Comida Não é Mera Mercadoria, É Direito de Todos

No mês de enxurrada das campanhas de ofertas da Black Friday, nosso convite é para a seguinte reflexão: o que você alimenta no mundo com suas escolhas?
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25.11.2020

Comer é prazer, é saúde, é celebrar entre amigos. Mas é também um ato político. Cada escolha nossa fortalece uma determinada cadeia de produção, que pode incluir pequenos produtores e comerciantes ou grandes latifundiários do agronegócio e redes de hipermercados, por exemplo. Nessa história, nem sempre é tudo assim tão binário, mas o fato é que nossa comida pode ser uma saborosa, solidária e eficiente estratégia de transformação do mundo.

Aqui, estamos falando basicamente de consumo consciente. Mas consciente de que, afinal?  Vamos lá, por partes. Primeiro, do abismo que é a desigualdade social no país, o sétimo pior colocado no ranking mundial. Por aqui, a concentração de renda é a segunda maior do mundo, atrás apenas do Catar. Em números da ONU, o 1% da população mais rica concentra 28,3% da renda total do Brasil. 

Além disso, em 2019, segundo o IBGE, o Brasil tinha mais de 13 milhões de pessoas vivendo em situação de extrema pobreza e outros 52 milhões de habitantes na pobreza. Trocando em miúdos, é gente com dificuldade para se alimentar, gente que passa fome. E podemos supor que a pandemia não melhorou esse cenário, ainda que o auxílio emergencial tenha elevado a renda mensal de muitas dessas famílias, temporariamente.

Alimentação como ponte para o futuro

E é nesse mesmo contexto que, enquanto muitos passam fome, 1/3 de tudo que é produzido de alimentos é desperdiçado e acaba no lixo. Ou seja, comida jogada fora. Para completar, tem a questão da qualidade dos produtos: fugir dos agrotóxicos e transgênicos quase sempre significa pagar um pouco mais. 

Mas quem disse que precisa ser assim? A ideia aqui é repensarmos nossas formas de consumo para mudar esse jogo e usar nossas escolhas alimentares para construir pontes entre a população (de todas as camadas sociais), quem planta com respeito à terra e quem comercializa de maneira mais justa e solidária. 

Quer uma boa notícia? Já existem diversas iniciativas que apontam que é possível se alimentar e, ao mesmo tempo, atacar diretamente esses problemas.

Da horta para o Whatsapp

Encurtar o caminho dos alimentos entre a terra e a mesa é uma delas. Em Santo André, no ABC paulista, o permacultor, fotógrafo e vendedor de discos Pedro Sekyia criou uma horta urbana orgânica no quintal de sua casa. Tudo ali cresce com o adubo da compostagem caseira e a água de chuva que ele coleta em recipientes improvisados. Na área de 40 m², ele cultiva diversos tipos de hortaliças, PANCs, ervas aromáticas e fitoterápicos. 

Mesmo no pequeno espaço, a produção supera o consumo doméstico. “Daí veio a ideia de montar um grupo de consumo para vender o excedente em cestas com preços bem justos”, conta. Via Whatsapp, ele conseguiu engajar 12 pessoas que todo mês compram suas cestas de orgânicos. 

“É bem interessante porque as pessoas criam um vínculo, sabem quem eu sou e como planto. Assim eu garanto minha comida limpa e ainda possibilito que outras pessoas tenham acesso sem pagar mais por isso. Não é uma relação de exploração, mas de cooperação”, diz Pedro. 

Pode parecer uma ação pequena, isolada, mas não é. O número de hortas urbanas vem crescendo em muitas cidades brasileiras. E a busca por comida de verdade e reconexão com a natureza tem gerado projetos bem interessantes. 

Agroecologia na periferia

Em São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo, o empreendedor social e educador ambiental Vinicius de Moraes fundou em 2014 o projeto Quebrada Sustentável para levar agroecologia, economia solidária, permacultura e formação de redes aos moradores da região. 

