Como me Tornei Vegetariana

Parar de comer carne fez parte de um processo de repensar escolhas e de me conhecer. E também de questionar a forma como amamos os animais e cuidamos do planeta
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01.10.2020

Aos poucos, o desconforto em comer carne foi tomando um lugar na mesa e me fazendo companhia. Eu não sei bem quando é que ele bateu à minha porta, qual dia em que tocou a campainha e pediu para entrar, mas os desconfortos são assim; se infiltram pela fresta, pelo buraco da fechadura, não há como escapar por muito tempo. Há dois anos transformei esse desconforto em ação. E decidi parar de comer carne de uma vez. É um pouco sobre como foi esse processo que agora vou compartilhar com você, que puxou uma cadeira para escutar mais sobre vegetarianismo.

Anos atrás, quando eu pensava em parar de comer carne, muitos receios me atravessavam. Tinha medo de virar a chata que não come em lugar nenhum. Achava que tentaria convencer a todos a “se converterem” ao vegetarianismo também. Eu ia mergulhar em documentários sobre sofrimento animal. E sobretudo: o que é que colocaria no meu prato se não tivesse carne? E o “nunca mais comer carne” recaía sobre mim com o enorme peso da eternidade. 

Mas o mais curioso é que, quando esse desconforto cresceu, junto com meu processo de autoconhecimento e de muitas transformações, fui dissolvendo cada uma dessas ideias preconcebidas. Tive uma conversa muito profunda com a Patrícia Favano, que fundou o Vale da Rainha, um Santuário para resgatar animais de grande porte que sofrem maus-tratos (Aliás, já contamos a história dela aqui).

Isso foi em 2016, mais ou menos um ano e meio antes da última vez que comi carne. Escutar Patrícia falar sobre enxergarmos os animais como mestres que nos ensinam a perdoar me tocou em um lugar profundo. Patricia dizia que acreditava na transformação do homem pelo amor ao bicho, e não pelas imagens de sofrimento.

Espiritualidade e boa digestão

Naquela época, eu começava a me dedicar mais à espiritualidade e me aprofundava em algumas práticas meditativas. Em uma delas, fomos instruídos a não comer carne durante uma semana, e notei como foi muito mais fácil do que eu pensava. Também me senti mais leve, não só pelo estômago, mas em algum lugar mais sutil. 

Muitos não se dão conta de que consomem carne em todas as refeições. De manhã, um presunto. No almoço, um frango. De tarde, mortadela ou peito de peru. À noite, um contra-filé. Eu acredito que o alimento é uma fonte de energia vital muito valiosa pro nosso corpo. Com o ayurveda, aprendi que quando temos  uma boa digestão do que comemos, essa capacidade digestiva (conhecida como agni, ou “fogo digestivo”) transborda para mais áreas da nossa vida. 

Em um dado momento, uma dieta anti-ama (anti-toxina) também me mostrou que comer carne era bastante dispensável na minha nutrição. A verdade é que é um grande mito que a carne é essencial para a boa saúde, para a aquisição de proteínas. Uma dieta equilibrada entre vegetais, cereais, frutas e legumes é muito mais rica para o nosso corpo se manter saudável. Aliás, queria ressaltar aqui: há, inclusive, diversos estudos que relacionam o consumo de proteína animal a mais doenças cardiovasculares e câncer.

Vegetarianismo, sofrimento animal e questão ambiental

Logo eu também fui entendendo que o consumo de carne estava diretamente ligado ao desmatamento da nossa floresta amazônica – cerca de 60% das áreas viram pasto. Afinal, para criar gado são necessários não só enormes pastos, mas também espaços de terra dedicados às monoculturas que vão alimentar esses animais. Hoje, no Brasil, são 208 milhões de pessoas e 218 milhões de cabeças de gado. Há mais gado que humanos, criados para satisfazer um consumo insustentável – sem contar que os gases das vacas aumentam o efeito estufa, a pesca predatória degrada o meio ambiente e a vida marinha, enfim. 

