoroso processo de fermentação. É por conta desta cuidadosa etapa que conseguiram vender para marcas exigentes como a Dengo, Kalapa e Quetzal. A primeira delas foi a AMMA, em 2016. “É uma comunidade linda e integrada, com um belo modelo de organização. Fizemos uma barra e carimbamos para trazer identidade, safra, variedade e região”, observou o fundador, Diego Badaró, que me pediu que levasse uma caixa para os agricultores provarem. 

“É uma sensação fantástica quando a AMMA manda um chocolate com o nome lá: Associação Dois Riachões. Assim, quem comprar estará consumindo um produto que não agride a natureza, respeita a questão social, econômica e vai beneficiar quem está lá na ponta, que somos nós”, comemora Rubens. 

Acompanhamos o momento emocionante em que os tabletes foram compartilhados com toda a comunidade. Aos poucos, eles estão introduzindo o cacau e o chocolate na alimentação. “A produção da comida é uma libertação. A gente começou a usar para a gente também, para o nosso bem”, conta a produtora e excelente cozinheira Mara Silva, enquanto prepara sua famosa farofa de banana da terra com nibs de cacau. 

Dois Riachões: soberania e marca própria 

O processo de luta da Dois Riachões avançou na educação de qualidade, a começar pela creche para as crianças. Agora, estão construindo uma Escola Nacional de Agroecologia, com cursos de nível superior. “É soberania. Soberania alimentar, soberania na produção, na organicidade, na qualidade de vida”, festeja a produtora Teresa Santiago.  

Outra característica do Dois Riachões, por exemplo, é a participação coletiva. Dessa forma, cada etapa do cultivo é realizada em esquema de mutirão. O clima é alegre e a quebragem é feita ao ritmo de cantoria. “A gente não dá conta de quatro hectares sozinhos, mas através da troca de trabalho com o vizinho, a gente consegue”, explica Mara Silva. 

Aliás, a média do salário dos agricultores passou de R$ 246, em 2008, para R$ 2 mil, em 2021. Em 2020, a comunidade inaugurou uma Fábrica-Escola e a marca própria de chocolate será lançada muito em breve. Uma grande inspiração em tempos tão desafiantes e em plena pandemia da Covid-19. 

Para assistir o mini documentário, acesse: 

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