Em um terreno cedido pela CDHU e onde só havia entulho, ele reuniu um grupo de homens e mulheres para criar uma horta comunitária com técnicas de agrofloresta, que eles chamaram de Viveiro Escola. O movimento mudou a cara do terreno, chamou a atenção dos moradores e virou ponto de cultura e turismo para muita gente. 

Até antes da pandemia, o grupo mantenedor da horta, batizado de Coletivo GAU (Grupo de Agricultura Urbana), organizava visitas de escolas com crianças e jovens, além de eventos culturais. Vinicius, que também é comunicador popular na Rádio Comunitária Milênio (87,5 FM), mediava ali diálogos sobre agroecologia e alimentação saudável.

“Além da questão de despertar os moradores para uma maior autonomia alimentar, o projeto fomentou o turismo na periferia. Nossos eventos atraíam ricos, gente que mora no centro e em bairros nobres da cidade, que sempre ficava muito impactada com tudo que via aqui. Eles nunca tinham visitado a periferia, muitos até choravam com o que viam. Então, a horta e as vivências ajudavam a quebrar essa bolha, quebrar estereótipos sobre o lugar e as pessoas que moram aqui”, afirma.

Resgate afetivo e cultural pela comida

Com o tempo, as mulheres do grupo se destacaram nas atividades, puxando ações de artesanato e culinária. De maneira natural, o Coletivo GAU se transformou no atual projeto Mulheres do GAU, exclusivamente feminino. São nove mulheres, sendo sete nordestinas e duas paulistas.

“A horta fez um bem danado para todas nós. Ela foi um grande resgate de cultura para a gente. Temos mulheres que nasceram na roça e conhecem muito da terra, mas estavam na cidade sem esse contato. Então, elas nos ensinam muito”, conta Vilma Martins, coordenadora do grupo. 

“Aqui, as mulheres ou ensinam a gente a plantar ou ensinam a preparar as receitas. Eu sou do time que gosta de cozinhar, sempre gostei. E a gente fica lembrando das comidas que nossas mães e avós nordestinas faziam. É uma alimentação de cura, uma alimentação afetiva, além de 100% orgânica”, comenta, cheia de orgulho.

Quando chegou ao Viveiro Escola, Vilma pesava quase 90 kg. “Eu não comia muita verdura, era só batata e tomate. Mas quando vi sair da terra beterraba, aquelas folhas todas, agrião, espinafre, fiquei encantada. Aquilo foi muito gratificante pra mim e hoje é daqui que eu tiro a minha saúde, vendo a criançada comer bem, tomar suco verde. Inclusive a minha saúde mental melhorou, porque somos uma rede de apoio para nós mesmas e até sobre violência doméstica a gente já conseguiu conversar aqui”, diz.

Se você gosta da ideia de conhecer uma dessas hortas comunitárias, vale a pena visitar o site Sampa Mais Rural, criado pela prefeitura e que reúne agricultores urbanos, hortas comunitárias, lojas e feiras de produtos orgânicos, além de lugares para visitar no cinturão verde da cidade. Expandir nosso olhar sobre a metrópole e conhecer grupos que produzem alimentos de qualidade perto de você pode ser transformador.

A comida fomentando a agricultura familiar 

Outro jeito de se aproximar da terra é ser cliente de lojas que revendem alimentos da agricultura familiar orgânica, de assentamentos da reforma agrária e de comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas. É o caso do Armazém do Campo, marca do MST, que tem lojas em São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Recife, Belo Horizonte e São Luís.

“Aqui não entra nada de agrotóxicos nem de transgênicos. Compramos tudo pelo preço que os produtores e as cooperativas definem e colocamos apenas um percentual entre 25% e 35% para cobrir nossos custos operacionais. As pessoas gostam muito e os endereços têm virado uma referência nessas cidades”, diz Ademar Ludwig, um dos coordenadores da loja em São Paulo.