Sinto que em algum momento o homem achou que poderia explorar a terra e os animais sem nenhuma consequência. Passou a ver a natureza não como a si mesmo, mas como objeto. E hoje, inclusive, vivemos a pandemia do coronavírus que é um resultado explícito de desrespeito à vida animal, com grandes consequências econômicas e sociais em todo o mundo. 

Comer é um ato político e, por mais que muita gente ainda não veja ligação entre suas escolhas e o rumo do mundo, basta começar a observar como tudo se conecta para perceber que nossos hábitos precisam ser cada vez mais questionados, inclusive para que a gente possa continuar a existir nesse planeta.

Quando decidi parar de comer carne de vez

Uma vez, assisti ao vídeo de uma garotinha que falava não querer mais comer animais. Ela dizia “são os animais, e eles são legais, eu não vou comer animais”. Em outro momento, ela chegava a elaborar que eles não tinham escolhido ser nossa refeição.

É claro que os pais registraram aquilo achando graça na tristeza da garota, mas esse exemplo diz muito sobre essa inteligência da infância que a gente perde quando cresce, porque vamos aprendendo que “o mundo é assim”, e deixamos para trás essa capacidade questionadora de quem chega querendo entender a lógica da vida e não encontra sentido em tanta coisa…

Pois bem. Quando engravidei, em 2017, meu desejo por comer carne caiu radicalmente. Eu, que nunca gostei de carne de porco e já não era muito chegada a frango, me vi sem muita vontade de comer carne de boi. Peixe era algo que eu ainda gostava, muito. Ceviche, especialmente. Mas senti que comer carne não era parte da cultura que eu queria oferecer pros meus filhos em casa. Não queria eu trazer algo fruto de sofrimento animal pro meu filho comer. E foi assim que eu decidi parar de vez, quando meu filho nasceu, em junho de 2018. Foi como o pontapé que eu precisava.

Prato feito com ingredientes 100% a base de plantas. Foto: Debora Zanelato

O vegetarianismo foi uma escolha que eu quis abraçar

Na minha visão, não seria coerente que eu comesse carne enquanto quisesse que o Ben fosse naturalmente vegetariano. Como o mundo da maternidade já é um tanto cheio de rótulos e premissas, eu não costumo “militar” sobre a minha posição pelo vegetarianismo em rodas de mães porque ainda tenho receio de que pareça que estou apontando o dedo na criação de outros pais.

Penso que a gente escolhe as nossas batalhas decidindo o que é importante priorizar e as demais questões leva da forma que for mais possível. Aqui, não comer carne foi algo que eu abracei como algo importante na minha maternagem. 

E uma nutricionista nos deu todo o suporte e informação para que a gente sustentasse essa escolha, num mundo que fica com dó do seu filho por ele nunca ter comido um bife acebolado mas acha tranquilo oferecer bisnaguinhas, bolachas e refrigerante desde cedo.

Preconceitos e a relação dos outros com o vegetarianismo

Quando parei de comer carne, percebi que também dissolvi aqueles rótulos dos quais tinha tanto receio. Saio para comer com familiares e amigos, com a única diferença de escolher pratos que não levam animais. É claro que sempre prefiro os restaurantes orgânicos e vegetarianos, mas aprendi a me virar.  Também nunca senti vontade de fazer uma palestra particular sobre o assunto durante um almoço com quem come carne. Isso porque impor as minhas escolhas sobre os outros só afasta quem poderia refletir sobre o assunto.

Mas sabe aquela história de que seu exemplo inspira – e também incomoda? Percebi que me tornar vegetariana deu muitos nós na cabeça da minha mãe, por exemplo. “E agora, o que eu faço para você comer?”. Tudo, mãe, só não como carne, mas todo o resto, sim. Hoje ela já se acostumou. E alguns amigos começaram a me olhar meio torto e a não me chamar para algumas coisas – como fazer um churrasco, por exemplo. Mas aí, vamos combinar que o problema não está no vegetarianismo e sim nas companhias, né? Aprendi que nossas escolhas para um caminho autêntico não necessariamente vão ser bem-acolhidas por todos. E tudo bem. 