Segundo ele, a loja em São Paulo oferece mais de 600 itens, entre hortifrútis e produtos processados como arroz, feijão, farinhas, geleias, doces caseiros, entre outros. E ainda vende em sistema delivery para a cidade, via Whatsapp ou e-commerce, no site da loja. São mais de 100 fornecedores, contando as cooperativas. Para se ter uma ideia de quantas famílias de agricultores são beneficiadas é só pensar que uma única cooperativa de arroz orgânico reúne mais de 3.000 famílias de produtores rurais.

O grande esforço é na parte de logística, já que os produtos vêm de todo o Brasil e é preciso pensar no valor do frete. “Como MST, nosso principal lugar de venda são as feiras livres nas cidades onde estão os produtores. Mas as lojas, além de serem uma mostra do que temos nas feiras, elas também são um lugar de encontro, de trocas, um lugar para as pessoas conhecerem o movimento. Elas ajudam muito a diminuir o preconceito que o MST ainda sofre no país”, afirma Ademar.

É preciso incentivo fiscal

Sobre o preço dos produtos orgânicos, ele diz que é necessário um diálogo com o poder público. “Temos hoje 20 milhões de brasileiros que não têm opção do que comprar. E nossa loja paga exatamente os mesmos impostos que um Walmart, por exemplo. Se o agronegócio recebe tanto subsídio do governo, é preciso que haja política pública para subsidiar também os espaços de venda dos produtos orgânicos e da agricultura familiar. As prefeituras poderiam, por exemplo, criar mercados locais e dar subsídio para o aluguel, a água e a luz. Isso reduziria as despesas e o preço final dos produtos, e ainda levaria alimentos de qualidade para além das capitais, onde a população tem menos acesso a eles”, defende.

Também em São Paulo funcionam dois endereços que oferecem alimentos orgânicos direto dos produtores, num esquema de venda inspirado na economia solidária. No Instituto Chão e no Instituto Feira Livre, os produtores rurais definem o preço dos produtos e a loja sugere a cada cliente que pague 35% a mais, para colaborar com as despesas de aluguel, funcionários, embalagens etc. As planilhas com os custos operacionais são divulgadas de forma transparente todos os meses. Quem pode, paga os 35% sobre o valor do produto. Quem não pode, paga o preço de custo estabelecido pelo produtor.

Compras coletivas

Se você mora numa cidade em que o acesso aos alimentos orgânicos não é fácil ou acessível, é possível montar um grupo de compras coletivas. A ideia é encurtar a cadeia de distribuição e, assim, manter um pagamento justo aos produtores mas a um preço final que ajude a democratizar o acesso a esses alimentos.

No Rio de Janeiro, Tatiana Dutra é conhecida por ter fundado a iniciativa Comida da Gente, em 2013. A história começou quando ela se mudou para a cidade depois de uma temporada em Paris. “Lá o acesso aos orgânicos era muito grande. Quando cheguei aqui e não vi a mesma coisa saí em busca de produtores. Mas, para eles entregarem na cidade, era preciso que fosse uma compra maior. Então, comecei a reunir pessoas no Facebook. O grupo cresceu muito e até gerou outros grupos do Comida da Gente em outras cidades do país”, conta.

Tatiana diz que os grupos de compra coletiva são também um espaço de trocas sobre alimentação saudável. “Na rede social, as pessoas perguntam e comentam sobre a qualidade dos produtos, trocam receitas e outras informações. Os produtores acabam entrando para oferecer o que produzem e isso estreita a relação entre quem produz e quem consome”, afirma.

Com caminhos mais curtos entre o produtor e o consumidor, as duas pontas ganham. Os produtores conseguem preços melhores para seus produtos e, com clientes garantidos, reduzem o desperdício no campo e em entrepostos nas cidades. Já os consumidores acessam alimentos orgânicos e de maneira mais democrática. 

Também descobrem um pouco mais sobre os produtores e podem valorizar mais cada produto tirado da terra. Descobrem novas receitas para aproveitar o alimento sem desperdícios e saboreiam tudo isso com mais prazer, afeto e gratidão. Me diz se a comida não muda o mundo?

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