Outro dia, enquanto conversava com meu irmão, ele comentou de forma muito natural que meu filho não comer carne foi uma escolha minha, e não dele. Mas, como tudo é uma questão de perspectiva, eu respondi: “Sim, assim como a escolha do seu filho comer carne não foi dele, mas sua”. Percebe? Um dia, o Ben pode querer experimentar carne e adorar. Assim com meu sobrinho pode dizer: “eu não quero mais comer carne”. Por enquanto, eu ofereço o meu melhor, dentro do que eu acredito fazer sentido na minha visão de mundo.

Inspiração para consumir menos carne


Também há quem imediatamente me peça “receitas sem carne” quando descobre que sou vegetariana. Eu até acho um pedido gentil e interessado, mas tento trazer a reflexão de que não consumir proteína animal é mais simples e acessível do que ter que mudar todo o caderno de receitas. Ser vegetariano ainda tem sido uma escolha tida como “elitizada”,  mas eu acredito que aos poucos isso se transforma. Aliás, os meninos do Veganos Periféricos são um exemplo maravilhoso disso.

Podemos trocar o “você substitui a carne pelo quê” para um olhar que enxerga tudo o que a natureza nos oferece em abundância. Um universo de texturas e sabores dos quais estamos muito distantes por reduzir uma refeição entre carne, arroz, feijão e alface. Hoje, por exemplo, meu almoço foi arroz com espinafre, lentilha e quinoa mista, cenoura, broto de feijão, pimentão amarelo e abobrinha refogados, cogumelo e batata doce assados. O prato não era nada elaborado, mas estava colorido e muito saboroso. 

Eu também confio no exemplo das nossas mudanças. Quem está aberto a refletir sobre  padrões e descobrir novas possibilidades de bem-viver pode se questionar se consumir tanta carne realmente faz sentido. Na casa dos meus sogros, antes tudo levava bacon – até o arroz. E agora esse consumo foi reduzido, para que a nossa pequena família partilhasse das refeições em conjunto. E eles se sentem muito mais saudáveis – até os resultados de colesterol melhoraram. Vejo amigos inspirados pela minha companhia a experimentarem pratos novos e a perceberem que dá para comer maravilhosamente bem sem carne.

Cada um vive um processo

Há quem sinta muita dificuldade em parar de comer carne, e acho que cada um vivencia um processo singular. Há quem decida por reduzir aos poucos, o que também é um ganho enorme, e há quem prefira parar de vez, como eu fiz. E eu contei que gostava de comer peixe, né? Lembro de uma viagem, poucos meses depois de ter me tornado vegetariana, em que eu senti muito desejo de experimentar um ceviche do menu. E comi. O sabor me surpreendeu: não senti o prazer de antes, não foi bom. Hoje eu também não sinto mais o peso da eternidade: o “nunca mais comer carne em toda a minha vida”, porque não sinto falta do sabor. 

Na verdade, quando vejo um frango ou um contra-filé, penso no animal, não num prato de comida. Não sei se é assim com todo mundo. Também não sei se um dia vou sentir vontade de comer peixe de novo. Eu não tenho o hábito de comer carnes vegetais, por exemplo, pois hoje não sinto falta do gosto da carne. Mas considero uma alternativa valiosa para conter o consumo de animais. Tem gente demonizando as carnes vegetais com o equívoco de que são como um embutido qualquer, o que não é verdade. Esse pensamento afasta a possibilidade de conhecê-las como um avanço, mais saudável para o meio-ambiente, os animais e a saúde. 

E, por mais que eu não coma ovos com frequência e já não tome leite há muitos anos, eu ainda como queijo de vez em quando. Por isso, ainda não me considero definitivamente vegana. Hoje, sinto que as minhas escolhas fazem parte de como eu me expresso no mundo e como cuido dele e de mim. Por isso, o que coloco no meu prato tem especialmente esse sabor.

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